Diário de uma Transformação

Dia 17 – 26 de outubro de 2015 – A montanha mágica, lições de ouro, um dia mais que perfeito

Hoje foi O dia, um dia mais que perfeito, um dia especial, mais um dia de verdade! Acordei às cinco da manhã e fiz as coisas com bastante calma, fui o primeiro a levantar das 15 pessoas que também pernoitaram no albergue naquela noite. Mais uma vez dormi bem ao lado da dupla de amigos que dividiram o quarto comigo em Barcelos, que foram a sensação da noite com seus roncos sonoros e assustadores, rs. Chovia muito de manhãzinha, estavam todos preocupados e fazendo mil planos, mas eu estava tranquilo: se a caminhada hoje tivesse que ser debaixo de chuva, que fosse. Já não tenho vontade de ter controle sobre nada, quero deixar cada vez mais a vida fluir, quero vivê-la sem reclamar de nada, sem lamentar nada, sem “amaldiçoar” nada. Saio então às sete e meia, surpreendentemente não está chovendo, contrariando todas as previsões que diziam que choveria o dia inteiro e a semana toda.

Saio da cidade num instante e logo estou caminhando em um percurso lindo demais, com folhas molhadas cobrindo todo o chão, caídas pelo outono, com aquela cor característica da estação no hemisfério norte. Penso na perfeição do momento, de como tudo é perfeito, de como tudo simplesmente é… Se não tivesse chovido tanto, aquele cenário lindo de folhas e pedras molhadas não estaria ali na minha frente, “acariciando” meus olhos agradecidos. Aquele trecho inicial do Caminho de Santiago saindo de Ponte de Lima prenunciava que o dia hoje seria especial. Atravesso uma estrada e sigo pelo Caminho, que agora tem mais poças do que antes, algumas quase intransponíveis. Reparo em várias pegadas, certamente dos peregrinos que saíram antes de mim, pois eu fui um dos últimos a sair. Há uma placa informando que estou adentrando a localidade de Quinta do Sabadão, acho o nome curioso, e ali como minhas primeiras uvas do dia, não resisto à tentação, pois elas estavam frescas e ainda molhadas da chuva que caiu até pouco tempo. Sigo o Caminho tomado de poças e lama, o cajado é um grande aliado nessas horas, acabo descobrindo isso sem querer. Enfim chego na primeira área urbana, Arcozelo, onde descanso um pouco e escuto as oito badaladas do sino da igreja, anunciando que percorri minha primeira hora do dia.

Vou seguindo o Caminho, que agora se afasta da área urbana e vai subindo por uma estrada de terra e com um rio à esquerda, que depois descubro que é o Rio Labruja, que naquele trecho está bem barrento devido à noite de chuva. Vejo uma placa informando que há um Parque de Pesca que também é um Café, e penso que seria uma boa parada estratégica. Chegando lá encontro o casal da Hungria e uma dupla de amigas eu também dormiram no albergue, duas mulheres em torno de 50 anos, uma canadense e outra australiana, ou seja, o inglês é o idioma oficial das conversas. Lembro das paisagens que vi há pouco, uma cachoeira linda onde tive que parar e contemplar, as nuvens e névoas que “beijavam” a montanha. Despeço-me então dos outros peregrinos e sigo o meu caminho, que há 17 dias é o Caminho Central Português rumo à Santiago de Compostela!

Passo por baixo da rodovia, o viaduto é alto, bem alto, e logo em seguida subo por uma grande pedra que me faz lembrar muito tantas pedras por que caminhei ou escalei no Rio de Janeiro em grande parte de minha vida. O Caminho agora é beirando uma floresta com bastante névoa, o momento é especial, paro para contemplar um pouco tamanha beleza, que me transmite uma paz de espírito deliciosa, antecipando um grande momento inesquecível. O Caminho vai estreitando, o chão muda de terra para lindas pedras e ouço o barulho de cachoeiras. Isso mesmo, cachoeiras, no plural, e tenho uma das visões mais belas de toda esta experiência incrível, um encontro de cachoeiras e cascatas, uma visão realmente encantadora! Digo bem alto “Uau!”, e abro os braços e agradeço aos céus por estar ali naquele exato momento. O acontecimento é tão estonteante que não presto atenção nas setas quando volto ao asfalto e sigo na direção errada por alguns minutos, mas logo percebo que não é por ali, a minha intuição me alerta, e a intuição está mais “viva” do que nunca dentro de mim! Depois de dar meia volta, chego na localidade de Lambruja, não sem antes reparar em umas abóboras gigantes, as maiores que já vi, e lembro que ontem eu também havia visto uma enorme pendurada em uma espécie de parreira, o que achei absolutamente incrível, desafiando magistralmente a Lei da Gravidade. A natureza tem dessas coisas, nos presenteia com coisas ou situações inimagináveis, basta estarmos um pouco mais atentos…

Em Lambruja, o Caminho de Santiago começa a subir a montanha à esquerda, um bonito trecho que vai ficando cada vez mais natural, cada vez mais verdadeiro e essencial. Passo por alguns peregrinos, a montanha me energiza, e eu sequer imagino que vem pela frente. O Sol começa a sair detrás das nuvens e eu aproveito e penduro a toalha húmida no mochilão, quando entro na Rua Caminho Central Português, depois sigo pela Rua do Subcaminho e por último entro na Rua do Caminho Português de Santiago, e obviamente acho esta sequência de nomes interessante. Ando mais um pouco e tenho uma vista linda de todo o vale que contém Lambruja e outras localidades, uma vista de tirar o fôlego. Ouço as 10 badaladas, estou há duas horas e meia caminhando, mais ou menos a metade do caminho até Rubiães e nada de chuva, o dia realmente está bastante especial e surpreendente. Sigo subindo, brinco com duas peregrinas dizendo que daqui a pouco chegamos ao topo da montanha, sem desconfiar que era isso mesmo que aconteceria depois.

Agora caminho por uma trilha entre bambus, e não tenho como não me lembrar de Cachoeiras de Macacu, no estado do Rio, onde vivi momentos mágicos com a Grazi. Mas são memórias sem tristeza, são boas memórias, e é assim que devem ser lembradas, como coisas boas e inesquecíveis. Até uma semana e pouco atrás isso seria impensável, certamente eu ficaria triste, me lamentaria, lágrimas percorreriam meu rosto. Surpreendo-me com isso, sou inundado por um sentimento de gratidão por ter vivido estes momentos, por eles terem existido em minha vida, ao invés de ficar triste por isso. Como tenho dito, há uma transformação acontecendo aqui.

Subo, subo, e subo, e agora me deparo com o trecho mais íngreme de todo o Caminho de Santiago até agora. Olho para a subida e resolvo parar e fazer um lanche, antes de encará-la, mas pouco depois eu já estava de mochilão nas costas, cajado na mão direita e avante e acima! Lembro das palavras Ultreya e Suseya, as palavras ditas quando se chega ao final da peregrinação e que significam justamente isto, para frente e acima. Chego em uma das várias cruzes que encontro pelo Caminho, mas esta é diferente, tem diversas oferendas, recados, bandeiras e as pedrinhas características, que também são outra particularidade do Caminho de Santiago. Olho ao redor e para cima e avisto vários sacos pendurados nas árvores com um material branco dentro, tipo material de vela ou algo parecido. Há uma atmosfera mística no local, paro mais uma vez para descansar, acabo meditando um pouco também. A montanha tem um poder incrível sobre mim, faz com que minha essência aflore e faz também com que eu faça parte dela, do mundo, do universo. Sigo acima percorrendo grandes pedras que parecem o esqueleto da montanha, como se fossem seus ossos, e eu caminho com respeito e admiração, pois ela está sendo generosa comigo, permitindo que eu prossiga com segurança e em paz.

Mais uns metros acima e chego ao topo, onde desvio um pouco do Caminho e vou até umas pedras que são o fim da montanha, onde a montanha toca o céu. Ali vivo um dos momentos mais intensos de toda a minha vida, onde me emociono demais, assim como me emociono agora pelo simples fato de lembrar o momento. Abro os braços, admiro a vista inenarrável, fecho os olhos em seguida e abraço o mundo, agradeço a tudo que é sagrado à minha volta por aquele momento. Eu sou o mundo, eu sou o amor naquele instante mágico, eu sou a vida. Algo acontece ali, algo definitivamente acontece em meu ser, em seu interior, difícil de descrever. Fico ali 15 ou 20 minutos em solo sagrado, não sei precisar quanto tempo, só sei que foram momentos eternos, momentos de luz. Desço a montanha em estado alfa, com um sorriso que cisma em permanecer em meu rosto, amando tudo e todos. TER? Não tenho nada, além do meu mochilão, meu cajado e um pouco de dinheiro e alimento. SER? Sou tudo, sou tudo o que eu quiser ser, sou tudo o que eu posso ser. Sou, apenas sou. Paro em frente a um riacho que corta o meu caminho, tenho que saltá-lo, como nos dizeres que li na parede do albergue em Cernache. Sigo mais um pouco e me despeço da montanha, aquela montanha que desvendou minha alma, aquela montanha que mudou o meu ser. Sou tomado novamente por um sentimento intenso de gratidão.

Caminho um pouco por algumas ruas, mas logo o Caminho de Santiago me leva para outro trecho incrível com chão de pedras e “teto” de uvas, os cachos de uva mais lindos e generosos que já vi! Porém há um problema, os cachos estão muito lá no alto, mas não resisto e subo na mureta de pedra à direita e pego um, quase caindo de costas no chão. Fico feliz com o resultado positivo de minha travessura, pois cada vez mais deixo a criança que há em mim viver novamente. É como diz uma canção que compus, chamada O Lado Inteiro da Outra Metade, que inclusive será o nome do meu próximo disco: “O que falta pra você crescer é libertar a criança que existe em você”. É, acho que estou conseguindo crescer, felizmente…

Almoço sentado em uma mureta à beira de uma estrada, em frente a uma capela, no início do Caminho de São Roque (agora os subcaminhos tem nome). É um almoço diferente, um tanto exótico, pão com macarrão e atum que fiz no dia anterior e metade do imenso cacho de uva que comecei a comer antes, mas que não aguentei comer todo. Sigo então pelo Caminho de São Roque e começa a chover, enfim a chuva dá o ar de sua graça, por volta de uma da tarde, e me acompanha até o fim da jornada de hoje. Passo pelo local onde nasceu a primeira seta amarela do Caminho Central Português nos anos 90, e nesse momento chove muito, muito mesmo. Imagino que estou como num processo de gestação, pois um novo ser cresce dentro de mim, um novo ser que vai nascer definitivamente em alguns dias. Chove, chove e sigo cantando, que é o melhor a se fazer quando a água cai do céu. Canto em agradecimento, canto para seguir em frente em paz e amor.

Paro em um Café e descubro que agora só faltam 2 km até a Quinta da Estrada Romana, lugar que foi muito bem recomendado pelo Pedro. Mais um pouco de chuva, mais um pouco de canto e chego enfim no melhor lugar de todos para se ficar no Caminho Central Português. Foi a melhor noite todas, a melhor recepção, os anfitriões foram incrivelmente gentis com todos os hóspedes, nos deram vinho, lanches e ainda prepararam uma deliciosa janta. Absolutamente fantástico, incrível mesmo! Foi uma linda noite de confraternização, uma noite perfeita para celebrar um dia mais que perfeito.

Vamos que vamos, El Camino não para de surpreender aqueles que o vivem intensamente!

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