Diário de uma Transformação

Dia 19 – 28 de outubro de 2015 – Momentos mágicos e reflexões reveladoras

Ainda no Café na noite anterior, reencontro os dois senhores franceses que também pernoitaram na Quinta da Estrada Romana, os únicos que também iriam ficar no Albergue de Mós. De manhã, enquanto terminava de escrever o relato de ontem, descubro que um deles, o mais simpático e que se comunica comigo em espanhol, também é escritor. Falamos rapidamente, pois a maioria ainda estava dormindo, e eu volto a escrever, saindo depois para mais um dia de caminhada. Havia chovido bastante à noite e ao amanhecer, mas quando eu saí não chovia.

Caminho de Santiago começa hoje com uma grande ladeira, que acaba sendo uma tendência durante o dia, muitos sobes e desces, e “desces” muito íngremes que forçam demais as pernas, os joelhos e os pés, especialmente os dedos mindinhos, que terminam o dia meio massacrados. Caminho mais um pouco e lá vem ela, começa a chover de novo. E chove forte, tanto que em poucos minutos os meus pés estão ensopados. Bom, quanto a isso não há nada o que fazer, o que me resta é cantar para tentar esquecer as piscinas dentro dos meus tênis, rs.

Agora caminho entre bosques e estradas, ainda debaixo de muita chuva, só se enxerga a paisagem ao redor, o resto é branco, um branco que por enquanto não dá sinais que vai embora. O ombro esquerdo dói, mas evito parar, pois para tirar o mochilão das costas tenho que tirar a capa de chuva, e tirar a capa de chuva naquele momento estava longe de ser uma boa ideia, rs. O lance é controle mental, tentar controlar a dor através da mente, e um pouco de cantoria ajuda novamente. Depois de muitas subidas e descidas íngremes, chego a Redondela.

Redondela é uma cidade maior, a maior que eu tinha visto até então na Espanha, mas não chega a ser uma cidade grande, está mais para média. Lembro do trio que saiu da Quinta da Estrada Romana no dia anterior e que ia pernoitar na cidade, fazendo 41 km de caminhada; eu até brinquei com eles dizendo que eu já havia feito 40 km por duas vezes e não faria mais isso, pois é muito pesado. Vou caminhando entre as ruas de pedra, agora chove menos, e de repente me perco. Resolvo então ir em direção à uma igreja de pedra, a circulo procurando sutilmente as setas amarelas, quando uma senhora, de sua janela do outro lado da rua, diz “Santiago?”, e me mostra a direção certa. Estas pessoas certas na hora certa ainda me impressionam, mesmo eu já tendo sentido toda a força e poder do Caminho de Santiago…

Hoje descanso várias vezes, mais do que o comum, os pés estão completamente encharcados e isso incomoda bastante. Depois de mais uma parada, entro em um bonito bosque e penso na minha situação com a Grazi, de como eu gostaria de ficar em paz com ela, seria bom tanto para mim quanto para ela e principalmente para as crianças. Quero muito ter uma relação saudável com ela, como pensei que seria após a conversa que tivemos no dia 11, e assim decido que vou continuar tentando isso, ao menos ser amigo dela. Sei que não depende só de mim, mas a minha parte vou tentar fazer. Neste momento sou tomado por um Amor indescritível, um Amor maior do que tudo, acho que o meu novo ser vai conseguir apaziguar esta situação.

Saio então do bosque e para num Café de um albergue, preciso tomar um café com leite, pois estou meio fraco, e ao fazer o meu pedido, ganho um mini-croissant de brinde, o que me deixa muito feliz. Cada vez mais estes pequenos gestos gentis me comovem, revelam que ainda há generosidade e humanidade nas pessoas, que ainda há esperança de se construir um mundo melhor, e isso me dá muita energia, mais ainda do que o próprio café!

A chuva dá uma trégua e sigo subindo mais uma ladeira do Caminho de Santiago hoje. No meio dela me vem um pensamento: E se tudo acabasse agora? Vivi uma grande e linda história de amor, tive três filhos maravilhosos, espalhei a mensagem através da Arte, fiz amigos em muitos lugares mundo afora, conheci muitos lugares e pessoas especiais… Penso que foi uma boa vida até agora, muito boa mesmo, sou muito grato por tudo que me aconteceu nesses 39 anos de existência. Mas há um renascimento por vir, uma nova vida se aproxima, talvez por isso este pensamento, porque realmente vai haver um novo começo, e para haver um novo começo, há de haver um fim. Em apenas uma semana, no fim desta jornada, um novo ser nascerá nas águas do Atlântico Norte, assim que eu chegar a Finisterre, mas isso explico depois, quando chegar a hora. Foi um momento tão intenso que eu acabei passando 100 metros da entrada à esquerda para continuar o Caminho, mas por sorte (sorte ou providência?), um homem que vinha em um carro buzinou (homem ou anjo?) e perguntou se eu estava indo para Santiago, me avisando que eu tinha que voltar e pegar a direção correta. Gentilezas que acontecem no Caminho…

Quando vou descendo para reencontrar o Caminho, reparo na beleza do vale à minha volta, com belas montanhas verdes ao redor. Agora estou novamente seguindo as setas amarelas, e logo passo um bosque, atravesso uma estrada e adentro outro bosque, chamado de O Camiño do Peregrino, em um dos lugares mais bonitos do dia. Descubro que estou a 79 km de Santiago de Compostela, desde o extremo norte de Portugal há sinalizações de pedra, tipo monolitos, com a quilometragem que falta para Santiago. No meio do bosque, o sentimento de gratidão que tem me acompanhado e crescido durante o Caminho me invade de novo, e agradeço, agradeço muito a Deus por esta experiência, pelo que está por vir, por tudo que já passou. Volto a repetir que é uma das sensações mais intensas que existe quando sou tomado pelo sentimento de gratidão, profunda e verdadeira gratidão. Muita gente fala em gratidão, mas penso que falar é uma coisa, sentir é outra. E cada vez mais o sentir é mais presente em minha vida.

Após o intenso momento, avisto à esquerda e abaixo um lago ou um rio, não sei definir direito, só sei que a vista é exuberante, de uma beleza ímpar! Uma vista dessas depois de um lindo momento, me parece uma mensagem, um recado do tipo “Sê puro e verdadeiro que a vida te recompensará, as respostas virão”, e assim fico um tempo admirando aquele presente de Deus. Pouco depois termina o bosque, após mais uma descida acentuada, e após caminhar um pouco pela rodovia, adentro a localidade de Arcade, que faz parte do Concello (município) de Soutomaior. Saio da rodovia e percorro um pequeno desvio, uma trilha que me leva a uma fonte com umas pedras grandes para sentar. Aproveito e decido trocar as meias, pois caminhar com os pés ensopados está começando a ficar desagradável demais. Resolvo também pendurar no mochilão uma cueca e as meias que não secaram ontem, pois o Sol começa a sair; agora só tenho duas cuecas, pois esqueci a terceira na Quinta da Estrada Romana, eu que até então estava realizando a proeza de não esquecer nada em lugar nenhum. Por isso, qualquer ameaça de sol ou “não chuva” era muito bem-vinda nestes dias úmidos e chuvosos desta semana…

Mais à frente, em uma área mais urbana, avisto novamente um lindo pássaro que já tinha visto em Tuí, nos primeiros metros que percorri em território espanhol. Nunca tinha visto um pássaro tão belo, de penugem preta e branca e rabo azulado, lindo mesmo. Caminho mais um pouco e avisto talvez a ponte romana mais bonita até agora, a Ponte Sampaio, que dá nome à localidade que vem a seguir. Já estou no Concello de Pontevedra, que era o destino final de hoje, mas ainda faltam cerca de 16 km até a cidade. Continuo então seguindo as setas amarelas após um tempo admirando a paisagem e já do outro lado da ponte, e o Caminho de Santiago me leva a subir ladeiras por ruelas de pedra tão estreitas que se os vizinhos de frente esticassem os braços, quase que poderiam tocar as mãos, rs. Foi um percurso bonito, que continuou por uma estrada de terra entre vinhedos, onde aproveitei para fazer uma parada estratégica para comer umas uvas.

Agora mais uma descidinha, mais um martírio para os pés, especialmente por causa dos calos entre os dedos. Mas calos fazem parte da vida, o importante é não nos derrotarmos, não deixar que eles nos vençam. Atravesso uma estrada e começo uma trilha que vai me levar para os lugares mais especiais do dia. Primeiro, atravesso uma pequena ponte de ferro sobre um rio tentador, a vontade de mergulhar é muito grande, mas o tempo instável e chuvoso não colabora nem um pouco para isso. Não chove no momento, portanto aproveito para sentar um pouco à beira do rio e hipnotizar-me por ele. Você alguma vez já reparou na eternidade de um rio, no contínuo percurso infinito de suas águas? A água não para de correr, sempre fazendo o mesmo desenho, tanto que se tirarmos três fotos seguidas de um rio, elas serão praticamente iguais. E quando se tira a foto de um rio, tiramos uma foto de um momento infinito, eterno…

Volto a caminhar e um pensamento que havia tido dias atrás resolve me visitar de novo. Penso que um dos graves erros que tivemos em nosso relacionamento é que eu e ela “endeusamos” muito um ao outro, e um deus não pode ter defeitos, um deus não tem crises. E nós tivemos duas crises de existência ao mesmo tempo, e aí um não pôde apoiar o outro, pois os dois precisavam desesperadamente de ajuda. Mas volto a repetir que não acho que haja um culpado, ninguém tem culpa, a vida quis assim, estava escrito assim. Também como disse antes, às vezes não conseguimos entender os motivos ou razões de algo assim no momento em que acontece, às vezes passamos uma vida inteira sem entender, mas é preciso aprender a aceitar. Antes eu não aceitava, hoje eu aceito, e não há nada como ter humildade para aceitar o que não se entende plenamente. É assim em várias etapas da vida, especialmente quanto estamos diante de vários mistérios. Quem é que sabe tudo, quem entende tudo? Eu sinceramente não tenho esta pretensão, continuo aprendendo, continuo tentando seguir os ensinamentos, dia após dia.

De repente, me trazendo de volta do mundo dos pensamentos, um caminho de pedras surge em minha frente, lindo, extramente lindo, sem dúvida alguma o mais lindo de toda a jornada até então! Caminho bem devagar, tentando saborear o momento, as pedras do caminho são magníficas, assim como as muretas de pedra cobertas por uma vegetação tipo musgo, assim como algumas árvores também cobertas por esta vegetação. Se eu tirasse uma foto, provavelmente pensariam se tratar de uma montagem, de tamanha perfeição daquele cenário todo. Sinto uma presença, ou algumas presenças, a floresta parece estar viva, viva demais! Por um momento imagino que algumas pedras com musgo são espíritos de ancestrais, e que há também espíritos da floresta me observando, talvez celebrando a minha presença. O momento é místico, intenso, profundo. Mais à frente resolvo parar para comer, algo me prende ali, não sei explicar direito. Porém, após três mordidas no sanduíche, volta a chover, e assim sigo o meu caminho, depois de mais um momento único vivido no Caminho.

Mais um pouco à frente paro de novo, uma placa amarela onde geralmente está escrito Caminho de Santiago chama a minha atenção, poque desta vez os dizeres são outros: “SEGUE O TEU CORAÇÃO. Achei muito bonito aquilo, aquela mensagem no meio da floresta, uma mensagem carinhosa e delicada para os peregrinos que passam por ali, e naquele momento era uma mensagem para mim e fiquei muito grato por isso e um tanto emocionado, pois era isso mesmo que eu estava fazendo há dias, seguindo o meu coração. E esta é a coisa mais acertada que um ser humano pode fazer.

Saio do trecho mais mágico do dia, atravesso uma rua e logo a seguir paro para pegar mais umas uvas. Começo a caminhar de novo e ouço gritos, e de repente alguém chama o meu nome. É Fátima, a surpreendente Fátima, que vinha acompanhada de dois amigos. Fico feliz por ela ter continuado a percorrer o Caminho de Santiago, pois ontem ela havia dado todos os indícios que não o faria mais. Caminhamos um pouco juntos, nos separamos algumas vezes, e por fim me despeço oficialmente deles, pois eles iam dormir em um hotel, enquanto eu procuraria um albergue. Assim é o Caminho, pessoas vêm, pessoas vão, pessoas voltam, encontros acontecem novamente. Quando finalmente chego no albergue em Pontevedra, outro reencontro especial, desta vez com o trio que caminhou 40 km ontem.

E que venha o 20º dia, agora só restam três para chegar a Santiago de Compostela!

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