Diário de uma Transformação

Dia 23 – 01 de novembro de 2015 – Mais perto do fim do mundo

Durmo muito bem no Albergue Lua, o lugar realmente tinha uma energia especial, provavelmente por causa da simpática dona e também pela tranquilidade e serenidade dos peregrinos que lá estavam. Na noite anterior segui a dica da anfitriã e comprei algumas coisas no mercado para uns dois dias, coisas para almoço, jantar e café da manhã. Deitei-me após fazer uma janta um tanto deliciosa e tomar uma cerveja de um pub, sentindo na pele o frio extremo da noite quando fui rapidamente buscar a bebida no local, que ficava apenas a uns 50 metros e na mesma calçada do albergue.

Ao amanhecer, o frio intenso continua, saio depois do café e meus alongamentos, caminho uns 200 metros em meio a uma neblina que me faz lembrar São Francisco de Paula, a querida São Chico, na Serra Gaúcha, último lugar que morei no Brasil; assim como em São Chico, Negreira também possuía um microclima por ser no alto de uma montanha, como bem me explicou a proprietária do Albergue Lua.

Caminho extremamente empolgado, mas de repente percebo que esqueci o meu cajado, o que imaginei que pudesse acontecer quando o coloquei no lugar reservado para cajados e afins na noite passada. Volto então para pegá-lo, numa boa,sem estresse. Estresse? Está ai uma coisa que acho que jamais vai fazer parte do meu dicionário particular novamente, não depois de percorrer o Caminho de Santiago e passar por uma verdadeira transformação.

Está muito frio, uns 5 ou 6 graus no máximo, eu caminho de luvas e toca, bem equipado. A passagem pela cidade é rápida, logo entro em um lindo bosque beirando a montanha, que me dá uma vista espetacular do vale onde está Negreira. Agora deve ser um pouco mais de 8:30h, e um grupo de ciclistas passa por mim e me deseja buen camino, o que sempre dá um ânimo a mais. Pego umas uvas, que caem muito bem como reforço do café, e logo depois estou saindo do bosque e pegando a rodovia, onde penso em minha mãe e me emociono, por todo apoio que ela está me dando neste momento crucial de minha vida. Lembro que hoje é o antepenúltimo dia desta incrível experiência, e isso me anima mais ainda, me impulsiona.

Vou precisar de bastante injeção de ânimo hoje, penso eu, pois a mochila está mais pesada por causa dos mantimentos extras que carrego, deve estar agora com uns 12 ou 13 kg, e isso para quem já está caminhando há 23 dias e vai percorrer 33 km nas próximas horas não é nada fácil. De repente surgem algumas ovelhas e carneirinhos, quando faço uma curva em uma estrada de terra que agora percorro, e automaticamente penso nas crianças, Layla e Dimi adorariam ver esta cena. Ando mais um pouco e paro na entrada de outro bosque, mais um bosque galego em menos de uma hora, isso é bom demais, isso é a Galícia<>, penso eu. Uma simpática peregrina alemã ia passando por mim e percebe o meu encantamento com a paisagem e puxa assunto comigo, trocamos algumas palavras e pensamentos em inglês e depois ela segue o seu caminho, o mesmo que farei daqui a pouco. Vários caminhos em um só Caminho, é o pensamento que me vem à mente – quantos caminhos pessoais já não passaram por El Camino…

Agora penso na grande vontade que tenho de postar logo estes relatos, de compartilhar esta experiência magnífica com amigos, familiares e leitores, enquanto caminho em mais um lindo bosque. Mas já tenho tudo planejado em relação a isso, tudo acontecerá no tempo certo. Ainda está frio, sai aquela “fumaça” pela boca, apesar do Sol, que parece que vem com tudo hoje. O dia está lindo, realmente lindo, o bosque é maravilhoso, e em determinado momento paro para comer uma barra de cereais que comprei ontem no mercado – descubro felizmente que estou comendo a barra de cereais mais gostosa do mundo! A barra é de banana e chocolate e é uma delícia, tanto que como duas em vez de uma, coisa que eu não havia feito antes. Continuo a caminhar, o momento é divino, e mais uma vez agradeço por tudo, quando novamente vem à minha cabeça uma canção que volta e meia vem cantarolando pelo Caminho, a Three Litlle Birds, do Bob Marley, aquela que diz “Don’t worry about a thing, cause every litlle thing is gonna be alright” – nos momentos mais sombrios que tive, cantar esta música me ajudou bastante. E agora ela vinha naturalmente, no momento em que ela quisesse vir, pois é sempre bom lembrar que não precisamos ficar nos preocupando demais com as coisas, pois no fim tudo dará certo, porque tudo está certo! No fim do bosque, lindos cantos de pássaros agora davam o tom da Canção da Vida.

Atravesso uma pequena estrada e entro em outro bosque, mas não sem antes reparar em uma frase escrita no asfalto: Galicia is not Spain. Penso nisso, em como há tantos movimentos separatistas mundo afora, como se já não existissem fronteiras o suficiente. Para mim, cada vez mais o mundo é uma coisa só, fazemos parte de uma só família gigantesca, tudo o que fazemos influi no universo e por isso não podemos deixar jamais de fazer a nossa parte. Sigo filosofando e nem percebo que agora estou no topo da montanha, com um céu estupidamente azul logo acima de minha cabeça. O dia realmente está de tirar o fôlego, com certeza o dia mais bonito que vi em terras galegas, neste pedaço tão especial da Espanha e do mundo.

Desço um pouco e saio do bosque, e me deparo com uma linda paisagem campestre, um breve intervalo entre um bosque e outro. O lugar é perfeito, e à frente tem até uma mesa e bancos de pedra, com uma fonte ao lado; não penso duas vezes, dou uma folga aos meus pés e aproveito para tentar meditar um pouco ao som do barulho da água que jorra da fonte. O momento é especial, fecho os olhos e depois de um tempo me vejo em imagens de um futuro próximo, e isso me deixa feliz demais, pois é “um futuro de realizações, conquistas e reconhecimento. Saio do estado especial quando ouço passos de outro peregrino se aproximando, mas aqueles momentos meditativos já tinham me valido o dia…

O 23º dia de Caminho de Santiagoe segundo dia da etapa final rumo a Finisterre é um dia sem pressa, um dia perfeito e intenso até então. Resolvo trocar a água, colocando a água natural da fonte em minha garrafa, e como um pedaço de pão antes de seguir, quando curiosamente surgem uvas bem no início do próximo bosque. Digo curiosamente porque geralmente quando como um pedaço de pão, uvas surgem no Caminho, isso tem sido uma tendência já há vários dias, como se fosse uma mensagem subliminar, o famoso, pane & vino, o que aceito de bom grado, assim como todas as ofertas generosas que o Caminho tem me trazido.

Caminho agora desviando de grandes poças de lama, apesar de dois dias seguidos de sol forte. A beleza do caminho à minha frente é surreal, penso na construção de alguns trechos do Caminho de Santiago como o que percorro agora, com lindas pedras enfileiradas lado a lado, tanto no esquerdo quanto no direito. É muito bonito mesmo, tem magia, tem poesia. Quantas pessoas não sentiram o mesmo que eu percorrendo este caminho milenar de peregrinação, quantas pessoas na história da humanidade também não procuraram sentido para suas vidas percorrendo caminhos como este, pois são tantos caminhos espirituais mundo afora… Penso também no meu retorno à Lisboa, está chegando a hora de rever as crianças, certamente outro momento mágico!

Agora estou caminhando a céu aberto em uma comunidade deserta, há mais cataventos eólicos espalhados pelas montanhas do que gente na rua. Sinto pequenas doses de fome, o que será uma tendência durante o dia inteiro. Passo por várias cachoeiras e rios, o que é sempre algo que me alegra a alma, e de repente olho para o céu e a Lua ainda está lá, em plena luz do dia; pela posição do Sol deve ser umas 10:30h. Penso no vazio, no imenso vazio ao meu redor, parece que quanto mais caminho a oeste, menos gente e construções humanas encontro.

O Caminho me leva agora para uma rodovia igualmente deserta, eu poderia andar bem no meio dela que estaria em total segurança, são longos minutos até aparecer um veículo. Apesar do cansaço e da mochila pesada, acabo pegando um ritmo bom no asfalto e deixo-me levar, tentando abstrair das dores, absorvendo toda aquela paisagem sem fim. Passo por ma placa que informa que eu já percorri 13 km, pois estou adentrando Vilaserio, ainda faltam 20 km para o destino final. A paisagem muda, caminho por uma estrada de terra em meio a campos agrícolas com animais, avisto aquelas vacas clássicas malhadas em preto e branco, um monte delas juntas. Antes disso, passei por um Café cheio de peregrinos, pois estes Cafés passam a ser tipo um oásis nas longas caminhadas cada vez mais desérticas, no que se refere à vida humana.

Almoço sentado em um mudo de pedras no início de um trajeto pelas montanhas, de frente para um visual inspirador, um quadro lindo pintado pela natureza. Lembro das reportagens e notícias sobre histórias de pessoas que já peregrinaram por diversos caminhos, que vi nas paredes do Albergue da Lua ontem. Havia um senhor oriental que havia feito o Caminho de Santiago 40 anos depois da primeira vez, tinha outro senhor que já fez vários caminhos dentre eles o Caminho de Roma, saindo dos Pirineus e indo até a capital italiana, um caminho que eu tenho muita vontade de fazer um dia, assim como o Caminho Primitivo, que é um dos caminhos que levam a Santiago e dizem que é o mais bonito de todos. E eu ali, super realizado de estar chegando ao fim do Caminho de Santiago rumo a Finisterre, quem sabe também não é apenas o primeiro de muitos?

Enquanto como e filosofo sozinho, vem em minha direção novamente a alemã que havia conversado comigo mais cedo, mas agora conversamos em espanhol, pois ela quer treinar o idioma. E é mais uma boa conversa rápida, mais um encontro sagrado, pois nos identificamos bastante em nossos pensamentos e reflexões sobre a vida. Ao mesmo tempo, muitos peregrinos passam por mim enquanto almoço, sei que lá na frente devo encontrar alguns deles, sei que outros não verei mais. É assim o Caminho, é assim a vida…

Fim do almoço, hora de colocar outras roupas para secar. Sendo assim, guardo a toalha já seca do lindo Sol que nos presenteia com sua tão desejada presença e coloco a sunga, cuecas e meias penduradas no mochilão. Caminho um pouco e quando vou conferir meu dinheiro, percebo que sumiram 10 eurosde meu já curtíssimo orçamento. Volto então, procuro pela nota de 10 e não acho, mas encontro a sunga jogada na grama após a mureta onde eu estava sentado. Enfim, fui procurar uma coisa e acabei encontrando outra, às vezes é assim mesmo, não? Fico um pouco inconformado de ter perdido o dinheiro, mas logo decido não me chatear com isso, pois não há motivo nenhum para chateações, há coisas mais importantes acontecendo, há um final de busca acontecendo, há um renascimento prestes a acontecer, e é isso que importa de verdade, parece que essa é a mensagem que o Caminho quer me transmitir.

Assim que volto ao Caminho de Santiago, o sino de uma igreja começa a tocar uma melodia de três notas que ficou se repetindo e repetindo incessantemente, sem dar as horas, apenas a melodia, bonita e pausada, como se fosse um mantra. Só sei que a melodia faz muito bem à minha alma de músico e me acompanha durante uns 2 km, mais um dos mistérios do Caminho. Durante uma caminhada no meio do nada, eu refletia sobre a questão dos eletrônicos, de como dependemos deles hoje em dia, de como temos a necessidade quase vital dos aparelhinhos e quitutes modernos. É curioso porque o Homem se virou quase o tempo todo sem que existisse energia elétrica, que é algo muito recente se formos contabilizar toda a história da humanidade. Tantos gênios, dentre artistas, filósofos, médicos, políticos, líderes etc viveram suas vidas sem nada disso; por isso fiz a escolha de percorrer o Caminho sem nada eletrônico, porque tantos antes de mim assim o fizeram, ou seja, necessidade mesmo de se viver com estas coisas não existe, a não ser que criemos esta necessidade. Veio até um pensamento engraçado à minha mente: imagina se Jesus Cristo tivesse que convidar as pessoas para a Santa Ceia por e-mail ou telefone? Mensagem da criação do evento no face? É, acho que de vez em quando é saudável nos questionarmos sobre a real necessidade ou utilidade de termos tantos aparelhos modernos eletrônicos em nossas vidas…

Caminho muito tempo no meio de um nada cada vez mais selvagem, campos infindáveis, e me vem outra reflexão, sobre campos e bosques. Caminhar entre bosques faz com que tenhamos a sensação de fazer parte da natureza, é tudo muito intenso, muito vivo, fazemos realmente parte do contexto, tudo é uma coisa só. Outra coisa é caminhar por campos imensos, fica uma sensação de pequenez no ar, nos mostra o quão pequenos somos, apenasum pequeno pontinho naquela paisagem enorme, quem dirá em relação ao planeta ou o universo. Essa era a mensagem do Caminho de Santiago naquele momento, que às vezes somos grandes, intensos, mágicos, e outras somos mais contidos, reservados, humildes… O segredo é somar as forças opostas, sermos grandes, mas ao mesmo tempo humildes, por exemplo. E ainda há a questão do tempo: não fossem os parques eólicos espalhados pelas montanhas, seria difícil precisar um tempo exato para aquela paisagem, aquele contexto natural, podia ser hoje, 10 anos, três séculos, mil anos atrás. Há lugares no planeta que realmente não faz diferença alguma em que anos estamos ou em que época vivemos.

Passo por um bonito rio, um dos rios mais bonitos que eu vi em toda a viagem, e a seguir vejo uma construção de origem celta na pequena localidade de Milloños. Daí para frente é mais um longo caminho que acaba em uma rodovia e que depois emenda em mais um longo caminho, agora uma subida. O corpo não aguenta mais, o ombro esquerdo dói muito, assim como os calos do pé direito. Subitamente memórias “me atacam”, não me sinto muito bem, parece um teste de resistência, partes física e emocional sendo fortemente testadas. Sigo em frente, procuro um Café ou algum lugar para sentar no pedacinho de civilização pelo qual passo agora, mas nada, apenas algumas casas e subida, subir é o que há. Atravesso toda a comunidade e resolvo sentar na grama mesmo, bem na saída da localidade. Descanso na hora certa, com direito a uma vista deslumbrante e… Choco Time, hora de comer um chocolate para dar energia, pois estou mesmo precisando de energia extra hoje. Levanto e sigo pelo Caminho de Santiago, com um riacho me acompanhando ao lado, como tantas vezes aconteceu nesta Mágica Galícia, especialmente neste trecho final rumo a Finisterre. Penso no teste de resistência que tive minutos atrás e uma voz me pergunta “Are you ready?”, e eu respondo prontamente que sim, estou pronto!

Agora uma grande subida à esquerda, onde encontro um casal que eu vinha encontrando algumas vezes durante o dia. Havia uma bifurcação e eles estavam indecisos sobre qual caminho seguir, apesar de uma grande seta amarela estar apontando para a esquerda. Eu paro junto a eles, compartilho um pouco de suas dúvidas e ansiedades, mas digo que venho seguindo as setas amarelas desde Lisboa, que confio nelas, e parto então pela esquerda, e alguns metros abaixo tenho uma das visões mais incríveis de toda a jornada, um lindo lago entre montanhas, uma visão realmente estonteante, magnífica! Fico um tempo contemplando aquele belo cenário, quando vejo o casal passando perto de mim, mas teimando em pegar outro caminho novamente; no fim, lá na frente eles percebem que o caminho era aquele mesmo, o indicado pelas setas amarelas, rs. Atravesso a pequena comunidade chamada Lago e sento num gramado, pois é hora de comer mais alguma coisa para enfrentar o trecho final, que está se aproximando – com tantos dias caminhando horas e horas, já nem mais é preciso placa indicando quanto falta para chegar. Volto a caminhar, os calos doem, o cansaço bate forte, então a solução é cantar, e gradativamente as coisas vão melhorando…

Antes do finzinho do Caminho por hoje, sou premiado com um trecho em um monte com uma luz perfeita pra tirar fotos, muito perfeita mesmo, o visual é lindo demais. E para completar, um banco estrategicamente colocado à esquerda e bem perto do fim da descida, de frente para lindos cavalos selvagens pastando entre árvores, uma cena diferente de se ver. Sento e me energizo para o último trecho, que acabou sendo mais tranquilo do que eu imaginava. Chego então ao Albergue Municipal de Olveiroa, que fica em um simpático vilarejo de mesmo nome, perdido perto do fim do mundo. Lá conheço mais pessoas especiais e interessantes, como um senhor austríaco que já havia feito outros caminhos, uma mãe e uma filha mexicanas e muito simpáticas, e um casal de holandeses que vive na Suécia, que eu adorei de paixão.

Agora só faltam dois dias, vamos que vamos até o fim do mundo!

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