Diário de uma Transformação

Dia 12 – 21 de outubro de 2015 – Um dia de verdade

Esta noite foi bem melhor do que as duas anteriores, fiquei aliviado por não ter tido nenhum percalço durante a madrugada. Antes de dormir fiz um lanchinho especial, do tipo travessura de criança! Eu tinha ido no mercado só para comprar uma fruta e talvez um iogurte, mas me deparei com uma lata de leite condensado e ela disse “me leva”, rs. Conclusão: levei também laços, que é tipo um croissant pequeno, para mergulhar na lata, e foram vários mergulhos… Mas antes, torradinhas com queijo fundido, tudo uma delícia! Depois, um pouco de meditação antes de dormir, como havia prometido. Acho que deu certo.

Ainda quando fazia meu lanche travesso, percebi que a solidão já não me incomodava tanto assim, que na verdade eu estava aprendendo a ser companheiro de mim mesmo, a me amar mais livremente, sem autojulgamentos ou qualquer outro tipo de culpa. Eu estava ali, em paz, realizando uma grande jornada espiritual e de autoconhecimento, e isso era extremamente precioso e um divisor de águas em minha existência. Naquele momento percebi que não precisava de aprovação de ninguém, a não ser a minha própria; não precisava que me entendessem, quem quisesse que me julgasse ou criticasse, isso realmente já não tinha a menor importância. Há pouco tempo haviam me dito que eu estava em uma busca cega por evolução; hoje percebo que uma busca por evolução jamais será cega

Começo a caminhar pela cidade, o dia está lindo, sol e frio, perfeito, do jeito que eu gosto. Está frio mesmo, penso até em colocar as luvas, devia estar uns 12 graus, no máximo. Ando mais um pouco e adentro uma bonita área verde, saindo da cidade, e naquele momento o frio se intensifica e paro para colocar as luvas, sai aquela fumacinha ou vapor de frio até pelo nariz, quando expiro. Eu tento aproveitar ao máximo aquele frio gostoso de clima de despedida, pois em menos de um mês estarei de volta ao calor infernal do Rio de Janeiro. Penso nisso, na readaptação, no retorno ao Rio, e um dos grandes motivos de percorrer o Caminho de Santiago, de buscar uma real transformação do ser, é também neste sentido, de tornar este retorno mais agradável e não tão difícil. Tenho trabalhado bastante a minha mente para não agir na defensiva em relação ao Rio, para encarar tudo como uma experiência boa e necessária no momento, como se fosse colocar o pé um pouco atrás para dar o impulso para a vitória. De forma alguma estou encarando a volta ao Brasil e ao Rio como uma derrota, como um fracasso, para mim é como um trampolim, o salto final!

Continuo caminhando tranquilamente, sem pressa, caminhando de forma equilibrada. Na verdade, hoje foi o melhor dia neste sentido, houve equilíbrio no caminhar o tempo todo, o que me deixou muito feliz e satisfeito, pois a questão do equilíbrio talvez seja a mais primordial neste meu renascimento. Lembro que hoje são 21 de outubro, ou seja, faltam apenas três meses para eu virar um quarentão, para entrar na casa dos “enta”, de onde é muito difícil sair, rs. Dizem que a vida começa aos quarenta, estou botando muita fé nisso, pois uma nova vida realmente vai começar neste momento final de transição para esta bela idade. Não me arrependo de nada que vivi até hoje, pelo contrário, amei praticamente todos os momentos, especialmente nos últimos 10 anos, mas sinto que a “coisa” vai acontecer de fato agora, com a minha transformação, com a experiência de vida que tenho hoje. Está chegando a hora, digo para mim mesmo, e nessa hora tenho vontade de abraçar o mundo! Não tenho mais a vontade ou a pretensão de mudar o mundo, cada vez mais tenho vontade de aceitá-lo e fazer a minha parte dentro dele, e obviamente poder “plantar umas sementinhas” mundo afora, espalhar a mensagem, completar a minha missão.

Chego a São João da Madeira muito antes do que eu imaginava, depois de ter passado por Santiago de Riba e Cacujães. Ainda eram 10 horas, ou seja uma hora e meia após ter saído dos Bombeiros em Oliveira de Azeméis, e eu pensando que ia chegar na hora do almoço. Tudo está fluindo muito bem, talvez seja o equilíbrio colocando ordem na casa, penso eu. Caminho bem devagar pela cidade, paro em uma grande praça e faço um lanche, tipo o segundo café da manhã, ou pequeno almoço, como os portugueses chamam esta refeição. As pessoas olham para mim, hoje foi o dia de eu ser cumprimentado nas ruas ou pelas pessoas em seus carros buzinando e acenando. Há um clima de harmonia no ar, o dia realmente está especial. Sigo caminhando pela cidade, uma cidade maior do que eu esperava, com prédios altos e longas avenidas. Porém, o Caminho de Santiago sempre me leva para os cantos mais interessantes das localidades, becos escondidos, ladeiras que vão dar em igrejas e monumentos e vistas deslumbrantes. Seguir as setas amarelas é como seguir caminhos para tesouros escondidos…

Fico quase uma hora atravessando São João da Madeira, mas enfim o Caminho me leva para fora da cidade por um trecho bonito de chão de pedras e um campo com ovelhas à esquerda. Porém logo volto para o asfalto e adentro a localidade de Arrifana, após ter passado por Escapães, onde duas coisas curiosas chamam a minha atenção. Primeiro, uma seta acaba me confundindo e eu sigo reto, um pouco perdido em meus pensamentos e reflexões, quando escuto gritos em minha direção vindo de uma sacada de sua casa, bem lá atrás: “Vai para Santiago?”, eu digo que sim e ela diz que tenho que voltar, que o caminho certo era subindo à direita. “Olha as setas indicando”, ela complementa, e realmente havia antes setas que passaram despercebidas por mim. Eu a agradeço e não tenho como não pensar comigo se não seria mais um anjo colocado em meu caminho. A outra coisa que me chamou a atenção foram duas senhoras lavando roupa em um tanque comunitário, como acontecia até a metade do século passado, como me contou uma vez uma senhora em Setúbal.

Em Arrifana, o Caminho de Santiago envereda por um trecho muito parecido com o do dia anterior em Pinheiro da Bemposta, onde novamente tenho uma bela visão do horizonte. Mas este horizonte está muito retilíneo, retilíneo demais, daí olho de novo e percebo que pela primeira vez no Caminho estou olhando para o mar! Fico emocionado, o visual é lindíssimo, tenho que parar e absorver aquele momento único. Após alguns minutos, desço por uma ladeira, uma grande descida que vai dar em um bosque lindo com um grande muro cinza à direita; mas o que vejo na fronteira entre o asfalto e o belo caminho de pedras mexe muito comigo. Um grande caminhão está parado ali, porém é a frase nele que parece falar comigo: Unexpected Harmony é o slogan do veículo. É exatamente o que sinto, uma harmonia inesperada com a vida, com o universo, com a maravilhosa experiência da transformação, da libertação. Sigo muito animado pelo bosque, chego a pensar em ir direto a Porto, mas desisto logo da ideia, pois aprendi a lição do dia anterior.

Em falar em lição do dia anterior, eu havia dito que não comeria mais comida na hora do almoço, porém hoje um lugar “me chamou” e eu fui compelido a comer um prato econômico, praticamente no mesmo esquema de ontem, com a diferença que o de hoje tinha a sobremesa incluída, pelo mesmo preço de 5 euros. Quando digo que fui compelido, é como se a minha mente dissesse uma coisa e o meu corpo dissesse outra, e eu resolvi seguir o pedido do corpo. Uma coisa que li bastante sobre o Caminho de Santiago, que serve para qualquer longa jornada semelhante, é que temos que aprender a “ouvir” o nosso corpo. Esta foi a grande lição de hoje, uma lição que aprendi bem, pois correu tudo bem depois do almoço.

Cheguei em Lourosa um pouco depois do almoço, às 14:30h, foram 25 km de caminhada em seis horas, meu melhor desempenho até agora. Consegui alojamento nos Bombeiros, visitei a Casa da Cultura e a Biblioteca da cidade, além do Parque da Cidade. Agora escrevo de um Café, onde presenciei há pouco uma das cenas mais lindas que já vi em toda minha vida, um pôr do sol incrível, simplesmente fantástico! Como Lourosa é no alto de uma colina e um pouco afastada do oceano, a visão foi coisa de cinema: o Sol ia se aproximando do mar e ficando cada vez maior para dar o seu “mergulho” nas águas, e ao tocar o horizonte, a grande bola de fogo foi ficando meio quadrada, mais ou menos como aquela imagem do Sol no Enduro, famoso jogo de corrida de carros do Atari, o playstation dos anos 80. E para completar, havia uma árvore meio torta bem na direção do Astro-Rei, uma câmera com um bom zoom tiraria uma foto única!

Assim foi este 12º dia de Caminho de Santiago, um dia de verdade!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s