Diário de uma Transformação

Dia 11 – 20 de outubro de 2015 – Um amigo no Caminho

Esta noite eu acordei em torno de três da manhã, após um sonho muito vívido. O sonho me deixou um pouco desnorteado, tanto que pensei que já era perto das seis e comecei a “levantar acampamento”, mas quando fui escovar os dentes para ir embora, escuto o sino da igreja tocando quatro vezes. Quatro da manhã! Mudança de planos, troco novamente de roupa e tento dormir de novo, levantando novamente uma meia hora depois das seis badaladas do sino.

Saio às sete e meia, o dia ainda amanhecendo, tomo um café e como um pão na padaria em frente aos bombeiros, pois o meu café da manhã oficial tinha sido às três e pouco da madrugada. Inicio minha caminhada pelas ruas de Águeda, uma das cidades mais interessantes por que passei até agora. O Sol vai nascendo por detrás das montanhas, o espetáculo é bonito, majestoso, uma explosão de cores lindas anunciando a chegada do astro-rei para iluminar mais um dia para nós! Sinto-me abençoado por ser testemunha de tão bela cena, agraciado por já estar caminhando bem cedinho, por começar o dia junto com o dia…

Chego tranquilamente em Mourisca, a primeira localidade após Águeda, e avisto um banco em frente à uma capela recuada, onde vou dar mais uma descansada. Após descansar uns minutos, volto ao Caminho de Santiago, que nesse momento e durante bastante tempo deu-se pela Estrada Real, quando ouço uma voz ao longe, como que me chamando. É o meu amigo francês, o peregrino que eu tinha conhecido no dia anterior. Enfim, após 10 dias caminhando solitário, agora tenho companhia, companhia que durou até quase metade de toda a caminhada de hoje. Conversamos muito, havia afinidade em ideias e pensamentos, como eu havia desconfiado que seria quando o conheci e trocamos poucas palavras. De vez em quando parávamos para ele tirar algumas fotos, em uma dessas paradas aproveitei e contei a minha opção de não levar nada eletrônico, quando ele me perguntou se era algo filosófico ou ideológico – respondi que sim e ele só disse Uau, um tanto admirado, positivamente admirado. Fiquei feliz com a reação dele, pois mostrava respeito, e é muito bacana conseguir surpreender alguém com quase 70 anos e com muita bagagem e inteligência. Sim, ele me contou que ia fazer setenta, aí foi a minha vez de mostrar respeito e admiração, e mais ainda, felicidade e gratidão por ter ao meu lado uma pessoa especial para compartilhar os ensinamentos do Caminho.

Em certo momento, quando atingimos um descampado bonito que rodeava uma ponte romana de pedra, paramos em uma bifurcação e ele ficou em dúvida de que direção seguir. Eu rapidamente digo que é para a esquerda, meu amigo pega o seu guia e procura uma solução, e nesse momento eu falo para ele que a minha intuição diz que é para a esquerda, contando ainda que um dos motivos de eu não ter levado nada que pudesse me servir de guia era justamente pra “treinar” a minha intuição, e que isso tem dado muito certo. Sendo assim, ele resolve me seguir, e momentos depois surge uma seta amarela, confirmando que minha intuição estava correta. Digo a meu amigo que a intuição é a Voz de Deus nos ajudando e ele acena com a cabeça positivamente. Após subir uma ladeira considerável (foram muitas hoje!), avistamos umas mesas e bancos de pedra em um gramado (ou relvado, como é chamado em Portugal) e decidimos parar e descansar um pouco, aproveitando também para comer algo a fim de reforçar as energias. Ah, um pouco antes ele perguntou se podia tirar uma foto minha, assim que confirmamos que havíamos pegado a direção certa, e acontece então a minha primeira foto oficial como peregrino no Caminho de Santiago!

Enquanto comíamos, Francis (enfim descubro o nome dele, rs) avista outro peregrino vindo na direção contrária e levanta-se para ir cumprimentá-lo, e eu o acompanho. O peregrino aparenta ter uns quarenta e tantos anos e descobrimos que ele também é francês, dá-se início então a uma conversa acalorada na língua nativa deles. Francis teve a delicadeza de interromper a conversa e perguntar se eu queria que ele traduzisse (eu e Francis conversávamos em espanhol), mas eu disse que não precisava, que tinha ficado um mês na França este ano e que entendia mais ou menos o que eles falavam – entendia, só não peçam para formar frases em francês, ainda não cheguei neste nível, rs. Descobrimos que o simpático peregrino havia saído de sua casa em Paris em abril, ou seja, estava peregrinando  há seis meses! Ele queria ir até Lisboa, passando por Fátima. Até agora, acho que sou o único peregrino que atravessa Portugal e sem passar por Fátima.

Passamos por Serém e enfim adentramos um bosque, onde trocamos ótimas ideias filosóficas e existenciais, papos sobre relacionamentos, família, política e a situação dos imigrantes vindo do Oriente Médio, que é uma situação que está mexendo fortemente com toda a Europa. Em determinado momento nos separamos, afinal são 30 anos de diferença e os ritmos de caminhada nem sempre são iguais, mas nos encontramos depois lá na frente, onde ele diz que vai passar a noite. Temendo não encontrá-lo mais, pois eu ia prosseguir viagem, pego todos os contatos dele, até porque o outro peregrino francês havia tirado uma foto nossa, e eu queria essa foto pra mim também, pois Francis é uma pessoa especial que surgiu no meu caminho no Caminho. Eu já tinha dado o meu cartão pra ele, mas não custava garantir…

Enquanto esperava Francis aparecer, eu havia perguntado em um restaurante onde ficavam a Câmara Municipal e a GNR, e percebi que ali tinha um almoço interessante por 5 euros. Mas após anotar os contatos de Francis, me despeço dele e resolvo seguir adiante, porém depois de caminhar uns 200 metros, dou falta do meu cajado, que eu tinha deixado encostado na mureta do restaurante, do lado de fora. Bom, parece que realmente era para eu almoçar lá, penso eu, e assim volto para recuperar meu cajado e comer um prato de comida na hora do almoço, após dias e dias comendo sandes. Peço um peixe ao forno, que vem acompanhado de sopa, bebida (vinho) e um belo cesto de pães, donde levo alguns para o café da manhã do dia seguinte. O almoço estava maravilhoso, tudo muito bem servido, porém me arrependo amargamente depois, pois fiquei muito pesado e a segunda metade do dia acabou não sendo tão bacana assim – ainda na penúltima localidade antes do destino final eu já estava muito cansado, o corpo pedindo arrego. Mas no meio do caminho, uma injeção de ânimo: vejo a concha-símbolo do Caminho de Santiago informando que eu atravessava o km 300, ou seja, metade do Caminho havia sido percorrido!

A penúltima localidade do dia foi Pinheiro da Bemposta, um lugar que a princípio não me dizia nada, mas que acabou surpreendendo bastante. Avisto um banco de praça depois de ter percorrido boa parte da cidade, que era bem maior do que eu imaginava; os bancos são sempre uma boa oportunidade para descansar, pois não é em toda parada que sento e descanso as pernas. Prossigo e mais uma ladeira surge em meu caminho, mas era por uma boa causa, pois ela me levou ao centro histórico de Pinheiro da Bemposta, que ficava no alto da cidade e tinha uma vista panorâmica deslumbrante para uma linda planície em volta de um rio.

Agora só faltava Oliveira de Azeméis, o destino final do 11º dia de Caminho de Santiago, porém este destino final não chegava nunca. O ombro esquerdo dava sinais de fadiga, assim como os pés, especialmente o pé direito que está com uma super bolha perto do calcanhar. Decido que não farei mais isso, caminhar 40 km em um só dia, esta era a última vez – já havia recuperado os dois dias que fiquei em Lisboa, estava de bom tamanho. Na verdade, resolvi fazê-lo porque nas contas do guia do Francis a distância entre Águeda e Oliveira de Azeméis era de 32 km, mas no meu dava 40 km. E como eu já tinha feito 40 km no domingo e saído no mesmo horário que hoje e chegando no destino final na mesma hora, por volta das 19h, tinha certeza que os meus cálculos eram mais confiáveis, rs.

Oliveira de Azeméis foi a “batalha final”, ladeiras intermináveis e muito íngremes, a cidade ficava no alto de uma colina. O corpo não aguentava mais, mas eu seguia em frente determinado, agora faltava bem pouco. Enfim chego nos bombeiros, mas está tudo fechado e apagado, o que acho muito estranho. Um senhor num bar do outro lado da rua percebe minha presença e me chama, fazendo a gentileza de ligar pra um dos bombeiros e marca de ele vir abrir o alojamento do agrupamento pra mim. Coisas que acontecem no Caminho… Depois de esperar um bocado o rapaz chegar, ele me mostra as dependências do lugar e me cobra 5 euros pela estadia, o que não acontecia desde a zona metropolitana de Lisboa. Mas tudo bem, o importante era estar aqui, são e salvo e agradecendo por mais um dia percorrido no Caminho de Santiago!

Até a próxima!

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