Diário de uma Transformação

Dia 13 – 22 de outubro de 2015 – Hora de tomar uma importante decisão

Onde dormi esta noite era o lugar mais frio do quartel de bombeiros, sorte que o saco de dormir que tenho realmente é bem quentinho. Saio às 07:40h, depois de uma noite razoável de sono, o dia está lindo e faz mais frio do que nos outros dias, mas eu já saio preparado, de luvas e toca. É a primeira vez que saio de toca e tão equipado assim, acho ótimo! O Sol ainda não nasceu por detrás das montanhas, mas já há um belo espetáculo de luzes anunciando que ele está vindo. Em uma hora de caminhada recebo mais “bom caminho” do que em todos os outros dias, é um carinho muito especial e me faz distribuir sorrisos de gratidão.

Chego em Mozelos e por enquanto o Caminho de Santiago é por estradas e ruas, tudo muito urbanizado. Estou tranquilo, porém mais quieto que o normal, como se pressentisse que algo fosse acontecer, algo preocupante ou desagradável. Deixo as preocupações de lado e sigo em frente, parando perto do cemitério para fazer um lanche. Tenho muita vontade de comer uma fruta, mas não tenho nenhuma, como uma barra de cereais e algumas torradinhas. O Sol está lindo, mas o dia continua frio e eu continuo de luvas, toca, manga comprida e o blusão por cima, e isso depois de quase duas horas de caminhada – geralmente no máximo em meia hora eu já estou só de blusa de manga curta. A vontade de comer uma fruta continuava, e eu decido que vou tentar pedir em algum lugar, pedir que me doem uma, pois estou com pouquíssimo dinheiro agora. Só preciso arranjar coragem, mas ela por enquanto não vem…

Agora estou em Grijó, estou indo muito bem, como no dia anterior, e isso me anima. Porém continuo estranhamente quieto, meu sexto sentido quer me dizer algo, mas ainda não sei o que é. Vejo uma senhora na lateral de uma casa e penso em pedir uma fruta para ela, mas passo direto, porém ao ver o nome da casa um pouco mais à frente, Casa das Artes, resolvo voltar e tomo coragem, dizendo que sou artista e reparei no nome da casa e se ela poderia me conseguir uma fruta, qualquer uma. Entretanto ela desconversa, dizendo que tinha um albergue lá na frente onde eles recebem os peregrinos, onde dão de comer etc. Resolvo deixar para lá, era só uma fruta, mas tudo bem.

O Caminho é praticamente o mesmo até chegar Perosinho – estradas e tuas, estradas e ruas, nada de bosques e paisagens naturais. Já estou em Perosinho, penso eu, a antepenúltima localidade do dia e ainda é de manhã! Resolvo parar em uma pequena escada de pedra que divide uma bifurcação e fecho os olhos com o rosto voltado para o Sol. Converso um pouco com Deus, agradeço o momento, e finalmente tiro a manga comprida e o blusão e fico somente de manga curta; as luvas e a toca eu havia tirado há uma meia hora. Agora caminho um pouco mais leve, depois do momento especial na escada, e enfim o Caminho de Santiago se modifica, virando um bonito caminho de pedras em um bosque que sobe bem na montanha. Faz bastante calor, é perto de meio dia, o Caminho está melhor sinalizado, como eu havia lido, que de Porto em diante a sinalização era bem melhor. Ainda estou um pouco apreensivo, apesar de tranquilo, penso nos dois e-mails que mandei ontem para a Grazi, penso nas possíveis respostas dela, e nesse momento percebo que estas trocas de e-mail entre nós não está me fazendo bem e resolvo que não entrarei mais na Internet a partir de amanhã até o meu retorno a Lisboa. Acho que será melhor para ambos.

Chego em Rechosa, que eu havia esquecido que estava na minha rota. Peço informações a umas senhoras, a cidade é grande, com prédios altos, eu já estava pensando que era Vila Nova de Gaia. Avisto uma frutaria, daquelas cheias de frutas bonitas do lado de fora, e resolvo entrar e tentar a sorte com a simpática dona que está atendendo uma cliente amiga. Eu aguardo elas se despedirem, conto que estou percorrendo o Caminho de Santiago, ela conta que o marido já o fez algumas vezes de bicicleta, conversamos mais um pouco e tomo coragem de perguntar se ela poderia me doar uma fruta, a simpática senhora prontamente diz que sim, com um largo sorriso no rosto. Fico surpreso, ainda mais quando ela pede para eu escolher as frutas e insiste para que levasse mais de uma, quando eu na verdade só queria uma maçã para ir comendo no trecho final até Gaia. No fim, ela me dá um cacho de bananas e cinco maçãs, e ainda queria me dar mais coisa, mas eu agradeço, digo que não precisa, por causa do peso adicional na mochila. Despeço-me dela, a senhora me deseja Bom Caminho e diz coisas bonitas, eu fico tocado com tanto carinho e generosidade, em como ainda há pessoas assim em um mundo tão conturbado. E assim saio caminhando feliz pelas ruas de Rechosa, deliciando-me com aquela maçã enorme e suculenta que tanto desejei o dia inteiro, presente de mais um anjo que conheci no Caminho de Santiago, quando vejo uma placa dizendo que só faltavam 2 km para Vila Nova de Gaia. Só 2 km, que maravilha! Ia almoçar em Gaia, isso estava saindo melhor que a encomenda, rs.

Chego em Vila Nova de Gaia e vou direto à biblioteca municipal, pois queria verificar se minha mãe havia me mandado um e-mail com a cidade que uma amiga dela tinha casa e havia oferecido hospedagem para mim, uma cidade perto do Porto. Era bem cedo ainda quando cheguei, perguntei as horas a um senhor e eram 12:45h, ou seja, levei apenas cinco horas para completar os 27 km entre Lousada e Gaia, nada mal! Não há o e-mail que esperava, mas havia outro me acusando de uma coisa que eu não fiz e que eu mal sabia o que era – afinal de contas, o meu sexto sentido estava certo, havia realmente algo estranho no ar. Saio da biblioteca meio desnorteado, para mim tinha sido a gota d’água, se antes eu já havia decidido não entrar mais na Internet até o fim da minha jornada, agora mesmo é que não ia, chega, estava sacramentado. Tinha que retomar a paz que o Caminho estava me dando, a continuar a absorver bem todos os ensinamentos, todo o aprendizado, e isso só seria possível mesmo se eu ficasse totalmente offline.

Almoço em um restaurante próximo à biblioteca e depois vou à caça de um quartel dos bombeiros, pois segundo o que pesquisei há mais de um Vila Nova de Gaia. Porém são todos distantes entre si, de difícil acesso, não os encontro. Decido procurar a Santa Casa da Misericórdia, igualmente de difícil acesso. Resolvo então ir direto para Porto, pois tinha visto na Internet que havia um Bombeiros Voluntários logo após a ponte. Desço a Avenida da República, passando pela Casa da Cultura e com intenção ainda de visitar as Caves de Vinho do Porto, antes de atravessar a Ponte D. Luís I, que é apenas uma das várias pontes que ligam Gaia a Porto – uma curiosidade: o Vinho do Porto geralmente é associado à cidade do Porto, porém ele é produzido na vizinha Vila Nova de Gaia. Perto da ponte há uma grande praça à esquerda, com uma subida para uma parte mais elevada, vou até lá e tenho uma das vistas mais bonitas que já vi de uma cidade: Porto, linda à minha frente! Que visual, Porto e o Rio Douro a poucos metros de mim. Fiquei um bom tempo ali gravando aquelas imagens em minha mente, imagens realmente inesquecíveis! Atravesso enfim a Ponte D. Luís I, que também é conhecida como a Ponte do Metro (metro é como eles chamam o metrô por aqui) e tenho lindas visões, parando em diversos locais desta ponte que é possível atravessar a pé, ao contrário das de Lisboa.

Vou caminhando por Porto e me apaixonando, eu que sempre tive muita vontade de caminhar por estas ruas, tanto que quase vim morar aqui com minha família, quando viemos do Brasil. Eu amo Lisboa e Setúbal, adorei Coimbra, mas Porto tem a cara de Portugal, na minha opinião. Acho que não é à toa que o nome do país provém da cidade (Portus Cale), pois tudo começou aqui, o país começou aqui. Quanto mais eu adentrava a cidade, mas eu sentia que ela era a alma desta nação. E em certos momentos ela me remeteu a Paris, tamanha a beleza de sua arquitetura. Realmente um lugar especial.

Porém nem tudo são flores, eu caminho por cerca de quatro horas pela cidade, inicialmente em um clima de descoberta, e depois tentando um lugar para dormir, o que só fui conseguir às nove e pouca da noite, após muita negociação com os Bombeiros Voluntários – tive até que ir em outro quartel de bombeiros (Bombeiros Sapadores) para só então eles se comunicarem e enfim os responsáveis pelos Bombeiros Voluntários me aceitarem no local. Enquanto esperava pelo desfecho da negociação, ainda na sede dos Bombeiros Sapadores, onde fui extremamente bem recebido, finalmente consigo falar com as crianças no telefone e tenho mais uma tentativa frustrada de conversa com a mãe deles, o que já era esperado pelo e-mail acusador que recebi dela. Eu desisto, pendo comigo mesmo, fiz o que podia fazer e o que estava ao meu alcance, a partir de amanhã volto a me dedicar integralmente à minha transformação, minha libertação, minha evolução em todos os sentidos, Agora o passado ficaria no seu devido lugar.

Até a próxima!

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