Diário de uma Transformação

Dia 22 – 31 de outubro de 2015 – Experiências mágicas, um dia inesquecível

Hoje foi o dia mais intenso de todos, muito intenso e especial. Estranhamente todos levantaram muito cedo no albergue, alguns ainda bem no escuro da madrugada, só ficou eu e mais um, dos tantos que pernoitaram no dormitório onde estava. Levanto-me um pouco antes do amanhecer, fazendo tudo bem devagar, pois o dia seria cheio, provavelmente o mais cheio até agora. Saio do Seminário Menor e dou de cara com um visual incrível, Santiago de Compostela à minha frente, amanhecendo. O seminário ficava um pouco afastado e em uma zona alta, dava para ver a cidade bem de frente, uma visão realmente muito bonita. Como uns biscoitos ali para enganar a fome, olhando para Santiago, e pouco depois saio caminhando em direção à cidade, pois tinha que tomar o café da manhã, ir à catedral, ir nas estações de trem e ônibus, tudo isso antes de seguir viagem rumo ao trecho final da jornada. 

Tomo o café da manhã e sigo rumo à catedral. Confirmo que não se pode entrar de mochila lá, como Bergoña e Marisa haviam me falado, e descubro que posso deixar o mochilão nos correios; porém, como tudo em Santiago de Compostela, o serviço é cobrado. Tudo bem, pois acabo tendo uma boa ideia, aproveitando que estava sem os 10 kg nas costas: depois da visita à catedral, eu iria nas estações, que ficavam em lados opostos da cidade. Vou então em direção à Catedral de Santiago de Compostela, a emoção vai tomando conta de mim, e ao entrar naquele lugar surreal a emoção se transforma em lágrimas, não consigo me conter, não havia motivo para isso. Procuro a estátua de Santiago, para fazer como a tradição sugere, abraçar a estátua em agradecimento e fazer um pedido. Avisto a estátua e me arrepio, caminho lentamente em sua direção e cumpro a tradição, sentindo uma forte energia quando encosto minha cabeça aos pés da estátua. A princípio, uma estátua é só uma estátua, mas havia algo além ali, dava para sentir. Dou mais uma volta no interior da catedral, vislumbro mais uma vez a estátua do santo e me despeço daquele momento, ainda bastante emocionado.

Agora caminho pelas ruas de Santiago de Compostela em busca da estação de bus, queria colher informações de como voltar para Lisboa depois de finalizar a jornada, era bom eu seguir já com isso mais ou menos planejado. Mas era só lembrar do momento na catedral que a emoção tomava conta de novo e os olhos ficavam marejados… Depois de colher as informações necessárias nas duas estações e de como sair de Santiago em direção à Negreira, destino final da primeira etapa rumo a Finisterre, saio ladeira acima em clima de despedida. Já são 11h, mas eu caminho tranquilo, a hora que tivesse que chegar em Negreira seria a hora certa. Eu tinha umas anotações que peguei na Internet anotadas no caderno, mas não era grande coisa, teria que fazer o meu próprio caminho. Agora não tenho mais as setas amarelas, estou por minha conta, pensava enquanto caminhava, descendo na direção que haviam me indicado.

Após uns 2 km de caminhada, resolvo perguntar em um restaurante qual seria o melhor caminho para a primeira cidade que eu tinha anotado no caderno e um senhor me diz que eu tenho que voltar mais ou menos 1 km para pegar o Caminho Autêntico de Finisterre. Eu não tinha informações sobre esse caminho, e fiquei animado com esta hipótese. Volto então até chegar em uma parada de ônibus, onde pergunto a uma mulher se ela conhecia o tal caminho, e ela muito prestativa me dá todas as dicas de como chegar nele. Fico mais animado ainda, parece que esta opção é bem conhecida, fico surpreso de não ter encontrado isso em minhas pesquisas. Subo, subo e subo na direção que me foi indicada, e quando chego no local que a mulher disse que teria uma cruz ou alguma sinalização, dou de cara com uma placa de madeira onde estava escrito Caminho de Santiago. Fico surpreso e confuso ao mesmo tempo, tenho que perguntar na última casa antes de começar a floresta se ali era o Caminho para Finisterre, no que recebo a confirmação positiva e o meu primeiro bon camino do dia.

Sigo caminhando pelo primeiro dos muitos bosques do dia e percebo que as sinalizações oficiais de pedra do Caminho de Santiago estão por todo lado, ou seja, o Caminho continua oficialmente até Finisterre, uma agradável surpresa! Saio do bosque e logo vejo uma sinalização de pedra indicando que faltam 85 km para El Fin del Mundo, Finisterre em espanhol e Fisterra em galego, a língua antiga da Galícia, que é muito utilizada por aqui, assim como o bretão é igualmente bastante falada ainda hoje na Bretanha Francesa. Aliás, volta e meia esta comparação é inevitável, tanto em relação à beleza natural quanto pelos antepassados em comum que estas regiões possuem, os Celtas. O Sol ainda está escondido atrás das nuvens, mas começa a querer aparecer e eu caminho feliz pelas ruas de Sarela de Bajo, feliz por estar de volta ao Caminho, inclusive as setas amarelas também estão de volta – o caminho para Finisterre é muito bem sinalizado, ao contrário do que havia lido na Internet. O Sol sai definitivamente e eu paro para almoçar em um banco de madeira em uma área recuada, bem de frente para o Astro Rei. Resolvo almoçar em duas etapas, pois o sanduíche é muito grande e eu estou com muita energia para seguir em frente, uma energia especial do “está chegando a hora!”

Com a toalha pendurada no mochilão, sigo caminhando, e a sinalização me confunde em uma bifurcação. Eu paro, analiso as possibilidades e minha intuição me direciona para o caminho certo, felizmente. Caminho por ruas desertas com bonitas casas, casas mais no estilo mansões, o que raramente vi em todo o Caminho de Santiago desde Lisboa, ainda mais uma concentração dessas em uma mesma localidade. Paro em frente a uma bonita propriedade com lindos cavalos soltos, antes de adentrar um bosque de eucaliptos, na subida para um monte. Vou refletindo sobre esta experiência maravilhosa de percorrer o Caminho de Santiago, e me vem à mente um pensamento curioso e interessante: é como se eu estivesse me transformando em uma personagem de meus próprios livros, é como se enfim a teoria estivesse se transformando em prática de uma forma plena e intensa, e isso é fascinante, é como se um desejo ou sonho estivesse se realizando. Na verdade, plenitude é a palavra de ordem, plenitude é a busca, pois assim que eu atingi-la totalmente, todos os sonhos vão virar realidade, e não tenho como não deixar de pensar que esta hora está chegando…

Saio do bosque e agora caminho de olhos semicerrados por ruas de uma localidade que eu não sei o nome, mas isso não importa, o importante é que estou seguindo em frente rumo o meu destino, sempre em frente! E assim é o dia, passo por várias localidades “sem nome”, como se algo me dissesse que o mundo é o mundo, independente do nome que se dão aos lugares, independente do nome que se dão às coisas. Vejo uma sinalização dizendo que agora faltam 82 km para Finisterre, só percorri 3 km desde o fim do primeiro bosque, e sinto que vai ser assim o dia todo, devagar e sempre. Agora é diferente, Santiago de Compostela e muitos de seus “peregrinos turistas” ficaram para trás, o caminho agora é mais pessoal e profundo, agora é a parte chave de uma busca pessoal e intransferível. Os calos entre os dedos incomodam bastante, tenho que parar mais uma vez, e aproveito para comer a “parte dois” do meu almoço. Penso nas crianças, penso sempre nas crianças, não houve um dia em que eu não pensasse em meus três filhos. Penso também no grande dia, o dia do renascimento, que aconteceria em três dias, meros três dias.

Agora estou em uma localidade um pouco mais movimentada, se é que se pode dizer isso quando se caminha para o fim do mundo. Penso nisso, nesta sensação de se caminhar para um lugar que por milhares e milhares de anos foi considerado o fim do mundo, até a época dos descobrimentos. Percebo várias conchas símbolo do Caminho de Santiago decorando as casas e seus muros, o que é uma constante desde o norte de Portugal, mas que na Galícia é mais latente ainda. Nesse momento outro pensamento me vem à cabeça: agora as setas amarelas são únicas, vêm de todos os caminhos do Caminho de Santiago, pois todos os caminhos agora apontam para Finisterre, o verdadeiro ponto final da peregrinação. Lindas montanhas desenham o horizonte, eu caminho leve, sem pressa, o vento me conduz, o vento sempre me conduz, pois é o meu elemento em ação. Avisto um bar o qual havia visto em diversas propagandas pelo caminho e resolvo parar, pedindo apenas um vinho, um vinho para celebrar a vida, para celebrar o mágico fato de estar vivo! No local há uma informação que diz que ali é o meio do caminho entre Santiago de Compostela e Negreira, o destino final de hoje, e olho no relógio de pedra e são 14:45h. Até que não está mal, penso eu, mais umas três horinhas e estou chegando lá. E esta segunda metade da caminhada é especial, para lá de especial…

Assim que saio do bar, um forte momento de gratidão me invade mais uma vez, é tudo muito intenso, o Caminho agora é mais intenso, a proximidade de um fim (ou um novo começo) deixa tudo muito intenso e profundo. As setas amarelas me direcionam para a esquerda, me tirando da estrada, e em poucos minutos estou adentrando mais um bosque mágico desta impressionante terra chamada Galícia. Há uma grande subida à frente, o dia está perfeito, Sol, vento gostoso, e de repente surge um banco à minha direita… Perfeito, exatamente no momento que eu precisava descansar um pouco antes de encarar a subida. Penso no reencontro com Layla e Dimi, chego a sentir a presença deles perto de mim, fico emocionado. Agora é hora de encarar a montanha, a subida é muito íngreme, mas estou indo bem, meu cajado me ajuda, é um aliado especial, um grande amigo. Penso nisso, que quando estamos solitários no mundo, um simples pedaço de madeira pode ser um grande amigo, e é assim que deve ser, coisas simples tornando-se poderosas, pois há uma verdadeira força na simplicidade, no enxergar a vida de uma forma simples, natural. Enfim, chego a mais um banco estratégico e descanso mais um pouco, pois a subida continua!

Nuvens e Sol vão se alternando no céu, quando finalmente a subida acaba; o bosque termina e agora caminho por uma rodovia escondida entre árvores. Olho para a direita e tenho uma visão espetacular da floresta, e ela me chama novamente. Atendendo seu chamado, subo em uma mureta de pedra, abro os braços e tenho um dos momentos mais profundos e marcantes destes 22 dias de experiências únicas. É uma troca de gentilezas e respeito, nem preciso dizer que mais uma vez sinto uma forte gratidão assolar o meu peito e tornar tudo mais belo, tudo mais divino. A essência que habita em mim transborda naquele momento e se mistura com a própria essência do mundo, tudo é uma coisa só, sou uno com toda a Criação. Indescritível. Perfeito. Mágico. Desço da mureta completamente “enebriado”, com os sentidos dormentes, em paz profunda. Caminho mais um pouco e adentro a localidade de Carballos, e daí para frete passo por várias comunidades pequenas, sempre seguindo a estrada principal. Reparo nas várias abóboras decoradas na frente das casas, pois afinal hoje é noite de Halloween; e vale lembrar, a Galícia é a terra das abóboras gigantes, nunca vi nada igual. Outra coisa que me chama a atenção é uma placa de trânsito com o sinal do quebra-molas desenhado e escrito bandas sonoras, o que é no mínimo engraçado para o músico que há em mim, rs.

O frio aperta e agora saio da estrada e avisto uma ponte romana que passa por um rio com diversas cachoeiras, talvez um dos “quadros” mais bonitos da viagem. Lindo, simplesmente lindo, assim como a localidade após a ponte, um sonho, um dos lugares mais aconchegantes que já vi. Paro na ponte, antes de entrar em Ponte Maceira, e fico ali observando aquela beleza toda, fazendo parte daquele momento mágico da vida, mais um momento especial, e já são tantos! O Caminho de Santiago não para de me surpreender, como se dissesse “Vem, tem mais, posso te mostrar ainda mais, se você quiser”. É fantástico, simplesmente fantástico! E realmente tinha mais, pois após descobrir que agora só faltavam pouco mais de 3 km para Negreira (e eu pensando que ainda faltava muito mais), paro em uma bifurcação onde os sinais me confundem de novo: à esquerda diz Caminho para Finisterre, e uma sinalização oficial do Caminho de Santiago parece indicar que tenho que continuar seguindo reto. Fico muito em dúvida e resolvo decidir no cara ou coroa, e o resultado da moeda aponta que tenho que seguir reto.

Ando mais 150 metros e uma seta me manda para a direita. A seta é um pouco diferente, tem um R/C junto dela, apesar de ter um tom amarelo parecido com as setas oficiais, e eu resolvo segui-la assim mesmo. Ainda bem que segui, pois foi o “caminho errado” mais maravilhoso que peguei até agora, um bosque indescritível! A certa altura, depois de sentir fortemente que estava sendo observado ou sendo “convidado a entrar”, um grupo de árvores chama a minha atenção e sou compelido a caminhar na direção delas. As árvores formam um semicírculo, e eu me sento bem no meio dele, deixando minhas coisas afastadas e tirando tudo dos bolsos da calça. Tento meditar, mas os pés doem muito, não consigo me concentrar. Sendo assim, levanto-me um pouco frustrado, mas percebo que existe um espaço perfeito entre as duas árvores principais para eu me colocar de braços abertos. E assim o faço, e tudo se encaixa perfeitamente, e eu me entrego ao momento, mais um momento especial em meio à natureza, mais uma troca, mais uma doação completa do ser. Por quanto tempo? Não sei, realmente não sei. Só sei que foi intenso, foi mágico…

Agora volto a caminhar pelo bosque, após o momento sagrado, e percebo que aquele não era o Caminho, e resolvo retornar até a bifurcação. Peguei o caminho errado, mas foi a escolha certa. Reflito bastante sobre isso, sobre o certo e o errado, sobre vitórias e derrotas, pois às vezes pensamos que estamos no caminho certo, mas na verdade não estamos, ou acabamos desviando do caminho certo e não percebemos. Às vezes só uma (suposta) derrota pode nos colocar novamente no caminho, e não posso deixar de pensar que esta é a mensagem do dia do Caminho de Santiago para mim, pois foi isso que aconteceu comigo. Como li uma vez: “A minha derrota me salvou”, às vezes é isso mesmo que acontece!

Chego enfim na bifurcação e pego então o caminho certo, também conhecido como Ruta dos Tres Pazos, um caminho bonito que “caminha junto” com o Caminho de Santiago por um bom tempo, até chegar em Negreira, uma cidade um pouco maior que as anteriores por que passei hoje, mas ainda assim pequena. O frio aperta bastante, agora não estava somente de toca, mas também de luvas, e assim vou à procura do Albergue da Lua, que minha intuição havia me dito que era o melhor lugar para passar a noite. E realmente foi, fui muito bem recebido pela simpática anfitriã, e tive mais uma noite bastante agradável e renovadora!

Assim foi este dia que talvez tenha sido o mais mágico até então, agora é aguardar para ver quais serão as surpresas e ensinamentos dos últimos três dias de Caminho de Santiago!

 

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