Diário de uma Transformação

Dia 25 – 03 de novembro de 2015 – Enfim, o grande dia!

Acordei bem cedo para fazer a barba para o grande dia – a barba estava enorme, deu bastante trabalho, mas a minha empolgação era tamanha que tudo corria muito bem, eu estava quase flutuando no ar, era inacreditável que eu tivesse chegado até ali, até o grand finale. Às 06:45, como prometido, Paco foi lá em cima acordar o povo, mas nos encontramos na escada, pois eu já estava descendo para o salão, enquanto ele subia para realizar esta difícil missão.

Faço meus alongamentos, enquanto um a um vem chegando para o café da manhã em grupo, o que Paco fez questão de frisar no dia anterior. Paco é uma figura, com seu jeitão que é um misto de um cara sério e durão com outro muito brincalhão, um grande ser humano. Enfim, tomamos um café da manhã muito gostoso e reforçado para percorrer o último trecho do Caminho de Santiago até Finisterre, um caminho que trouxe gente de vários outros caminhos e de diversas nacionalidades, um fim tão esperado de uma grande jornada rumo ao fim do mundo! Para variar, sou um dos últimos a sair, apesar de ter sido o primeiro a acordar, e coloco a minha grande capa de chuva que cobre tudo, inclusive o mochilão. É, o último dia tinha que ser chuvoso, uma chuva que vem abençoar o caminho de todos que tiveram coragem e ousadia de chegar até ali.

A emoção toma conta a cada passo dado, o dia chuvoso estava perfeito, me faz lembrar vários momentos da viagem, desta incrível jornada que entrava em seu 25º dia, o derradeiro dia! Logo estou beirando o litoral, após uma descida entre árvores molhadas, caminhando por estradas e ruas igualmente molhadas, e de repente avisto uma placa onde está escrito Finterra, o que me deixa todo arrepiado. Agora, uma ladeira, onde passo pelas simpáticas mãe e filha mexicanas e adentro uma floresta beirando o mar. Mais uns passos e encontro o casal holandês descansando e comendo umas bananas; digo a eles “Banana Time”, arrancando gostosos sorrisos de suas faces.

Eu não queria parar, eu não podia parar, a empolgação era demais, mas tive que parar e contemplar A VISÃO em um cume – Finisterre estava lá no horizonte, apenas a uns poucos quilômetros… O fim do mundo se abria diante dos meus olhos! Aproveito para tirar a capa de chuva, precisava sentir o vento e o chuviscar em minha pele, queria absorver todo aquele momento plenamente. Solto um grito de deslumbre e vitória, uma vitória que se aproximava, que era quase palpável. O casal holandês chega e compartilha um pouco comigo daquele momento único e segue o seu rumo; eu ainda fico mais um pouco e depois vou descendo metro a metro rumo ao destino final do Caminho de Santiago.

Agora já estou nos entornos da cidade, caminho devagar e com leveza. O Caminho havia me dito há pouco que eu tinha que ir direto ao farol, que a princípio eu intencionava ir só no dia seguinte. Sendo assim, passo em um mercado e compro uma garrafa de vinho para celebrar o momento, além de pão e queijo para o almoço. Eu seguia as últimas setas amarelas do Caminho, feliz da vida por estar caminhando pelas ruas de Finisterre, e enfim chego à estrada que leva ao farol. Dou uma parada, descanso um pouco e admiro o lindo visual. Agora só restava cerca de 2 km e meio para o fim… O que eram 2 km e meio para quem já havia percorrido quase 700 km, sem contar as caminhadas extraoficiais para explorar as localidades?

Pego então o meu último fôlego e sigo percorrendo o belíssimo trecho final, com paisagens de tirar o fôlego à minha esquerda, quando de repente um lindo final de Caminho de Santiago se desenha no céu – O Sol surpreendentemente sai de trás das nuvens, lindo, com uma luz especial, uma luz que dizia “Vai, agora falta bem pouco!”. O reflexo no mar era sedutor, portanto dou mais uma parada ao pé da estátua de um peregrino, uma espécie de monumento. Lindo, absolutamente fantástico, absolutamente perfeito! O último gás, sigo em frente, passo a passo, batida a batida de coração, cada vez mais forte, cada vez mais intenso…

Chego à entrada do local onde fica o farol. Sigo em frente, as lágrimas escorrem em meu rosto, o vento acaricia todo o meu ser. Passo por umas lojinhas com produtos turísticos e logo à frente e à direita, EL FARO DEL FIN DEL MUNDO. Passo pelo farol e agora só algumas pedras me separam do oceano, me separam do fim. Vou descendo devagar, passo pelo primeiro monumento com várias bandeiras, conchas e outras coisas deixadas por peregrinos, mais à frente e à esquerda há outro local desses, mas algo me diz para continuar em frente e um pouco à direita encontro a pedra que me chamava. Vou até a pedra, era o fim, abaixo só pedras inacessíveis e o mar – piso na pedra e… ULTREYA E SUSEYA!! Seguro o meu cajado com os braços esticados acima e grito bem alto as palavras mágicas de quem completa o Caminho de Santiago, as palavras que eu não pronunciei em Santiago de Compostela, mas que agora saíam com toda a força do fundo de minha alma. Um grito que havia sido guardado para aquele momento especial, aquele momento que enfim aconteceu, que enfim existia.

Fico ainda um bom tempo de olhos fechados, não sei mensurar quanto, só sei que o vento soprava cada vez mais forte, quase me derrubando, como se dissesse “Bem-vindo ao fim, agora é hora de um novo começo”. Sendo assim, olho para trás e avisto uma minicaverna perfeita para queimar minhas roupas, um dos rituais que o peregrino que chega a Finisterre faz, que significa justamente a substituição do velho pelo novo. Troco rapidamente de roupa, as que eu estava vestindo eram as “escolhidas”, as que mais usei durante os 25 dias de caminhada. Porém, após muitas tentativas, desisto de tentar queimar as roupas; ventava muito e o isqueiro que eu carregava não estava funcionando direito. Enfim, queimei-as mentalmente e segui o meu rumo, pois é assim a vida: quando não conseguimos algo, temos que seguir adiante da mesma forma. Pego a garrafa de vinho, que já estava aberta para tentar ajudar a fazer fogo, e faço meus brindes, celebrando aquele momento vitorioso. Um momento único e inesquecível!

O retorno para a cidade foi em total clima de descontração e glória. Encontro o casal holandês mais uma vez, estavam indo para o farol. Brinco muito com eles, e quando me perguntam como foi lá, eu respondo que não tinha como descrever o momento, que eles teriam que sentir por si próprios. Despeço-me deles e caminho mais um pouco, parando em uma grande mesa de pedra colocada estrategicamente do outro lado da pista, com um bonito visual para o mar. Só ali o meu vinho acabou, eu estava enebriado de vinho, de vida, de virtude, de poesia e… de amor! Mais ainda faltava o ritual final, que seria executado perto do pôr do sol, na hora sagrada. Ainda teria que esperar algumas horas, por isso vou procurar o Albergue Municipal de Finisterre, onde adquiri um documento tipo um diploma equivalente à compostela de Santiago de Compostela. O tempo parecia não passar no fim do mundo. Tive que esperar o albergue abrir, e encontro o Rafael e outra peregrina holandesa que havíamos encontrado em Concurbión e que ele já conhecia de antes. Sento-me com eles em um restaurante e aguardamos juntos o albergue abrir às 13:30h.

Dou minha entrada no albergue, deixo minhas coisas em cima da cama e saio rumo à praia que eu havia escolhido para realizar o Ritual do Renascimento. Era o momento mais importante de toda a jornada, o momento onde o meu novo ser, que foi moldado pelo Caminho de Santiago e por Deus em todos esses dias de aprendizado, iria finalmente nascer. A morte do meu antigo eu havia ocorrido simbolicamente nas pedras do farol – o novo ser nasceria e seria batizado nas águas do Atlântico Norte.

Chego enfim à praia, deserta e com um belo monte em sua margem direita. Tenho muito tempo ainda para a hora do ritual, por isso resolvo fazer a trilha que levava ao cume do monte, quem sabe não encontrava outra praia mais escondida ainda? Fico um bom tempo caminhando lá em cima, até o momento em que paro em uma pedra bem em uma das pontas, com o mar e outras pedras lá embaixo. O vento me convida a cantar, e assim canto diversas canções, quando decido que já era hora de voltar à praia e meditar um pouco antes do grande momento. E assim o fiz. Em seguida dá uma vontade de correr para aquecer o corpo, pois o vento estava forte e frio. E corro, mesmo tendo caminhado por 25 dias seguidos numa média de 30 km por dia. Porém, foi uma corrida surpreendentemente tranquila, até porque um novo ser estava prestes a ganhar o mundo, um ser com muita energia e vitalidade. Enquanto corria, reparei em um lugar perfeito no outro canto da praia, e levo minhas coisas para o local. Durante as horas que fiquei lá, pouquíssimas pessoas apareceram. Mas eu faria o ritual de qualquer jeito, com plateia ou não.

O tempo vai ficando cada vez mais feio, já não há mais raios de sol no céu, só nuvens cinza chumbo. E como estou sem relógio, será um pouco difícil precisar a hora do crepúsculo. Mas estou tranquilo, tenho a sensação que sentiria quando fosse a hora. Após meditar mais um pouco e agora de pé em cima de uma pedra, ouço uma voz dizer “Chegou a hora, meu filho”. E assim, tiro a roupa, caminho em direção ao mar e mais uma vez entoo as palavras mágicas de quem completa o Caminho e faço uma breve oração, antes de adentrar as águas geladas do Atlântico Norte. Foram alguns mergulhos, mergulhos de um novo ser, um ser que nascia e era batizado naquele momento, naquelas águas. Saio depois de um tempo como vim ao mundo pela primeira vez e paro um pouco perto da grande caverna no fim da areia, onde danço em movimentos circulares um canto indígena que eu não tinha a menor ideia de onde vinha, mas que o sentia e o entoava como se fosse parte de mim.

E assim, enfim, nasce um novo ser, o momento tão aguardado acontece, e hoje sou metade brasileiro, metade espanhol, e tenho uma nova data de aniversário: 3 de novembro. Agora tenho duas datas por ano para celebrar.

E VIVA A VIDA, E VIVA À POSSIBILIDADE DE RECOMEÇAR!

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