Diário de uma Transformação

Dia 21 – 30 de outubro de 2015 – Emoção é a palavra, emoção é o sentimento

O dia em que cheguei a Santiago de Compostela começou intenso, e foi intenso o tempo todo. Primeiro, acordo às 5:30h, mas consigo cochilar de novo até as sete, o que foi ótimo! Depois da excepcional noite que tivemos eu, Bergoña e Marisa no Mosteiro de Herbón, o café da manhã tinha ficado para entre oito e oito e meia. A noite passada, regada a muito vinho, licor e boa música, foi tão especial que eu até ganhei um livro, El Gran Caminante, que conta a história de um homem que fez o Caminho de Santiago um pouco antes de falecer devido a uma doença rara, a mesma que o Stephen Hawkins tem, uma doença degenerativa. Ganhei o livro de Bergoña, que contou que o autor faleceu antes mesmo de o livro ficar pronto, dizendo ainda que de todos os peregrinos que passaram pelo mosteiro em todos estes meses que trabalha lá como voluntária, eu fui o único para quem ela achou que devia que dar este livro, pelo que havíamos conversado até então, o que me deixou bastante emocionado e honrado, pois o livro inclusive estava autografado em nome dela – cheguei a fazer menção de não aceitá-lo por causa disso, mas ela insistiu e eu não tive como recusar. Mais um gesto extremamente gentil dos tantos que estou colecionando no Caminho de Santiago!

O dia 21 da caminhada vai amanhecendo, olho pela janela e… NÃO ESTÁ CHOVENDO! Fico tão empolgado que vou lá fora e uau, me defronto com uma paisagem magnífica do mosteiro e das montanhas atrás, que ainda escondem o Sol. Olho para o outro lado e a Lua ainda está lá, linda, iluminada. Sou mais uma vez invadido por um forte sentimento de gratidão, elevo as mãos aos céus e agradeço por este dia tão especial que está nascendo, e nascendo sem chuva. Entro e pouco depois Bergoña aparece, já estava preparando o meu café da manhã, sempre muito simpática, prestativa e gentil. Tomo um café e me despeço de todos, de Marisa, Bergoña e seu filho, uma despedida emocionante e com direito a convites para que eu retorne à Galícia – Bergoña até disse que quando eu voltar, vou ficar na casa dela e ela vai fazer um tour pela região comigo, rs. Voltarei sim, pois a Galícia é certamente um dos lugares na Terra que merecem um bis!

Saio às 9h, um tanto tarde para iniciar a caminhada, mas cada vez mais não me preocupo com horários ou distâncias, sei que na hora certa chegarei, e que sempre chegarei no destino final, pois estou percorrendo o Caminho com fé, e que por isso o Caminho está “me percorrendo” também. Saio cantando pelas ruas, muito animado e empolgado, muito mesmo! Passo pelo centro de Padrón, apesar de as queridas hospitaleiras (como são chamadas as pessoas que recebem os peregrinos nos locais) terem me dito que isso não era preciso e terem me ensinado um atalho, mas eu gosto de passar também pelas cidades, e além disso as setas amarelas me direcionavam para lá. E foi muito bem ter ido, porque descubro que esqueci minha garrafa d’água e portanto tenho que providenciar outra, e assim desvio um pouco do Caminho e logo acho “sem querer” um supermercado, justamente na esquina da rua em que virei. Coincidência? Acaso? Eu prefiro chamar de Providência. Pego minha água e converso um bocado com a menina do caixa, digo que a Galícia é um lugar especial e ela fica bastante lisonjeada e agradecida. É o Caminho agindo em mim, é tudo tão mais belo e natural, conversar é preciso, compartilhar é preciso, dar bom dia, agradecer, ser humilde e gentil com as pessoas, passar uma mensagem também na palavra falada, ao vivo e a cores.

Em uma área mais afastada de Padrón, mas ainda fazendo parte de sua área urbana, o Caminho de Santiago envereda por ruelas e casas de pedra, o cenário é muito bonito, saudosista, remete a outro tempo. Estou cansado, mas estou feliz, caminho em paz e em harmonia com o mundo e com a vida. “O mundo agora é o meu lugar”, como já dizia a canção, uma canção que provavelmente estará em meu novo disco! O Caminho dá voltas, oscila entre paisagens com a que descrevi acima e estradas, mas agora entra de vez por entre bonitos campos, quando dá onze badaladas no sino de uma igreja. Eu dou uma parada e um grupo grande de peregrinos passa por mim, desejamos bom camiño uns para os outros, e depois descubro que são todos portugueses que partiram de Valença do Minho, na fronteira com a Espanha. Volto ao Caminho, passo por eles (o que vai ser uma constante em grande parte do dia, eu e o grupo passando um pelo outro) e de repente escuto o meu nome. Não, dessa vez não é a Fátima, é o Rodrigo, do já famoso trio de Barcelos, rs. Eu já imaginava topar com eles, mas eles disparam na frente mais uma vez, ainda mais porque hoje eu estou mais devagar que o comum devido ao cansaço. Paro e como uma maçã que a Begoña pediu que eu trouxesse comigo, e a fruta cai muito bem (ou “sabe muito bem”, como se diz em Portugal), limpa o organismo e acaba me dando uma injeção de ânimo. Passo por mais um trecho especial dentre ruas e casas de pedra e paro de novo – hora do chocolate, hora de colocar mais energia para dentro! Reparo na contagem oficial que agora faltam 12 km, só 12 km! A emoção toma conta, pego umas uvas e sigo caminhando, pois Santiago de Compostela está chegando…

Vou caminhando por entre vinhedos e campos, e Finisterre, o destino final de toda a jornada, não me sai da cabeça, um momento que aconteceria em poucos dias. Paro para almoçar na beira de um rio, em um lugar curiosamente chamado de Camiño do Rio Tinto, onde o trio passa por mim mais uma vez – até brinquei com eles dizendo que pensei que já estavam em Santiago, mas eles haviam parado para almoçar e tinham ficado para trás, mas agora retomavam a dianteira de novo, e eu só os encontro novamente em Santiago de Compostela mesmo. Acabo de comer e sigo caminho, e logo descubro que agora são 10 km para Santiago quando adentro um bosque, mais um bosque na terra dos bosques mais lindos do mundo. Sinto um misto de cansaço com uma sensação de paz, algo que me deixa um pouco enebriado, como se tivesse tomado algumas taças de vinho, realmente curiosa a sensação. Agora caminho em campo aberto, por um momento penso em como será caminhar por Copacabana de novo como um morador do Rio de Janeiro, depois de sete anos sem passar por esta experiência, sete anos apenas como visitante.

A sinalização agora diz que são 8 km até Santiago, umas duas horas de caminhada. Parece mentira, depois de 21 dias na estrada estou me aproximando dos cerca de 600 km percorridos a pé. Caminho mais um pouco, desta vez por ruas, 6.740 km diz a informação, agora é emoção a cada km! Estou em uma grande cidade com prédios altos no horizonte, mas ainda não sei dizer onde exatamente estou, quando paro e sento num banco de um ponto de ônibus e massageio o ombro esquerdo, que está incomodando bastante. Preciso de alguma coisa que me energize, mas não quero café quente, um café gelado que cairia bem, daqueles que vendem em supermercado. É eu pensar nisso e surge um shopping à minha esquerda, com um supermercado em destaque. Coincidências de novo? Acho que você vai acabar concordando comigo que não, rs.

Devidamente revigorado, entro por um caminho tipo os bosques até então, mas estou no meio de uma grande área urbana, e descubro que o nome da cidade é Milladoiro. Faz frio, paro um pouco, mas logo sigo adiante para esquentar o corpo, quando reparo em dois divertidos espantalhos, que parecem ser uma especialidade galega, vestir os espantalhos de forma extrovertida, tinha até um de óculos escuros, rs. Ando mais um pouco, agora estou em uma região mais alta de onde avisto uma cidade maior ainda no horizonte, será que é Santiago de Compostela? Não tenho certeza, mas o coração dispara assim mesmo, então provavelmente deve ser, pois o coração não se engana. Passo debaixo de um grande viaduto, começa a chuviscar e então visto a capa de chuva, que acaba me protegendo também do frio. Mas nada me incomoda, caminho com um sorriso no rosto, um sorriso bobo de felicidade que por tantas vezes dei nesses 21 dias. Passo por uma ponte onde está escrito “Vá que se queda poco”, ou seja, a cidade que avistei realmente era Santiago de Compostela, eu já estava bem perto!

As pessoas passam por mim, talvez fosse mais um dia comum para elas, mas para mim era um dia muito, mas muito especial! Passo debaixo de mais um viaduto cheio de mensagens de incentivo, inclusive uma em português: “Força que agora é só subir”. E eu inicio a subida. E eu fico emocionado, quase choro algumas vezes. Adentro a cidade, estou caminhando em Santiago de Compostela, é inacreditável! Porém, a cidade é bem grande, eu ando, ando e nem um sinal da catedral, que para muitos é o final do Caminho de Santiago, muitos iniciarão o retorno para suas casas amanhã, mas esse não é o meu caso. Ainda assim, a emoção toma conta a cada passo dado, eu queria ir direto até a catedral, mas o ombro dói demais e tenho que parar pela última vez antes do grande momento do dia. Pouco depois levanto, não procuro mais as setas amarelas, pois sinto que estou perto. Escolho uma das várias ruas que dão na Catedral de Santiago de Compostela, agora vejo suas famosas torres ao longe, são inconfundíveis!

Ando mais um pouco por ruas lotadas de turistas e alguns peregrinos, e de repente estou atrás dela, daquela imponente obra de arte em forma de monumento religioso. A Catedral é enorme, fico tonto ao vê-la mais de perto, tento encontrar a parte da frente, passo por artistas de rua, com destaque para um debaixo de um bonito arco de pedra, que está tocando uma gaita de foles. Passo por ele, cumprimento-o com um aceno de cabeça, viro à esquerda após o arco e lá está a frente da catedral, majestosa, estonteante, magnífica! Não sei o que fazer, fico meio perdido, aquilo é muita coisa para mim, o momento é intenso demais. Não falo as palavras mágicas que ensaiei o dia inteiro, que pratiquei por dias. Fico mudo, completamente mudo. Olho para a direção contrária e vejo vários peregrinos sentados ao fundo da praça, de frente para a Catedral de Santiago de Compostela, muitos deles igualmente mudos, só olhando para ela. Decido fazer o mesmo e me junto a eles naquele indescritível momento de contemplação.

Consigo me recuperar um pouco do impacto, após comer alguns biscoitos, e avisto o trio de Barcelos e vou ao encontro deles, que já estão com a compostela na mão, que é o documento que atesta que o peregrino percorreu o Caminho de Santiago corretamente, tipo um diploma; para tal há de se apresentar a credencial do peregrino com seus respectivos carimbos no Escritório do Peregrino, e é para lá que vou então. Chegando no local, entro na fila de peregrinos e aguardo a minha vez, e quando chega a minha hora, adivinha qual é a primeira coisa que o senhor que me atende pergunta? “Italiano?”, E eu, “No, brasileño”, pela enésima vez, rs. Após poucos minutos, saio com a compostela na mão e vou à procura do Seminário Menor, que haviam me dito ser o albergue oficial do Caminho mais em conta na cidade. O albergue é um pouco mais caro que o comum, aliás, tudo em Santiago de Compostela é mais caro que o comum. Chegando lá, tomo o meu tão merecido banho saio depois para conhecer melhor aquela cidade tão interessante e mística.

Enquanto caminho pelas ruas de pedra, penso em assistir a Missa do Peregrino às 19h e abraçar a estátua de Santiago na Catedral, como manda a tradição, mas acabo encontrando o trio novamente e daí para frente é só celebração – eu que pensei que passaria a noite sozinho e estava me sentindo mais solitário que deveria, acabei tendo uma noite muito agradável na companhia de Rodrigo, Sandro e Ju, que é uma figura com suas gargalhadas desconcertantes e animadas. O quarteto luso-brasileiro acaba chamando a atenção por onde chama, o momento pedia celebração, clamava por confraternização, e sim, confraternizamos aos montes, entre nós e com outras pessoas, de garçons a vendedoras de lojas. Sem falar na pérola da noite: a Ju me pega um camarão, tira a cabeça e… como só a cabeça! Quando vejo aquilo me assusto, ela diz que não gosta de camarão, só da cabeça, e daí eu pergunto se ela sabe o que tem na cabeça do camarão, e a menina responde que não. Bom, o resto foi uma piada só, você pode imaginar, rs.

A passagem por Santiago de Compostela foi assim, muita emoção seguida de muita celebração, de comemoração. Mas o dia seguinte seria o primeiro dia do trecho final desta experiência singular, desta incrível jornada pessoal e espiritual. Que venham os últimos dias, que venha a plenitude da transformação!

 

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