Diário de uma Transformação

Dia 15 – 24 de outubro de 2015 – O Caminho fica ainda mais intenso 

Mais uma boa noite de sono, tomara que isso se torne uma constante até o fim da peregrinação. Ainda deitado, mas já bem acordado, ouço as badaladas das sete da manhã e resolvo levantar. Ainda está bem escuro, só está amanhecendo mesmo depois das oito nesta época do ano, eu saio do meu quarto e Pedro ouve meus passos e me cumprimenta, chega a levantar e ir lá na cozinha comigo, mas deita e dorme de novo. Eu hoje tomo um café da manhã mais reforçado, com direito a pão, banana, biscoito de canela, iogurte e algumas xícaras do chá que fiz no dia anterior, que ficou muito bom. Faço meus alongamentos, me despeço de Pedro, que acordara de novo, e parto para o meu 15º dia de caminhada, meio mês no Caminho de Santiago!

Realmente não há nada com um dia após o outro, pois hoje o Caminho já começa fascinante, ao contrário de ontem. Percorro uns 200 ou 300 metros em uma longa e bonita estrada de pedra cercada por altos muros também de pedra, e adentro um bosque à direita, um lindo bosque já no início do dia! O trecho no bosque foi curto, mas verdadeiramente intenso, um momento de profunda gratidão, chego a caminhar alguns segundos de olhos fechados e praticamente em estado de transe, totalmente relaxado, leve, sereno. Após o momento mágico em meio à natureza, ando mais uns metros e estou em Macieira da Maia, também conhecida como Vilarinho, onde dou a minha primeira parada para descansar. Serão 26 km até Barcelos, calculo que devo chegar por volta das 17h, pois hoje saí perto das nove da manhã, talvez o dia que comecei mais tarde a caminhada até agora.

Pego uma estrada e começo minha cantoria habitual, em contraste com o barulho dos poucos carros que passam; é sábado de manhã, há menos movimento nas ruas. Felizmente não fico muito tempo no asfalto, o Caminho de Santiago me leva para outro bosque que beira um rio, e acabo chegando em uma linda ponte romana, a primeira do dia. Começo a caminhar por aquela magnífica construção toda feita de pedra e paro bem no meio dela, a Ponte D. Zameiro, datada do século XII. O rio que passa debaixo dela é o Rio Ave, e ele está cheio de patos e gansos que parecem brincar entre si e com as águas, há um clima de total harmonia no ar. O dia está um pouco nublado e toda aquela cena parece um quadro, um quadro que fica eternizado em minha memória, e eu me encho de gratidão mais uma vez…

Após a ponte começo uma subida que me faz lembrar que carrego algo próximo a 10 kg nas costas, e por isso prossigo devagar, bem devagar, sempre com a ajuda do meu fiel cajado, que quase esqueci enquanto lia as informações sobre a ponte. Sobe, sobe, não tenho como não descansar quando chego lá em cima, rs. Daí pra frente são lindas paisagens campo adentro, o Caminho de Santiago agora é sempre rodeado de muros de pedra, alguns bem altos dividindo algumas propriedades, uma paisagem que percebo ser bem típica aqui do norte. Nessa hora faço um comparativo: Portugal é uma terra linda, eu praticamente conheço todas as regiões, mas o norte do país está me parecendo especial, tem um charme a mais. Talvez seja a grande influência romana, juntamente com a influência celta anterior, inclusive existe uma teoria que os celtas se proliferaram para a Inglaterra, Irlanda e outros lugares mais ao norte partindo aqui do norte de Portugal e noroeste da Espanha (Galícia), para onde estou indo. Só sei que me sinto bem, como se me sentisse em casa, estranhamente em casa.

Depois de boas caminhadas que me fazem refletir bastante, chego a mais uma ponte construída pelos romanos, a Ponte São Miguel de Arcos, também do século XII, que passa sobre o Rio Este – esta ponte é menor que a anterior, assim como o rio. Caminho mais um pouco e adentro a localidade de Arcos, uma bonita vila feita praticamente toda de pedra. Continuo andando e enfim chego a São Pedro de Rates, onde paro para almoçar, desta vez a céu aberto, pois já havia preparado o meu “almoço”, estava tudo pronto dentro do meu mochilão. Almoço numa praça em frente a uma fantástica e linda igreja, a Igreja Românica São Pedro de Rates. Na praça tem um painel do Caminho de Santiago, onde descubro que faltam ainda 16 km para Barcelos, calculo que vou ficar o dia inteiro caminhando, como havia previsto. Após comer, não tenho como não entrar naquela igreja do século XI, que foi construída sobre as ruínas de outra igreja datada do século VIII ou IX. Percorro a igreja toda, ela é de certa forma compacta, e acabo lendo um trecho interessante da Bíblia, que tem muito a ver com o momento que estou passando. Saio de lá me sentindo bem, e caminho pelas tuas que exalam história, na surpreendente São Pedro de Rates.

Uma coisa que é curiosa e que tenho notado desde a região de Santarém e Ribatejo são as casas com os nomes individuais dos moradores ou das famílias nos muros ou portas. Isso é realmente curioso, e fica ainda mais interessante nas casa feitas todas de pedra, que são predominantes nos interiores do norte de Portugal. Além da pedras, outro destaque do dia são as flores – hoje vejo muitas flores pelo Caminho de Santiago, não resisto e paro diversas vezes para admirá-las e cheirá-las, teve um trecho que estava cheio de flores que eu nunca tinha visto na vida, tipo uma mistura de orquídea com margarida, uma flor muito exótica e extremamente cheirosa; “perdi um bom tempo” sendo seduzido por elas. Sigo em frente, caminhando por bosques e campos, parando e sentando em pequenos muros de pedra, vislumbrando paisagens incríveis, pensando na vida e em planejamentos e soluções, tentando me libertar um pouco mais dos acontecimentos recentes. Este é o segundo dia da fase final, da fase redentora, e cada momento é importante, cada aprendizado, cada ensinamento, cada pedido em forma de oração…

Chego a Pedra Funda, nem preciso dizer que pedra é a palavra de ordem, mais um lugar feito praticamente de pedra. Como havia pesquisado e já relatei aqui no diário, o Caminho de Santiago é muito bem sinalizado a partir de Porto, agora há até aquelas grandes placas turísticas (grandes mesmo, enormes!) pedindo para os motoristas terem cuidado, pois há peregrinos na pista, e eu felizmente sou um deles, sou o peregrino que eles precisam prestar a atenção naquele momento. Avisto um painel do Caminho informando que faltam 10 km para Barcelos, mais umas duas horas, segundo as minhas contas. Tudo bem, cada hora a mais é mais uma hora a menos, o importante é seguir em frente, agora para baixo, só descida. Um pouco depois chego a Pereira, onde há uma vista para uma cidade maior que só pode ser Barcelos, pelo tamanho do lugar e pela distância. Estou chegando, estou chegando!

Para variar, o “estou chegando” sempre demora um pouco mais do que o esperado, e quando o cansaço aperta, parece que a proteção que a proteção que tenho contra os pensamentos ou lembranças desagradáveis afrouxa, e eu me pego pensando em coisas que não quero mais pensar. Não, sigo para mim mesmo, há coisas importantes em jogo, coisas realmente importantes, há uma busca, uma transformação, há um objetivo sério demais para a mente ser desviada para coisas que não valem a pena. Desta forma, paro um pouco, como meu último pedaço de chocolate, que me energiza bastante, e sigo em frente até o fim, expulsando o cansaço e pensamentos desnecessários. Passo por Barcelinhos e chego à última ponte romana do dia, a Ponte Medieval, do século XIV, qu eliga Barcelinhos a Barcelos e é considerada monumento nacional.

Eu pensei que não me surpreenderia mais depois de ter conhecido Coimbra e Porto, mas Barcelos foi a cereja do bolo até agora. A cidade é incrível, é lindíssima com suas construções de pedra que me remeteram a algumas cidadezinhas da Bretanha Francesa, com a diferença que Barcelos tem mais estrutura, especialmente em relação à diversidade gastronômica e cultural – tem até um festival de teatro acontecendo de agora até novembro. Achei a cidade realmente fantástica, muito mais interessante do que eu esperava, deu até vontade de ficar mais uns dias por aqui.

E assim vamos em frente, com o Caminho de Santiago não parando de me surpreender!

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