Diário de uma Transformação

Dia 18– 27 de outubro de 2015 – Bosques fantásticos, caminhando com um anjo

Hoje foi outro dia intenso, parece que será assim até o fim, o Caminho revelando seus últimos e valiosos mistérios e surpresas. Acordei em uma boa hora, nem cedo nem tarde, depois de uma boa noite de sono. Desci e fiz um chá, um rooibos que havia na cozinha, um chá que gosto muito. Os únicos que já estavam de pé eram dois senhores franceses que faziam juntos o Caminho Central Português rumo à Santiago. Chá pronto, fui degustá-lo lá fora, saboreando a brisa fria do dia que estava amanhecendo perfeito naquele lugar mágico e lindo no meio do nada. Foi um grande momento de paz que anunciava que o dia hoje também seria especial. Antes de entrar de novo, fiquei observando as placas que havia na entrada do local, aquelas placas com distâncias para os lugares, e três em particular me chamaram a atenção: já tinham sido percorridos 477 km desde Lisboa, faltam 125 km para Santiago de Compostela e 201 km até Finisterre, o destino final de minha jornada. Só restava saber se eu teria condições de realizar a jornada inteira, mas eu tinha fé que o Caminho me traria soluções, e foi uma das coisas que aconteceram hoje.

Tomei um excelente café da manhã, tudo cortesia do simpático casal de canadenses que administra a Quinta da Estrada Romana, havia pão, frutas, bolo, croissant, iogurte e mais coisas. Hoje eu teria companhia no Caminho, na noite anterior uma mulher perguntou se poderia caminhar comigo, pois suas duas amigas tiveram que abandonar a jornada ontem devido aos seus trabalhos. Eu termino de escrever o relato do dia 17 enquanto ela acordava e tomava o seu café, e por volta das nove e pouco saímos então eu e Fátima para mais um dia de Caminho de Santiago. O dia está bonito, a chuva ameaça cair de vez em quando, mas o Sol reinou por bastante tempo. Fizemos os 8 km entre a Quinta da Estrada Romana e Valença do Minho quase sem perceber, pois conversamos muito, pois tínhamos um ponto forte em comum, ambos estávamos passando por um processo de separação, de fim de longos relacionamentos. Além disso, tínhamos outras afinidades, e acabamos sendo boa companhia um para o outro, eu senti que falava coisas que ela precisava ouvir, assim como ouvi dela coisas importantes, uma em especial: Todo o encontro é sagrado. Concordei plenamente, pois tem sido assim no Caminho de Santiago, todos os encontros têm sido sagrados para mim, muito especiais…

Valença do Minho era a última cidade de Portugal na rota, e isso me deixava empolgado, pois agora era uma viagem ao desconhecido, a um país em que nunca pisei, com exceção do aeroporto de Madrid, que conheci quando me mudei para Portugal, pois troquei de avião lá. Passamos rapidamente em Valença, fomos à prefeitura para carimbarmos nossas credenciais do peregrino e depois o Caminho nos levou para uma bonita fortaleza, com destaque para um túnel de pedra muito bonito. Após isso, já estávamos atravessando a Ponte da Amizade, que liga Portugal e Espanha e passa por cima do Rio Minho, fronteira natural entre os dois países. A cada passo que dava, eu ficava mais animado, a Espanha estava logo ali na minha frente, e era bonita, era linda! Final da ponte e pé direito para entrar no país onde termina o mágico Caminho de Santiago.

Agora era outra história e, principalmente, outra língua se falar – agora não era mais bom dia, era buenos dias, sem esquecer também do gracías, no lugar do obrigado. Paramos um pouco em uma esquina para descansar e fazer um lanche, e Fátima diz que vai ficar em Tuí, onde estamos, a cidade que servia de “cartão de visita” da Espanha; era um belo cartão de visitas, a cidade é encantadora. Despedi-me então de Fátima, desejamos um bom caminho um ao outro e eu segui o meu rumo ladeira acima, em direção ao lindo centro histórico de Tuí. O Caminho é assim mesmo, pensei comigo, pessoas vêm, pessoas vão, porém sempre passagens marcantes, especiais. De repente surge uma magnífica obra arquitetônica na minha frente, a Catedral de Santa Maria de Tuí, uma das igrejas mais bonitas que já vi, por dentro e por fora. Bem ao lado dela, a prefeitura, e vou lá para pegar mais um carimbo em minha credencial. Reparo que o horário de funcionamento é de 10h às 14h e isso me chama a atenção, assim como a descarga e a pia no banheiro, que funcionam de forma diferente. Outro país, outra cultura.

Volto a caminhar pelas ruas de pedra de Tuí, entre casas, prédios e muros também de pedra, o que deixa todo o contexto muito lindo. Paro um pouco em uma praça, ainda com o visual ao redor todo de pedra, tenho uma sensação que estou o tempo todo com um sorriso bobo no rosto, do tipo encantado, enamorado com toda a situação, com a nova sensação que se apresenta à minha frente, a realidade de viver por alguns dias mais outro país. Sigo em frente e o Caminho me leva para mais um magnífico bosque – os bosques na Galícia são realmente lindos, coisa de cinema. Vou bem devagar, pensando nas conversas que tive com Fátima, admirando a exuberante natureza ao redor, e quando chego em uma estrada, escuto alguém chamar meu nome: é Fátima, que vem com um sorriso no rosto que dizia claramente ”Eu não desisti, vou continuar!”. Caminhamos alguns metros juntos, mas nos separamos logo em seguida, pois eu tenho que parar por causa do meu ombro esquerdo; o ombro voltou a incomodar, mas acho que é natural, afinal de contas já são quase 20 dias caminhando e carregando 10 kg nas costas. Eu hoje eu chegava à incrível marca de 500 km percorridos a pé!

Levanto-me e adentro outro lindo bosque, caminho solitário, pois o Caminho é solitário, mesmo quando estamos acompanhados; é uma busca interior, ainda que com alguém ao lado. Avisto chuva no horizonte montanhoso, acho que é para lá que o Caminho de Santiago vai me levar, na verdade eu sei que estou indo para lá, pois a minha intuição me diz isso, e eu confio plenamente nela! Numa das conversar com Fátima, falamos sobre meditação, que ambos estávamos tentando praticar há algum tempo, e ela me disse que às vezes escuta uma voz dizendo o que ela tem que fazer, e eu falei para ela sempre ouvir esta voz, pois é a intuição falando, a voz de Deus.

Saio do bosque, começa uma estrada de asfalto em uma pequena localidade, e Fátima está sentada no chão com as pernas esticadas, e ao me ver se levanta para caminharmos juntos novamente. Fátima tem duas filhas, uma de 30 e outra de 27 anos, se não me engano, e está cansada, ela não se preparou fisicamente como eu para percorrer o Caminho de Santiago, é o seu terceiro dia de caminhada, pois ela começou em Barcelos. Digo para ela que no início é assim mesmo, que demora um pouco para o corpo se acostumar como a dura jornada física, mas que no fim tudo se ajeita, como tudo na vida. Conversamos um pouco sobre isto, sobre essa questão de querermos saber ou entender tudo de antemão, o que muitas vezes eu dizia para a Grazi, quando ela não entendia ou não aceitava determinada situação. Silenciosamente penso nela, fico um tanto introspectivo por um tempo.

Adentramos outro bosque, este realmente de tirar o fôlego! Caminhamos agora mais em silêncio, absorvendo aquele momento fantástico. Tenho que parar novamente e nos separamos mais uma vez. Eu fico ali um pouco, do lado de uma árvore majestosa, um carvalho, daqueles cobertos com uma vegetação de um verde lindo em seu tronco. Tomado pela beleza do momento e tendo a certeza que eu também fazia parte da natureza, que tudo era uma coisa só, abraço a árvore, e ela cabe quase toda em meu abraço. Foi um abraço sincero e amoroso, e ela retribui me passando um pouco de sua energia vital, pois saio dali com muita energia. A chuva vem, como se abençoasse aquele momento, como se abençoasse o Caminho…

Ao sair do bosque, encontro Fátima comendo em um canto, com o rosto recém-marejado de lágrimas. Paro ao seu lado, mas fico em silêncio, pois conheço esta dor. Ao seguirmos em frente juntos, digo a ela que os meus primeiros dias no Caminho foram assim, às vezes também chorava enquanto comia, mas que isso ia passar, como passou comigo, que o tempo e essa experiência maravilhosa de percorrer o Caminho de Santiago curariam todas as feridas. Temos mais algumas conversas filosóficas e saímos da estrada e entramos em outro bosque, onde canto uma canção nova minha para ela, que aparentemente gosta muito, dizendo que a música era linda. E assim seguimos o Caminho, conversando, ficando em silêncio, atravessando pontes de pedra, caminhando à beira de rios, pegando chuva. Em um determinado momento, acabam-se os bosques por hoje, agora estamos perto de Porriño, passando de 20 km percorridos. Estamos cansados, eu nem almocei ainda e já são quase quatro da tarde, procuramos algum lugar para comer e descansar, um homem diz que há uma taberna 1 km à frente, e lá vamos nós caminhar mais um ou alguns quilômetros.

Enfim chegamos na taberna, eu peço um bocadillo de quezo, o sanduíche é enorme e eu acabo dividindo com a Fátima, que havia pedido a metade de um, porém ainda não havia chegado o seu pedido. Comemos e tomamos um vinho, e ela diz que tem que me falar uma coisa, mas que tem receio de como eu vá interpretar, e em seguida puxa algumas notas de euro e me oferece, dizendo que vai ficar em Porriño e gostaria que eu aceitasse o dinheiro, pois sabe que eu tenho muito pouco pra continuar. Eu digo que não precisa, que é muito o que ela me oferece (não sei quanto tinha, mas eram muitas notas), ela então retira algumas notas e insiste para que eu aceite o dinheiro. Eu coloco as mãos no rosto, fico muito emocionado com aquele gesto tão generoso, e depois de um tempo acabo aceitando. Digo a Fátima com toda certeza que ela foi um anjo colocado em meu caminho, e ela diz o mesmo. Ela me acompanha até lá fora e nos despedimos, ficamos abraçados por um tempo, intermináveis segundos de carinho e ternura, e enfim parto sozinho novamente, com a certeza que o Caminho me trouxe mais uma pessoa especial. Após alguns metros eu desabo em lágrimas, são lágrimas de imensa gratidão, talvez as lágrimas mais puras que já escorreram pelo meu rosto. Agradeço a Deus por tudo, eu choro e sorrio ao mesmo tempo, difícil explicar, muito fácil de sentir. Fico assim por longos minutos, por centenas de metros…

Chego em Porriño, o Caminho me leva para um lindo percurso à beira de um rio, eu caminho leve, em paz e harmonia com o universo, com a vida à minha volta. Outro dia especial, penso comigo, outra experiência maravilhosa, surreal! Saio daquele gostoso percurso e adentro a cidade procurando algum lugar para passar a noite, mas é tudo tão caro, apesar de terem o símbolo do Caminho de Santiago em suas respectivas entradas. Decido então ir adiante, como no plano inicial, e me preparo para mais 6 km a serem percorridos até Santa Eulália de Mós. Como já são 18h, sei que já vou chegar lá de noite, por volta das 19:30h, mas não tem problema, apesar do cansaço sei que vou chegar bem, que no fim tudo vai acabar bem. É assim o Caminho, é assim a vida, em alguns momentos estamos mais dispostos, em outros estamos mais cansados, no fim o que importa é a busca, é atingirmos nossos objetivos, realizar os sonhos em que acreditamos. E eu continuo sonhando, pois continuo vivo, mais do que nunca!

Enfim chego em meu destino, onde durmo no albergue local, tomando um belo prato de sopa com uma taça de vinho antes de escrever e me deitar. A chuva continua, e certamente o Caminho de Santiago continua amanhã também, faça chuva ou faça sol!

 

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