Diário de uma Transformação

Dia 16 – 25 de outubro de 2015 – Importantes reflexões e um lugar muito especial

Em Barcelos acabei dormindo no Albergue Cidade de Barcelos, que é gratuito e aceita donativos. Havia uma cama para mim, porém dividi o quarto com mais duas pessoas, o que dificultou um pouco a questão do sono, pois eles roncavam muito alto, rs. Acordei novamente às três da manhã pensando que já era hora de levantar, como aconteceu em Águeda – quando estava tomando o meu café da manhã, depois de ter deixado tudo pronto para sair, escuto o sino da igreja batendo apenas quatro vezes. Ok, quatro da manhã, tento voltar para a cama e dormir mais um pouco. Tenho um sono mais conturbado até levantar de novo, mas acordo com disposição. Tomo o meu chá, que acabei deixando de propósito para depois, como mais uma banana e em pouco tempo já estou caminhando pelas ruas de Barcelos, iniciando o 16º dia de Caminho de Santiago através do Caminho Central Português.

Alguns minutos caminhando e um cheiro delicioso de pão acaba me seduzindo, e assim entro na padaria “culpada”, rs. Faço uma comprinha rápida e barata e volto para o Caminho, que por enquanto ainda está nas ruas de Barcelos. Mais à frente, toca o sino, ou melhor, vários sinos de diversas igrejas dando oito badaladas, uma igreja atrás da outra, assim como foi em Porto. Oito horas, eu jurava que já eram nove, pela posição do Sol, mas resolvo deixar para lá, poderia ser só uma impressão minha. Logo após as várias badaladas entro na Freguesia de Vila Boa, onde tenho uma vista fantástica de Barcelos e região, um vale rodeado por montanhas de médio porte, onde o Sol vai se levantando atrás das nuvens. Paro um pouco para admirar o visual e agradecer novamente por aquele espetáculo, pela vida, pela experiência no Caminho, por todo o aprendizado e pela gradual transformação. Volto a caminhar com o mochilão nas costas e a toalha de banho pendurada nele, assim como fiz no dia anterior, pois a toalha novamente não havia secado direito.

Após Vila Boa, o Caminho de Santiago entra por bosques e campos, hoje foi talvez o dia mais bonito de todos até agora. O tempo está um pouco nublado, mas dá para perceber o Sol querendo atravessar as nuvens, o dia está ótimo para refletir e pensar na vida, e é isso o que faço. Lembro de um texto que li um pouco antes de iniciar esta jornada, intitulado O Egoísta de Si Mesmo, ou algo parecido. O texto dizia que o egoísta de si mesmo é aquele que muda de opinião o tempo todo, que começa uma coisa e daqui a pouco já está querendo fazer outra, que se muda para um lugar mas pouco tempo depois já quer ir para outro, ou seja, não deixa Deus agir em sua vida, pois está mudando os planos a toda hora. Nesse momento percebo que eu e Grazi fizemos isso por muito tempo, na melhor das intenções, cheguei inclusive a comentar com ela algumas vezes que eu tinha a sensação de que quando estávamos “chegando lá”, mudávamos os planos, mudávamos o rumo do caminho, e por isso obviamente acabávamos não chegando a lugar nenhum. Agora não, agora eu estava deixando Deus agir em minha vida, e mais uma vez um forte sentimento de gratidão invadiu o meu peito…

Logo após esta importante reflexão em meio à natureza, viro à esquerda na Rua dos Caminheiros de Santiago, a rua do atual momento de minha vida! A rua me leva para um caminho de pedra no meio de grandes campos, é domingo, o Sol agora ameaça aparecer de vez e já é a terceira ou quarta vez que um grupo de ciclistas vem na direção contrária, ouço diversos “bom caminho” e os saúdo e agradeço. É impressionante como aqui no norte do país o Caminho de Santiago é “mais vivo”, as pessoas parecem dar mais importância para a peregrinação do que nas outras regiões. Um senhor que vinha logo atrás dos ciclistas se aproxima de mim e faz muita festa, ainda mais quando conto que sou brasileiro. Conversamos por alguns minutos, o senhor é muito simpático e animado, de uma energia contagiante – é muito bom topar com este tipo de gente, dá um ânimo a mais, mesmo com toda a animação que eu já tinha. Despeço-me dele e vejo emergir no horizonte um casal de húngaros que tinham dormido no mesmo albergue que eu e sigo o meu caminho. Mais à frente paro em um Café, após deixar o campo e adentrar uma pequena área urbana, o casal para também e em seguida passa por nós os dois peregrinos que dormiram no meu quarto na noite passada. Peço a promoção do café com o kit-kat, um chocolate muito gostoso que tem por aqui, e essa dupla me dá a energia necessária para seguir em frente bastante empolgado!

O Caminho agora está prestes a adentrar outro bosque, mas na divisão entre a estrada de asfalto e o caminho de pedra vejo uma galinha atropelada, algo que eu nunca tinha visto antes. Quando se caminha o dia inteiro, não é difícil topar com animais mortos, e isso vem me fazendo refletir sobre o tabu da morte, sobre o paradoxo da morte. Topar com estas cenas ao mesmo tempo me faz considerar como tudo pode acabar de repente, numa fração de segundos, quando menos se espera, mas também (e talvez por isso) me faz querer viver intensamente cada momento, cada minuto, cada segundo de minha vida! Não há mais espaços para lamentos, não há mais espaços para sentimentos pequenos, mesquinhos ou negativos, não há porque se perder tempo com estas coisas, pois a vida está ali acontecendo, pedindo para que vivamos verdadeiramente, e a verdade é positiva, é iluminada, é para ser vivida intensamente. Por isso cada vez mais é tempo de dizer: xô pensamentos que não me acrescentam em nada, xô para tudo que não for positivo, para tudo que não tenha luz. Com licença, há uma transformação acontecendo aqui, uma verdadeira libertação, um ato de fé e amor

Atravesso uma estrada e vejo uma grande placa do Caminho de Santiago no início de mais uma trilha no meio de um lindo bosque. Mais uma vez constato o orgulho das cidades do norte de Portugal em fazer parte desta rota de peregrinação, cada cidade por onde passa o Caminho Central Português “adota” o Caminho de Santiago como coisa sua, é como fazer parte de uma coisa grande e importante. De repente começo a ouvir uma música ao vivo ao fundo, está acontecendo alguma celebração por perto. Atravesso outra estrada e o Caminho continua em outro bosque, o som está até mais distante por causa das grandes árvores que me rodeiam, mas consigo distinguir uma mulher cantando música portuguesa. Porém, quando o bosque fica para trás e o Caminho de Santiago se abre a céu aberto, ouço incrédulo aquela famosa música de Ivete Sangalo que diz que levantou poeira, ninguém merece, rs. Lá vou eu então percorrendo o Caminho Central Português ouvindo mil vezes aquele refrão pegajoso “Poeira, poeira, poeira, levantou poeira”. Fazer o quê, rs?

Após aquela “poeira” toda, outra coisa esquisita. Eu já tinha reparado pelo caminho em algumas placas informando que algumas áreas eram destinadas à caça, mas uma coisa é ver uma placa e outra é ver um homem com um rifle na mão incitando o seu cão a encontrar uma caça. Passei rapidinho por ali, mesmo sabendo que Portugal é um país super tranquilo e pacífico. Mas é como dizem, o seguro morreu de velho, e de gente com arma na mão eu quero distância. O sol agora estava forte, e acho que subi tão rápido a inclinação da pista, por causa do episódio da arma, que minhas pernas ficaram todas suadas dentro da calça. Resolvi fazer então algo diferente, pela primeira vez iria percorrer o Caminho de Santiago de bermudas; troquei rapidamente de roupa atrás de uma árvore mais escondida, e minutos depois estava caminhando com mais liberdade ainda!

Chego enfim a Aborim, onde do pátio da Igreja de Nossa Senhora de Fátima tenho uma vista linda, pois o local no alto e bem no início da cidade, dava para ver todo o vale que engloba Aborim e outras localidades próximas. Fiquei ali um bom tempo, pensei em meu reencontro com o Luan, meu filho mais velho, estava feliz por isso. Era muito difícil deixar a Layla e o Dimi aqui em Portugal e ir viver no Brasil, mas assim é a vida, às vezes temos que tomar decisões extremamente difíceis. Porém, tudo tem seu lado positivo, e o grande lado positivo de voltar para o Brasil era me reaproximar de meu primogênito, pois estamos afastados fisicamente há algum tempo. E, além disso, eu estava com altos planos para a carreira artística, iria rever amigos e familiares queridos, afinal de contas voltar para o Brasil não era assim tão mal… Resolvo enfim caminhar por Aborim e de repente começa a tocar uma música clássica, um grande momento que deixou o ar ainda mais leve e sereno.

Enquanto eu ainda estava sentado na mureta observando a paisagem, passaram dois casais por mim, além da dupla de amigos, e eu pensei em quão interessante também deve ser fazer o Caminho de Santiago acompanhado, de partilhar os momentos. Porém não era um lamento por estar sozinho, pois este momento agora era sim de caminhar sozinho, mas quem sabe um dia não passo por uma experiência dessas acompanhado? Só a vida dirá, só Deus é quem sabe. Neste momento tenho algumas conversas com Deus, se alguém passasse ia pensar que eu estava falando sozinho, mas eu tenho plena certeza que não, que estava sendo ouvido, que serei respondido. É um momento muito intenso, chego a ficar emocionado, com lágrimas nos olhos…

Hoje foi dia de caminhar muito entre vinhedos, e enfim, depois de alguns dias, voltei a comer uvas pelo Caminho. Os últimos quilômetros antes de chegar na Casa da Fernanda foi assim, uvas e uvas, eu praticamente almocei uvas, rs. O Pedro, que eu havia conhecido em Varão, me recomendou muito a Casa da Fernanda, disse que eu tinha que passar por lá de qualquer jeito, e eu então sigo a sua dica. O problema é que eram apenas 20 km desde Barcelos (apenas? rs) e eu acabei chegando lá por volta de meio dia e meia, bem na hora do almoço, e não encontrei ninguém lá. Bati na porta, o cachorro latiu, latiu e nada, nenhuma alma viva. Sendo assim, parti para o plano inicial, que era seguir até Ponte de Lima, percorrendo um total de 32 km o dia inteiro. Agora sim, rs.

Volto então para o Caminho, e uns 20 minutos depois encontro com um grupo liderado pelo dono do albergue que dormi ontem, que aproveita para “puxar a minha orelha” por eu não ter assinado a lista de hóspedes; esqueci completamente, até brinquei com ele que era porque eu quase não estive em albergues, por isso não tinha o costume. Conversamos bastante, ele é muito gente boa, ele ia com o grupo só até Ponte de Lima, só para mostrar para seus amigos um trecho do Caminho, para que pudessem experienciá-lo pelo menos um pouco, ele mesmo já havia percorrido o Caminho Central Português até Santiago de Compostela algumas vezes. Um pouco adiante me separo deles, pois fui almoçar em um Café na localidade de Reborido, onde como um gostoso omelete por 2 euros, acompanhado de uns pães deliciosos. Olha, os pães na França são maravilhosos, mas em Portugal não fica nem um pouco atrás, para mim é muito difícil dizer de onde vem o melhor pão. O almoço caiu muito bem, era hora de seguir em frente, e adentro um trecho muito bonito, onde caminho a passos lentos, bem devagar, deixando o corpo ditar o ritmo das passadas. Pouco depois descubro em um painel diferente que faltam 10 km para Ponte de Lima, melhor que os 16 km que fiz ontem à tarde.

A partir do painel com a distância a ser percorrida, o Caminho ficou mágico, absolutamente mágico. Primeiro, sinto a presença de um rio abaixo e à esquerda me acompanhando, com uma bonita montanha no lado oposto. Logo em seguida, avisto montanhas altas e lindas no horizonte, e ao acabar a descida, percebo que estou no meio de um vale paradisíaco, simplesmente fantástico! Caminho e paro várias vezes, sento nas muretas de pedra e olho provavelmente com cara de bobo para toda aquela beleza estonteante, fico agradecido, sinto-me extasiado. Como não admirar a beleza, tanta beleza? Sei que a beleza passa despercebida para muita gente, mas eu não consigo, simplesmente não consigo não contemplar a beleza, não admirar e celebrar um belo momento. Ainda na descida, um menino de uns nove anos que brincava com sua bicicleta me viu e disse docemente “bom caminho”com um sorriso no rosto que vai ficar para sempre marcado em minha memória. Do outro lado da rua, uma senhora repete o gesto, segundos depois do garoto, também deixando um gostoso sorriso no ar – os dois pareciam adivinhar o quão bobo e feliz eu ficaria com o que vinha pela frente.

Assim foi até Ponte de Lima, lindas paisagens e uvas again, além de uma relinchada clássica de um burro que me deu um susto e me arrancou risadas. Agora uma placa diz que falta 1 km para Ponte de Lima, e o trecho final é um lindo caminho de pedras com parreiras formando uma espécie de túnel natural, mas eu sinceramente não consigo nem olhar direito para elas, acho que vou ficar uns dias sem comer uvas, rs. Começa então um caminho à beira do rio e eu desvio para a pousada da juventude da cidade, mas retorno ao caminho, e o que vejo a seguir é estonteante, deixar a pessoa sem palavras: um lindo e longo caminho, uma passarela gigantesca com árvores igualmente gigantescas de uns 30 ou 40 metros que “se beijavam” lá em cima, formando outro túnel natural, um túnel de boas-vindas a esta cidade a qual fiquei completamente apaixonado. Como se não bastasse, uma linda sonata clássica começa a tocar, vinda não sei de onde, eu procuro sua origem, mas no fim percebo que isso não tem importância alguma. Encantado e totalmente seduzido, só me resta sentar em um dos vários bancos colocados entre as árvores e contemplar o momento, um dos momentos mais inesquecíveis de toda esta jornada inesquecível! Apaixonei-me ali mesmo, apaixonei-me por Ponte de Lima, foi amor à primeira vista. Dali para frente foi só confirmação, a cidade era linda em todos os sentidos da palavra. E eu que pensei que não me surpreenderia mais depois de Coimbra, Porto e Barcelos, mas parece que quanto mais ao norte, mais linda é esta terra lusitana!

Eu caminho devagar pela avenida que beira o rio, tentando absorver aquele momento único, pois o que via diante de meus olhos era a cidade mais linda de Portugal e uma das mais lindas que já tinha visto em toda a minha vida, e olha que não vi poucas mundo afora. Enfim chego à praça em frente à linda ponte romana que divide a cidade, a Ponte Velha, e percebo um senhor olhando em minha direção, então aproveitei e fui pedir informação para ele sobre o albergue e os Bombeiros – os Bombeiros ele disse que ficava do outro lado da cidade eu já sabia que não recebia peregrinos, e o albergue eu tinha a informação que cobrava 5 euros pela estadia, mas o senhor achou que cobrava só 1 euro. Eu expliquei minha situação para ele, que estava com pouco dinheiro e por isso vinha dormindo nos Bombeiros, e ele me disse: “Vai lá, é só atravessar a ponte, se não for 1 euro volta cá que eu lhe pago quanto for, estarei aqui pela praça”. Eu agradeci, disse que não precisava, mas fiquei tocado com aquele gesto gentil e atravessei feliz e grato a ponte rumo ao albergue. Chegando lá, constatei que era realmente 5 euros, daí expliquei a situação para as duas mulheres que me atendiam, dizendo que um senhor havia se proposto a me ajudar a pagar pela estadia, mas elas prontamente disseram que não precisava, que eu podia ficar de graça. Fiquei mais uma vez emocionado, aquele lugar realmente tinha algo de especial.

No fim deu tudo certo, eu ainda saí para comprar macarrão e atum, já que o albergue tinha cozinha à vontade para usar, e acabei descobrindo que a música saia dos postes de iluminação da cidade, tocava agora um jazz com um sax muito gostoso. É ou não é uma cidade especial? E ainda por cima fui descobrir depois que é a vila mais antiga de Portugal! Se em Barcelos deu vontade de ficar mais uns dias, em Ponte de Lima deu vontade de morar… Se eu não tivesse a passagem para o Brasil já comprada, não sei não, acho que tentava algo por estas bandas. É como li em um livro aqui na sala de estar do albergue: A paixão por um lugar não se explica, vive-se.

Até a próxima, o Caminho está cada vez mais intenso!

 

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