Diário de uma Transformação

Dia 24 – 02 de novembro de 2015 – Paisagens inesquecíveis e um dos momentos mais emocionantes de toda a jornada

Acordo com uma energia alucinante para percorrer o penúltimo dia do Caminho de Santiago até Finisterre, o fim do mundo! Ainda está escuro, e assim pego minhas coisas sem fazer muito barulho e atravesso a ruela para a cozinha do albergue, num frio de rachar. Para variar, sou o primeiro a levantar, e preparo o meu café da manhã em silêncio, na maior paz. Pouco depois reencontro algumas pessoas que conheci na noite passada e depois de tudo pronto, desejo buen camino a todos, e saio mais do que feliz para esta que seria uma das mais especiais caminhadas de todos estes dias especiais, bem equipado contra o gostoso frio do amanhecer.

Basta algumas poucas centenas de metros para o Caminho de Santiago me revela uma das vistas mais lindas que já vi em toda a minha vida: eu caminho à beira da montanha e à minha esquerda sou acompanhado por canyons, rios e cachoeiras incríveis! Especial, muito especial, acho que caminho de boca aberta de tanta contemplação, de tanta beleza e paz que me cerca e que me “atinge” carinhosamente. Eu não tenho escolha, tenho que cantar para celebrar mais um momento mágico oferecido pelo Caminho, e desta vez canto alto, bem alto, como se estivesse no palco, como se aquele cenário maravilhoso fosse um imenso palco. Que momento! Que vida, que experiência! O meu canto é uma forma de agradecimento, de dizer a Deus “Muito obrigado por tudo”. Tudo estava perfeito, cenário exuberante, mochila com peso normal, disposição e energia contagiantes, emoção à flor da pele, friozinho gostoso…

Continuo caminhando por montanhas com vistas lindas, tenho a impressão que o dia será muito especial, começou muito bem, penso eu com os meus botões. Ando mais um pouco e surge um restaurante no pequeno trecho de estrada que atravesso, com uma propaganda interessante e tentadora: “Next bar 15 km, stop and eat now”, onde vejo alguns peregrinos que foram “pescados” pela inteligente jogada de marketing. Porém, eu já havia me programado a não cair mais nesse tipo de tentação, já tinha tudo esquematizado para o dia inteiro, e felizmente deu tudo certo em relação ao planejamento que fiz.

Caminho mais um pouco, uma subida um pouco elevada pelo asfalto, e chego na tão esperada bifurcação que separa os dois destinos finais: à esquerda, Caminho de Santiago para Finisterre; à direita, para Muxia. Paro bem na bifurcação, coloco o mochilão em cima da sinalização de pedra e descanso um pouco, admirando o visual do fim do mundo. Depois, dou mais alguns passos e a visão que eu tanto queria ver surge diante dos meus olhos: o mar. Agora a sensação de “estou chegando” era mais palpável, mais real, mais viva!

Saio do asfalto e entro em um percurso por entre campos selvagens com algumas pedras bem grandes ao redor, algumas mais distantes, outras mais próximas do Caminho de Santiago. Resolvo sentar em uma delas, depois de topar com alguns peregrinos e ciclistas, e como uma das deliciosas barras de cereal de banana e chocolate, vislumbrando aquele mundão todo à minha volta, campos, vales, montanhas e o mar ao fundo. Um quadro inebriante, nem vinho era necessário naquele momento – o Sol e o vento frio que soprava davam ainda todo um tempero especial à ocasião. Após uns bons momentos de contemplação, resolvo seguir caminho, e em pouco tempo adentro um trecho entre grandes pinheiros. Subitamente tenho uma grande revelação sobre o futuro, algo que me deixa empolgado demais, tenho que controlar para não acelerar muito os passos devido à energia ocasionada pelo fato. Mais uma vez uma canção da banda YES me vem à cabeça, um refrão que tem me acompanhado em vários momentos de gratidão:

“There’s a time, and the time is now and it’s right for me, it’s right for me, and the time is now   There´s a word, and the world is love and it’s right for me, it’s right for me, and the world is love.”

O dia está realmente lindo, magníficas paisagens me cercam e me transmitem uma sensação de paz, uma paz profunda. Reparo em mais “cataventos eólicos”, parece que a Galícia é a terra da energia que vem dos ventos que abençoam este lugar tão especial. E quanto mais a oeste, mais ventos. Muitos pensamentos e reflexões me envolvem, algumas respostas enfim surgem, o momento é propício para tudo isso. Avisto à esquerda uma vila no estilo suíço, mas não passo por ela, o Caminho de Santiago tem outros planos para mim, planos maravilhosos!

Vejo o mar ainda ao longe, caminho bastante, muitas subidas e descidas na montanha e sempre em direção a oeste, quando de repente em um descampado eu vejo o mar perto, bem mais perto dessa vez! Não tenho dúvidas, paro para contemplar aquela visão tão especial, inclusive tiro os tênis e as meias, coisa que raramente fiz em todos aqueles 24 dias de caminhada até então. Como um chocolate, cruzo as pernas, coluna ereta e um pouco de meditação é inevitável, é uma forma de agradecer pelo momento. Difícil pensar em cidades ou civilizações diante daquele cenário mágico – estou no meio do nada, o nada que na verdade é tudo, que existe por si só.

Após o momento de reflexão, sinto alguém se aproximando sutilmente, como se não quisesse estragar aquele meu momento especial. Abro os olhos e vejo que é aquela alemã simpática com quem eu havia encontrado outras vezes, e ela diz para mim que imaginava me encontrar ali contemplando a paisagem. É curioso como as pessoas que percorrem o Caminho de Santiago parecem conhecer bem umas as outras, mesmo se estiverem juntas por apenas alguns minutos. Há uma sintonia interessante entre os peregrinos, entre os verdadeiros peregrinos. Conversamos um pouco e resolvo dar a ela um cartão de visitas meu e descubro que seu nome é Sibila, e combinamos de entrarmos em contato via Internet depois de terminarmos esta jornada importante em nossas vidas…

Volto a caminhar, enquanto Sibila fica ali onde eu estava, certamente para ter o seu momento também, e avisto uma bonita montanha que me faz lembrar os Alpes Suíços que eu via da janela quando estive no país meses atrás. Agora caminho em direção ao mar, ele está bem à frente e abaixo, e sou acariciado por gostosos ventos marinhos. O cansaço ameaça bater, mas nesse momento começa uma descida, uma grande descida rumo ao oceano, e de repente uma visão absurda do litoral, que quase me faz cair para trás; não tenho como não parar e contemplar aquela cena. Há uma placa que informa que Cee, a cidade que vejo lá embaixo, está a 4 km, ou seja, serão mais ou menos 4 km de descida. Em um determinado momento olho para a esquerda e percebo que aquela montanha que me lembrou os Alpes toca o mar, uma visão surreal – aproveito e paro para contemplar novamente mais uma bela cena diante dos meus olhos agradecidos, montanhas que “beijam” uma linda baía… A Galícia e suas eternas surpresas!

Paro em um bar para almoçar o meu sanduíche, e pergunto a um peregrino que também está lá (e o qual encontrei algumas vezes hoje no Caminho) se havia alguém na mesa ao lado da dele, ele diz que não, perguntando em seguida o famoso “Where are you from?”, talvez a pergunta que mais ouvimos de outro peregrino no Caminho de Santiago, rs. Eu respondo “I’m from Brasil”, no que ele responde “Eu também”, e daí começa enfim uma conversa em língua portuguesa, algo raro nesta fase final do Caminho. O nome dele é Rafael, tem 29 anos e é mais um que resolveu percorrer El Camino após uma separação, no caso dele um relacionamento de sete anos. Ele é do Espírito Santo, estado que tem muitas semelhanças com o estado do Rio, e temos uma agradável conversa, enquanto tomamos uma cerveja para celebrar o momento e também pare refrescar um pouco, pois o sol estava surpreendentemente forte. De repente surge a Sibila descendo a ladeira, e ela me brinda com um dos momentos mais emocionantes de toda esta maravilhosa experiência de percorrer o Caminho de Santiago: Sibila canta uma linda canção e diz que é para mim, que lembrou da música por causa de uma frase que eu disse em nossa última conversa – eu disse “I am alive”, tentando explicar a ela a sensação que mais me acompanhou no Caminho, o que esta experiência me faz sentir. Ela cantou a seguinte canção:

“I see the sun, I see the sky, I am alive, I am alive
  I see the moon, I see the stars, I am alive, I am alive

I am alive, I am alive, I am alive, I am alive
I am alive, I am alive, I am alive, I am alive ”

A canção tem uma melodia linda, é a canção que eu estava procurando, e naquele momento decido que iria cantá-la todos os dias pela manhã, logo após acordar, como mais uma forma de agradecer por estar vivo, cada vez mais vivo e apaixonado pela vida!

Eu e Rafael caminhamos juntos até Concurbión, destino final do dia, e acabo o convencendo de também ficar no Albergue San Roque, que foi indicado pelas meninas do Mosteiro de Herbón. O albergue também era franciscano, ou seja, era via donativo e teríamos janta e café da manhã por conta da casa, uma bela atitude em relação aos peregrinos que devia acontecer muito mais durante o árduo caminho da peregrinação. Tivemos que fazer hora em um restaurante, pois Concurbión era do lado de Cee, as cidades se confundem, parecem ser uma coisa só, não levamos nem 10 minutos para sair de uma e entrar em outra. O albergue só abria às 16h e era um pouco afastado, portanto saímos por volta das 15h e fomos caminhando bem devagar, encarando uma grande ladeira que parecia não ter fim. Chegamos às 15:30h e aguardamos abrir, enquanto outros peregrinos chegavam, como o simpático casal de holandeses que mora na Suécia e o igualmente simpático austríaco que disse no café da manhã que também ficaria em San Roque.

À noitinha, mais rostos conhecidos foram chegando, todos ansiosos pela janta que Paco, nosso anfitrião, preparava já há algum tempo. Porém a espera era mais uma oportunidade de os peregrinos se conhecerem melhor, as poucas vezes na viagem que houve estas reuniões estão entre os melhores momentos de toda a jornada, para mim estes encontros são sempre muito importantes e especiais. Quando o jantar estava para ser servido, chegam os últimos hóspedes da noite, um francês de 26 anos e um canadense de 21, ambos com cara de mortos e cansados – também, pudera, pois eles haviam saído de Santiago de Compostela na noite anterior e tinham caminhado incríveis e absurdos 78 km em cerca de 25 horas de caminhada direto, parando para dormir por apenas três horas. Coisa de doido, todos se divertiram bastante com a história daquela dupla de amigos, e todos se regozijavam com o sorriso vitorioso em seus rostos por terem realizado tamanha façanha.

Enfim, mais um dia mágico que terminou com mais uma noite perfeita, ideal para antecipar o último dia de caminhada rumo ao fim da jornada, rumo ao fim do mundo!

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