Diário de uma Transformação

Dia 14 – 23 de outubro de 2015 – Um grand finale para um dia imprevisível

Tive uma boa noite de sono, apesar do dia anterior cansativo, tanto mental como fisicamente. Como eu dormi no alojamento junto com alguns bombeiros, não dava para acender a luz e ainda estava escuro quando acordei, por isso apenas me vesti e fiz o básico, antes de ir embora – café da manhã e alongamento desta vez eu faria a céu aberto. Saio caminhando pela bela Porto, vejo no relógio de uma igreja que são sete e meia, o dia está querendo amanhecer, sinto bons ventos e boas energias pela frente. Hoje é o primeiro dia da segunda fase do Caminho de Santiago, o início da parte final, o primeiro dia depois da importante decisão de não entrar mais na Internet até o fim da jornada, o primeiro dia após ter resolvido deixar tudo o que passou para trás de uma vez por todas. Estou animado, caminho levemente pelas ruas, saltam-se sorrisos no rosto, e tenho a ideia de tomar meu café da manhã e fazer os alongamentos na ponte que atravessei a pé no dia anterior.

Chego à Ponte D. Luís I e sigo caminhando até o meio dela, onde paro e sinto o vento fresco do amanhecer me cumprimentando, e eu o cumprimento de volta. Estou acima do Douro, bem no meio dele, o Sol anuncia que vai nascer por trás das montanhas a leste, há um quadro lindo e fascinante se desenhando no céu. O momento é ímpar, difícil de descrever, é muita beleza para um pedaço só de mundo, uma cidade linda à minha esquerda, um rio majestoso abaixo e à frente, montanhas que escondem o Sol que agora está escalando rumo ao topo delas, um vento que energiza… Chego a pular um pouco enquanto alongo, de tanta energia que recebo, de tanta magia. Sei que têm muita gente que detesta acordar cedo, mas acordar cedo tem suas enormes vantagens, e participar de um momento desses é só um exemplo.

Saio da ponte um pouco antes dos primeiros raios de sol me atingirem, mas sei que ele me fará companhia durante grande parte do dia, por isso vou em paz pelo Caminho de Santiago por dentro de Porto e toda a sua beleza histórica. Sigo as setas amarelas, passo por igrejas, mosteiros e monumentos especiais, mas em determinado momento as setas amarelas somem. Decido subir, depois de pedir informação a um morador, mas nada, acabo chegando em uma praça que conheci ontem. Volto tudo, resolvo ir ao ponto onde as setas sumiram, e descubro que há uma seta azul do Caminho de Fátima para a esquerda, e presumo que o Caminho de Santiago provavelmente é para o lado oposto. Dito e feito! E curiosamente o percurso me leva para a mesma praça, só que em um ponto diferente, um pouco mais à direita. Daí para frente não me perco mais, acho que foi só mais um capricho da cidade do Porto, talvez tentando me seduzir mais um pouco, não querendo que eu fosse embora, rs.

Demorei quase duas horas para sair de Porto, como já era esperado, pois trata-se da segunda maior cidade de Portugal. Mas antes tive que parar para tomar um cafezinho, porque meus olhos estavam pesados, um cansaço subitamente me invadiu inesperadamente; e o café em Portugal realmente faz milagres, é muito mais forte e concentrado que o que estamos acostumados no Brasil. Com a alma regenerada, lá fui eu caminhando pela urbanidade da Zona Metropolitana do Porto, passando por Araújo, onde eu já estava completamente recuperado e cantando o disco novo pelas ruas, e chego depois a Maia, onde na rota inicial que fiz seria o destino final do dia. Mas, assim como na experiência com a Família a Bordo, as rotas sempre acabam se “metamorfoseando” pelo caminho. Na verdade, este foi o primeiro dia em que eu não tinha destino final planejado, ia ver até onde conseguia ir, até onde o Caminho de Santiago me levaria.
Após passar por um cemitério, sentei em um chão de pedra à sombra de uma grande árvore, meio que numa esquina em frente a um posto de gasolina. Ao longe escutei as 12 badaladas do meio dia e aproveitei para pegar uma das gigantes maçãs que ganhei da simpática senhora dona da frutaria em Vila Nova de Gaia e pus-me a degustá-la vagarosamente, enquanto as pessoas passavam, algumas me olhando desconfiadas, outras me cumprimentando – houve até uma senhora que parou e conversou comigo, perguntando se eu estava com fome, pensei que ela ia me levar para almoçar em algum lugar, o que nem era necessário naquele momento, rs. Enfim, depois de um tempo descansando, me alimentando e pensando na vida, levantei e segui viagem, na esperança que em algum momento a paisagem mudasse, que surgisse um bosque, uma floresta ou um caminho entre campos verdes e lindos. Mas isso não aconteceu, este foi o dia mais “urbano” de todos, inclusive fiquei um bom tempo atravessando a cinzenta Zona Industrial de Maia…

Logo após a zona industrial, passei por Gemunde, um minúsculo povoado, e entrei em Vilar do Pinheiro, onde avistei um Café e resolvi dar aquela parada para o almoço. Vilar do Pinheiro era um lugar que eu tinha certa intenção de pernoitar, porém ainda eram 13:30h, um tanto cedo para se pensar nisso. Peço um sande de queijo e um copo de vinho, o simpático rapaz que me atende diz que há um quartel de bombeiros na cidade, eu pergunto se nas duas localidades adiante também têm e acabo descobrindo que Vilarinho pode ser uma opção, mas resolvo passar nos Bombeiros dali, só para garantir. Saio do Café e ainda ando um bocado até chegar no local, em uma paisagem mais agradável que as anteriores, por ruas de pedra, casas e um pouco de campo e montanhas ao redor, enfim toda aquela urbanidade de toda uma manhã de caminhada havia passado.

Chego nos Bombeiros mas vejo que o estabelecimento está fechado, porém o Bar dos Bombeiros logo ao lado está aberto. Peço informação à moça do balcão e ela me diz que ali eles não recebem peregrinos, somente mais à frente, uns 5 km à adiante. Aí começa a saga dos 5 km: em todos os lugares onde peço informação dali em diante, as pessoas dizem que o local que hospeda peregrinos fica 5 km adiante, rs. Caminho bastante, bem mais do que imaginava, mas vou tranquilo, trabalhando a mente, expulsando pensamentos desagradáveis sobre o dia de ontem, deixando o passado para trás e abrindo generosamente as portas para o futuro, construindo o futuro agora, no presente, como deve ser. Sigo em frente, sempre em frente, e depois de passar por Gião encontro uns daqueles painéis com a rota local do Caminho de Santiago que eu não via há dias. Para em frente a ele e enfim descubro que vou pernoitar em um antigo mosteiro, que hoje é um albergue oficial do Caminho. Um mosteiro, que interessante, penso eu. Pego um desvio à direita e este trecho final, os 5 km finais, como estava no painel, é de longe o mais bonito e agradável do dia.

Finalmente chego ao meu destino, o Mosteiro de Vairão, que fica na freguesia de Vairão, pertencente a Vila do Conde, local que nem constava em minha rota oficial. Sou muito bem recebido pelo casal que administra o lugar, primeiro pela senhora e depois pelo Sr. José Maria, um jovem de 71 anos, que me mostra o quarto onde vou ficar e me conta alguns causos, inclusive descubro por ele e confirmo depois em uma reportagem no mural da parede do corredor que o mosteiro tem mais de mil anos! Fantástico, simplesmente fantástico! Vou ao mercadinho local, Vairão é fascinante, caminho por ruas de pedra e com altos muros também de pedra em alguns trechos, paisagem que me leva a centenas de anos atrás.

Faço um lanche e depois vou comer uma sopa no Restaurante do Miguel. Miguel é um senhor de 72 anos que cozinha desde criança, como me contou José Maria. Como minha sopa e enquanto estava bebendo o meu vinho e escrevendo, conheço o Pedro, uma figura ímpar, grande persona, um jornalista especializado em esportes e música. Nem preciso dizer que nos identificamos rapidamente, ficamos cerca de duas horas e pouco conversando. Encontros ao acaso, sempre os melhores! Marcamos encontro em Lisboa, após o término do Caminho de Santiago, e outro no Brasil, onde ele vai cobrir as olimpíadas.

Assim é o Caminho, sempre ensinando e surpreendendo, onde cada minuto pode ser importante!

 

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