Diário de uma Transformação

Dia 20 – 29 de outubro de 2015 – Lugares especiais de dia, pessoas especiais à noite

Hoje foi mais um dia mágico, parece que a cada dia que Santiago de Compostela se aproxima fica mesmo mais intenso, mais especial. Fui o primeiro a acordar no meio de mais de trinta e poucas pessoas pelo menos – puxei as minhas coisas para fora do dormitório, fiz um chá e ajeitei tudo, antes de sair. Tomei o café da manhã em um lugar na estação de trem da cidade, o dia estava com preguiça de amanhecer, já eram 7:30h e ainda estava bem escuro. Saio caminhando pelas ruas de Pontevedra cantando, cantando animado as novas canções, anunciando um novo dia, um novo tempo, uma nova vida. Se me ouvem, se me julgam, não me importa, realmente não importa. O que importa é estar ali, caminhando, seguindo o meu rumo, seguindo em frente. Penso em meus filhos, penso nela, como fiz em todos os dias durante o caminho, mas me sinto bem, não sinto culpa de nada, me sinto livre, de consciência limpa e tranquila, e não há sensação melhor que esta.

Saio enfim da área urbana e adentro uma zona mais tranquila, vem a chuva, não para de chover há dias. Ouço uma voz interior, aquela voz que há em tudo e em todos, uma voz que diz que está tudo bem, que estou no caminho certo. Sinto-me bem, muito bem, e agora estou em um bosque lindo, inacreditavelmente lindo! Chove, mas a chuva não compromete a beleza do momento, ao contrário, intensifica-o. Um rio me segue à esquerda, um rio magnífico, “ah se tivesse ao menos um mormaço”, penso eu. Caminho mais um pouco e avisto uma pequena cascata à direita, uma cascata que me pega de surpresa: olho para ela e o convite é inevitável, e mesmo com chuva eu aceito, aceito sem pestanejar. Quando estou tirando a blusa, o trio de amigos de Barcelos surge e testemunha a minha entrega ao momento. Eles passam e eu mergulho a cabeça naquelas águas abençoadas, e aquilo me dá uma energia que vai mudar o rumo do meu dia. Vivo momentos mágicos após o mergulho, ando lentamente, absorvo cada instante, cada segundo de vida.

A chuva para desde o episódio da cascata, mas melhor assim, porque ao deixar o bosque eu sigo por uma estrada de terra. Como tem sido de praxe, começo a reproduzir uma melodia, do nada, uma melodia que está no ar e consigo “capturar”, consigo ter a sensibilidade necessária para captá-la. Encontro novamente o trio, que havia parado em um Café, e sigo com eles até quase o albergue que o Pedro havia me indicado para pernoitar, porém é muito cedo, dez horas ainda. Resolvo seguir adiante, pois é um longo caminho até Caldas de Reis. A chuva aperta de novo, agora estou sobre o asfalto e, pouco à frente, um senhor dentro do carro acena e para ao meu lado, perguntando se eu ia para Santiago e conta que vende colares. Eu já estava pensando em comprar um colar pra mim com a concha símbolo do Caminho de Santiago, mas também quero pegar uma concha em uma praia em Finisterre, estava em dúvida entre uma opção ou outra, quando me lembrei que não tem que ser “ou”, o importante agora é o “e” – adicionar, ao invés de dividir. Enfim, não compro o colar com o simpático senhor, deixo para adquirir um em Santiago de Compostela, mas este encontro serve para me lembrar desta questão fundamental do “e” – um encontro importante, como todos no Caminho…

Vejo uma sinalização de pedra informando que falta 50 km para Santiago, o que me arrepia, pois está chegando! Uma chuva fina e constante é o retrato do dia, já estou caminhando há muito tempo, e o pé não tem como não ficar ensopado, mas pelo menos isso só acontece horas depois de eu ter iniciado a caminhada, não foi em apenas alguns minutos, como ontem. Agora caminho pelo campo e penso no futuro breve e isso me empolga, pois quero construir este futuro logo. Sinto um pouco de fome e em seguida surgem uvas ao redor e uma parada de ônibus bem em frente a uma rodovia, perfeito para descansar e fugir um pouco da chuva. Não deixo de pensar na sincronicidade do ocorrido, de como é maravilhoso estar em harmonia com o universo, pois desta forma tudo se encaixa perfeitamente, a hora certa no lugar certo é mais tateável, mais possível!

Após o descanso, volto a caminhar, agora pela rodovia, onde há um casal de peregrinos um pouco adiante, e reparo que eles continuam pela rodovia, apesar de as setas amarelas terem indicado um desvio à esquerda, onde caminho por vinhedos. Logo adiante o Caminho retorna à rodovia e depois volta novamente para os vinhedos, com o casal mais uma vez seguindo reto. Penso nisto, em como muitas pessoas que percorrem o Caminho de Santiago o fazem com pressa, parecem percorrê-lo como se fosse mais uma obrigação cotidiana, não conseguem se “desligar” totalmente, não desfrutam da beleza e unicidade do Caminho, de suas nuances e mistérios… Chega a ser engraçado estar em um albergue e reparar que praticamente todos estão pendurados em seus telefones celulares e outros quitutes eletrônicos, como se não sobrevivessem sem estas coisas, como que enfim tivesse chegado a hora de utilizá-las. Enquanto penso nestas questões e caminho pela estrada de terra molhada, surge de repente um daqueles espaços com máquinas contendo alimentos e bebidas, mas este é especial, tem cobertura contra a chuva e possui cadeiras, uma delas super confortável, onde me sento. O lugar me remete a um oásis e tem até água quente de graça, e aproveito e faço um chá, acompanhado de deliciosos biscoitos que eu havia comprado no mercado. Mais uma sincronicidade, mais um momento harmonioso…

Chego finalmente a Caldas de Reis, e surpreendentemente decido seguir em frente até Padrón. Eu havia dito que não faria mais 40 km em um só dia, mas estou tomado por uma energia incrível, provavelmente por causa do banho na cascata. Passo na polícia para eles carimbarem a minha credencial do peregrino e descubro que são mais 17 km até Padrón; como ainda são 13h, acho que será tranquilo, pois tenho bastante tempo, posso ir bem devagar, como geralmente tenho feito, devagar e sempre, tentando desfrutar cada instante, cada momento que o Caminho de Santiago me proporciona. Saio de Caldas de Reis e um pouco à frente encontro o trio mais uma vez, e assim caminho com a Ju, o Rodrigo e o Sandro por mais um trecho, mas eles possuem um ritmo mais acelerado que o meu e logo nos separamos novamente, o que se torna uma constante nos últimos dias até Santiago de Compostela.

Não para de chover, e ao sair do caminho de terra que beira algumas montanhas avisto um Café, onde decido parar para almoçar. No Café Bar Esperón sou atendido por um simpático senhor, que me prepara um delicioso bocadillo (sanduíche em espanhol), com direito a tomate e alface junto com um gostoso queijo. Cumprimento duas peregrinas de meia idade, igualmente simpáticas, e depois as encontro mais adiante no Caminho e descubro que elas são norueguesas e que uma delas inclusive já morou oito meses no Brasil. Foi mais um encontro especial que duram apenas alguns minutos, pois elas ficam em um albergue (onde o trio ia ficar também) e eu sigo rumo ao Mosteiro Herbón, em Padrón, que havia se transformado no destino final do 20º dia percorrendo o Caminho de Santiago. Agora faltavam uns 10 km até lá, mais ou menos duas horas e meia de caminhada.

Felizmente acabo entrando no bosque mais lindo que já vi na vida, um lugar mágico, vivo, daqueles dignos das fotos mais bonitas que vemos de florestas encantadas na Internet. Que momento, que lugar! Estava chovendo, mas a chuva não atrapalha nem um pouco, parecia até dar um charme a mais ao lugar, um lugar que beirava a perfeição, com aquelas árvores de troncos verdes e a floresta ao redor com as folhas típicas de outono, com aquela cor linda característica da estacão… Coisa de cinema! Neste momento decido que um dia retornarei à Galícia em uma época menos chuvosa, provavelmente na primavera e de preferência bem acompanhado, pois a Galícia é um lugar pra lá de romântico, além de ser o cantinho neste planeta mais bonito e especial que já visitei. Após sentar e meditar um pouco e sentir toda a vida e beleza ao redor, sigo adiante.

O bosque mágico termina e entro em outro caminho também por entre árvores, quando de repente tomo um susto: um homem armado sai do meio da mata, com uma cara meio assustada. Mais à frente vejo outro, igualmente com um rifle na mão, mas apesar de eu não ficar nada confortável com a situação, não tenho medo. É uma questão de fé, minha fé não permite que eu tenha medo, pois tenho fé que estou realizando uma experiência única, que estou percorrendo um caminho especial, que estou passando por uma transformação extremamente positiva, que minha busca está chegando a um ponto crucial, e por isso sei e sinto que nada de mal vai me acontecer. Tenho fé, e a fé me protege, sigo em frente sem problemas.

Os caminhos por bosques e campos terminam e chego em uma área urbana, onde paro para tomar um café e comer um chocolate, pois começo a ficar sem forças, mas felizmente descubro que estou perto do mosteiro. Agora sigo as setas vermelhas do percurso até Herbón, são quase 3 km até chegar lá, onde passo uma das noites mais incríveis desta jornada, na companhia das queridíssimas Marisa e Bergoña. Foi realmente uma noite épica: após a janta, cantamos e dançamos até uma da manhã, fizemos tipo um karaokê no youtube, foi um momento muito especial mesmo, de lavar a alma por inteiro!

E que venham os últimos dias, que a magia continue no Caminho e na vida!

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