Diário de uma Transformação

Dia 9 – 18 de outubro de 2015 – Quando estamos determinados, os milagres acontecem

Ontem o Festival de Sopas foi uma experiência muito interessante. Quando eu viajava com a família, sempre dizíamos que éramos como peregrinos, e não como turistas, pois gostávamos de vivenciar a cena local, de conversar com os moradores, de participar de suas vidas de alguma forma. E ontem foi assim, troquei algumas palavras com as pessoas, estava um clima amistoso, por cerca de pouco mais de uma hora eu fiz parte daquela comunidade. Ah, e as sopas estavam maravilhosas, com exceção de uma que me arrependo bastante de ter provado, a tal sopa de pedra. Eu já não havia gostado muito do nome, me remetia a algo pesado, mas como tinha muita gente pegando, acabei experimentando também. De longe eu percebi que levava feijão, mas de perto eu vi que era praticamente uma sopa de feijoada, cheia de pedaços de porco, o que me saiu muito caro durante a noite. Por causa desta sopa eu não dormi bem, acordei duas vezes no meio da madrugada e memórias e lembranças me atacaram impiedosamente, o que me deixou um pouco triste ao amanhecer.

Saí mais cedo que o normal, eram 07h30, eu sei porque havia relógio no albergue. Ainda estava um pouco escuro e chovia bastante, mas não desanimei, a chuva lavava minha alma e mandava a tristeza embora. Sei que estes momentos lamentosos ainda persistirão por algum tempo, tudo é muito recente ainda, mas estou satisfeito com a minha evolução, cada dia que passa estou mais forte, mais inteiro. O Caminho felizmente está indo pelo asfalto, imagino que naquele momento uma trilha de terra não seria nada interessante. É bem cedo, é domingo, ou seja, nenhuma alma viva nas ruas, e assim vou caminhando e cantando baixinho e agradecendo por estar vivo, cada vez mais vivo. Paro algumas vezes para descansar, são muitos sobes e desces de ladeiras um tanto íngremes, mas a paisagem quase não muda, uma paisagem mais urbana que o normal, pois Coimbra se aproxima, são apenas 13 km de desde Cernache, de onde saí hoje.

Chego em Cruz dos Morouços, uma freguesia que já faz parte do subúrbio de Coimbra, e de um ponto alto avisto ao longe a cidade, “deve ser ali”, penso. Ando mais um pouco, atravesso uma ponte por cima da autoestrada que vai para Porto, vejo uma placa informando que já se vão 185 km desde Lisboa e mais adiante vejo outra dizendo que faltam 121 km até Porto. Estou mais pra lá do que pra cá, brinco comigo. Uma coisa que estou aprendendo fazendo o Caminho de Santiago é brincar mais comigo mesmo, a rir de minhas mancadas e vacilos. Já tinha lido sobre o assunto, de como isso é importante, e agora sinto na pele a eficiência desse comportamento, pois ficamos mais leves, mais descontraídos, mais agradecidos. Na verdade, a vida se torna o que nós queremos que ela se torne: se há mais predisposição para o negativo, a vida será pesada, sombria; se resolvemos ter uma atitude mais positiva diante da vida, ela será linda e leve, e os milagres e vitórias certamente se farão presentes.

Agora estou pertinho, atravesso a freguesia de Santa Clara, e de repente uma visão deslumbrante, Coimbra lá embaixo, uma das paisagens mais bonitas da viagem até agora. Fico bastante empolgado, sempre quis conhecer esta cidade, pena que chove tanto. Enfim, chego na Ponte de Santa Clara e passo por cima do Rio Mondego, uma visão linda que me fez lembrar outras cidades europeias que conheci, que também possuem um grande rio as cortando, como Zurique e Paris –tenho imediatamente a impressão que Coimbra é a “cidade mais europeia de Portugal” e me apaixono completamente. Paro em uma padaria para tomar um café, e peço o melhor pastel de nata que já comi na vida, simplesmente maravilhoso! Resolvo provar também o famosos pastel de santa clara, igualmente delicioso. Anote aí, o nome do local é Pastelaria Briosa, logo depois da Ponte de Santa Clara, vale a pena a visita.

Saio um tanto renovado da pastelaria e agora caminho pelas belas ruas da cidade universitária, seguindo as setas amarelas, mas em determinado momento pressinto que elas não me levarão aos lugares que quero conhecer em Coimbra, e mais tarde vou confirmar que meu pressentimento estava correto. Um dos grandes motivos de realizar esta experiência do Caminho de Santiago é poder “treinar” minha intuição, por isso não trouxe nada comigo, sequer um relógio ou bússola, quem dirá um celular ou GPS. E felizmente está funcionando, a minha intuição está cada vez mais forte e certeira! Dizem que a intuição é a voz de Deus, e eu quero mais e mais que Deus se manifeste em minha vida, a intenção é ser cada vez mais “vazio” para que Ele possa me preencher e assim agir através de mim. E eu já posso dizer uma coisa, esvaziar o ego é uma das coisas mais maravilhosas que podemos fazer, pois tudo fica mais natural e não há espaço para coisas pequenas, como cultivar mágoas e qualquer outro tipo de ressentimento. Quando menor o ego, maior nos tornamos, mais perto da Fonte ficamos, maior a possibilidade de matarmos a nossa sede…

Volta a chover forte e entro em uma igreja, e descubro que é a Sé Velha, um dos símbolos da cidade. É uma igreja realmente muito bonita, construída no século XII, com pinturas estonteantes nas paredes e esculturas e estátuas magníficas, tudo muito rico em detalhes. Após um tempo, subo escadas acima, a chuva aumenta ainda mais, quero achar um museu ou monumento que eu possa visitar. Passo pela Universidade de Coimbra, que eu quero tanto conhecer, mas o acesso é pago e o meu orçamento financeiro está bem curto. porém, o rapaz da recepção me indica o Museu Nacional Machado de Castro, mas me informa de antemão que os museus só são gratuitos no primeiro domingo de cada mês. Mesmo assim resolvo visitar o local, nem que seja para dar uma vista de olhos, como eles dizem por aqui. Por sorte, começaria uma visita guiada gratuita pelo museu justamente na hora que estou chegando lá, às 11 da manhã. Perfeito, penso eu, pois além de conhecer o museu, passaria o tempo na esperança da chuva diminuir e eu poder seguir viagem.

Conheço o museu sem pressa, aproveitando todos os momentos. Entretanto, a chuva não para, pelo contrário, agora cai um dilúvio, a cidade está toda esbranquiçada, sei porque vejo a cena da janela do restaurante acoplado ao museu, onde resolvo parar e comer o meu almoço. Peço um sande de queijo e uma taça de vinho, e o sanduíche é fantástico, vem com rúcula, alface, tomate, ovo e outras coisas, tudo praticamente pelo mesmo preço dos anteriores que comi em outras cidades e que só levavam manteiga e queijo. Fiquei um tempo pensando se seguia viagem ou não, pois chovia muito e eu a princípio tinha me programado para pernoitar em Coimbra mesmo. Mas havia ainda um dia inteiro pela frente… Pego meu caderno então e pesquiso minhas anotações, vejo que além dos 13 km entre Cernache e Coimbra, eu teria que percorrer mais 26 km até Mealhada, o destino final da próxima etapa, ou seja, seriam 39 km, será que eu conseguiria? Olhei para o relógio da igreja, ainda eram 13h15, fiz meus cálculos e cheguei à conclusão que no fim da tarde, no mais tardar às 19h eu estaria chegando em Mealhada. Resolvi então que ia seguir em frente mesmo com chuva, e minutos após de eu ter tomado esta decisão, o que parecia impossível ou improvável aconteceu, a chuva simplesmente parou, assim, do nada. Um forte de sentimento de gratidão tomou conta de todo o meu ser e um largo sorriso aflorou em meu rosto, do tipo “Quando estamos determinados, os milagres acontecem…”

O Caminho de Santiago até Mealhada foi simplesmente fantástico, especialmente após Sargento-Mor, quando o Caminho adentrou a floresta. Nem as gigantes poças de água e lama atrapalharam, eu cantava, cantava alto, cantava feliz da vida, quase podia flutuar pelo caminho. Não havia cansaço, não havia mais dores, não havia mais o impossível, havia plenitude, paz de espírito, amor, um amor maior do que tudo, amor à vida, amor à experiência de estar vivo. E assim o tempo passou sem castigar o corpo e  mente, e assim “velejava” com o espírito livre pela floresta, e assim cheguei são e salvo em Mealhada. Não consegui pernoitar nos bombeiros voluntários, estranhamente eles não estavam recebendo pessoas para passar a noite, mas consegui outro albergue oficial do Caminho de Santiago.

Até a próxima!

 

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