Diário de uma Transformação

Dia 10 – 19 de outubro de 2015 – Liberdade é a palavra, liberdade é o sentimento

Esta noite dormi melhor que a anterior, mais ainda não foi uma noite ideal, alguns sonhos e pensamentos tortos voltaram a atacar, porém nada muito grave. Levanto-me e decido que mais tarde farei o que há algum tempo venho planejando, que é fazer alongamento e meditação antes de deitar. Tenho certeza que vai dar certo.

O dia simplesmente estava perfeito quando comecei a caminhar, céu azul, sol, e um maravilhoso frescor da manhã. Comecei o Caminho hoje no mesmo horário habitual, perto das 8h30, e o início da jornada foi ótimo, praticamente todo em uma trilha no meio do campo. Cantar e agradecer pelo início do dia foi quase que automático, a atmosfera estava mais que propícia para um dia feliz e produtivo, e as previsões se confirmaram durante todo o caminho. Logo após as primeiras centenas de metros percorridos, surge um painel em uma bifurcação indicando que eu atravessava agora a fronteira entre os municípios de Mealhada e Anadia, tudo isso no meio do mato.

Fiquei grande parte do dia atravessando o município de Anadia, passando de freguesia em freguesia, até que de repente descubro que já estou entrando em Avelãs do Caminho, a penúltima localidade a ser percorrida hoje, e enquanto estou sentado, descansando e escrevendo, descubro através de um senhor que estava passando que ainda são 11h20. Uau, estou realmente em um ritmo incrível, isso sem correr, apenas concentrado e em frente, sempre em frente. Agora escrevo um possível repertório de um show, mesclando canções novas com outras dos discos anteriores. Não sei porque esta questão musical está surgindo tanto, talvez seja a minha essência renascendo, e parece que a minha essência é um tanto musical, rs. A vontade de voltar aos palcos é grande, assim como a vontade e intenção de contactar algumas pessoas-chave quando chegar no Rio de Janeiro.

Caminho mais um trecho, depois de ter cantado pelo trajeto todo o setlist que havia montado momentos antes, e acabo chegando em Aguada de Baixo. Vejo um Café e resolvo entrar, vejo a hora e são 12h30, hoje vou bater o meu recorde, penso eu, vou percorrer 31 km e chegar antes das 16h no destino final. Estou pedindo um sande de queijo quando de repente alguém se dirige a mim: “Peregrino?”, ele pergunta. Era um senhor de barba grande e grisalha, também percorrendo o Caminho de Santiago a partir de Lisboa. Trocamos alguma palavras e descubro que ele é francês, conto a ele que fiquei um mês na França e gostei muito de lá. O senhor segue viagem e eu começo a “almoçar”, dessa vez acompanhado de uma cerveja, pois o sol estava quente, apesar de não estar muito calor. Como bem devagar, afinal tenho bastante tempo sobrando, e quando dá 13h eu volto para o Caminho, lentamente, passo a passo, sorriso em sorriso de gratidão…

Saindo de Aguada de Baixo, o Caminho de Santiago agora é todo pelo asfalto até chegar em Águeda, com um raro momento entre eucaliptos. Passo por uma grande zona industrial, que para os olhos deste que vos escreve jamais será uma bela visão. Uma placa diz que faltam 3,8 km para Águeda, está pertinho, e nesse momento lembro de uma informação na parede do albergue em Mealhada que dizia que faltavam 342 km para Santiago de Compostela, ou seja, estou bem perto da metade do caminho, o que me dá certo ânimo para percorrer o trecho final do dia, que é sempre o trecho mais difícil. Consigo umas uvas no caminho, as uvas mais deliciosas que comi até hoje! Agradeço por esta dádiva e pouco depois estou descendo uma ladeira um tanto íngreme, a ladeira que me fez adentrar Águeda. Cheguei enfim, ainda com o sol lá em cima, ao contrário do dia anterior. São as curiosidades do Caminho, ou melhor, o equilíbrio almejado por quem passa pela fantástica experiência de percorrer o Caminho de Santiago.

Águeda merece um ou dois parágrafos exclusivos. Consigo um lugar para passar a noite nos bombeiros voluntários, depois de duas noites seguidas em albergues, que me custaram preciosos 18 euros do meu curto orçamento financeiro. Tomo meu (segundo) banho e vou à biblioteca municipal para checar meus e-mails, e felizmente ela fica praticamente em frente aos bombeiros. Tudo dando muito certo, gratidão novamente, paz de espírito, a felicidade da conquista. Saindo da biblioteca resolvo dar uma volta pela cidade, resolvo “me perder” em Águeda, sem compromisso, sem seguir setas, sem tênis e sem o mochilão nas costas. Liberdade é a palavra, liberdade é o sentimento. Para a minha felicidade, descubro que a cidade é bem artística, há esculturas pelas calçadas, pinturas e dizeres pelos bancos de praças e em alguns postes e monumentos, realmente interessante para esta alma artista que escreve este relato. “Não tenhamos pressa, mas não percamos tempo” foram os dizeres que mais me chamam a atenção. Equilíbrio, enfim…

Visito o Parque Alta Vila, que foi uma das melhores coisas que fiz até agora. Logo ao chegar, um espaço com altíssimas e belas árvores ao redor “me chama”, e obviamente vou ao seu encontro. E não me arrependo, pois acontecia uma das sinfonias mais bonitas que já ouvi, era como se estivessem reunidos os mais belos cantos de pássaros em um só lugar, com a diferença que eles não estavam em gaiolas, estavam livres! Eu procurava os “grandes compositores” nas árvores, mas eles estavam bem escondidos, como se enviassem uma mensagem velada, do tipo “Não é preciso ver, basta ouvir e sentir”. Sendo assim, fecho os olhos e deixo a música entrar, e foi uma das sensações mais incríveis que já vivi! Depois deste momento mágico, dei uma boa volta pelo local, um lugar que remetia a séculos atrás, havia vários círculos de pedra, era místico, misterioso, quando avisto uma capela com a cruz templária. Realmente havia algo de especial naquele lugar.

Após o parque, dou de cara com o cemitério municipal e resolvo entrar. Sempre acho interessante visitar os cemitérios, pois além de estátuas e outras obras de arte a céu aberto, este locais nos mostram o quão mortais e finitos somos, apesar de geralmente agirmos como imortais. Se tivéssemos mais noção de nossa mortalidade, talvez não perdêssemos tanto tempo cultivando mágoas e outros ressentimentos, alimentando intrigas, prolongando brigas. Por muito tempo fui criticado (e ainda sou até hoje) por “passar muito rápido” pelas brigas e confusões, por apagar muito rápido as coisas e seguir em frente, como se houvesse um tempo oficial ou padrão para se manter uma briga ou se curar de uma mágoa. Desculpe, mas eu tenho noção da minha mortalidade, apesar de acreditar na eternidade. Mas o principal é: se eu posso sanar ou remediar algo, por que prolongar uma dor ou não curar logo uma ferida?

Ainda quando estava na entrada da cidade, escuto alguém me direcionando a voz, é o meu amigo peregrino, que acabava de sair de um restaurante. Trocamos mais algumas palavras, ele descobre que sou escritor e músico e se empolga, e curiosamente ele diz que também vai cantando pelo Caminho, e nesse momento combinamos que na próxima vez que nos encontrarmos, vamos mostrar umas canções um para o outro. Há uma afinidade entre nós, ainda mais depois de ele me falar que era professor e dava aula para pessoas com necessidades especiais.

Por fim, janto no Restaurante Ribeirinho, donde escrevo este relato e faço questão de divulgar o local pela generosidade da sopa e do vinho, tudo muito bem servido e por um preço simbólico. Agora é dormir e descansar, porque amanhã tem mais um dia de caminhada e experiências no excepcional Caminho de Santiago!

 

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