Diário de uma Transformação

Dia 8 – 17 de outubro de 2015 – Aceitação, gratidão, o coração bate mais tranquilo 

Assim que cheguei em Alvorge, um senhor bem na entrada da cidade perguntou se eu tinha onde ficar, fazendo propaganda de um albergue local, e eu logo disse que estava pernoitando nos bombeiros das localidades. O senhor continuou insistindo, parecia estar um pouco bêbado, e me levou para um Café, dizendo que o albergue era gratuito e que o dono do estabelecimento onde estávamos era o responsável pelas hospedagens – o insistente senhor ainda tentava me convencer contando que lá havia duas estrangeiras muito bonitas, mal sabendo que a última coisa que eu queria no mundo naquele momento da minha vida era me relacionar com alguém, rs. Enfim, conheci o responsável pelo albergue, que me indicou a direção a tomar e confirmou que a estadia era gratuita (só recebia donativo, caso a pessoa quisesse contribuir), pois o albergue pertencia à paroquia local.

Chegando no albergue, conheci as simpáticas meninas da República Tcheca, que haviam feito o Caminho de Santiago saindo dos Pirineus e atravessando à Espanha rumo a Santiago de Compostela – Caminho Francês, o mais famoso – e agora realizavam a peregrinação até Fátima. Porém, mal conversamos direito (conversa em inglês, é claro), elas tomaram banho e saíram, depois foi a minha vez, um bom banho e sair para comer alguma coisa lá no Café onde as encontrei de novo, desta vez penduradas em seus telefones celulares – a cena foi tão chocante pra mim que fui sentar em outra mesa, elas realmente estavam mergulhadas no mundo virtual, nem trocavam palavras uma com a outra. Achei a cena curiosa, tendo em vista que elas faziam uma peregrinação, mas também não estou aqui para julgar ninguém, cada um com seu cada um. Pedi algo para comer, a princípio uma omelete com salada, mas como ele já havia preparado o mesmo para as meninas tchecas, o moço não sabia se haveria ovos o suficiente e perguntou se podia trazer carne, no que eu acabei aceitando, abrindo uma exceção da minha dieta quase vegetariana; só não deixei de comer peixe e frutos do mar. Aí o rapaz me traz carne de porco, logo carne de porco! Mas sobrevivi, e até que estava gostoso, rs.

Após uma ótima noite de sono e de ter tomado o meu café da manhã e feito a barba, deixei o excelente albergue para trás, ainda com as minhas companheiras de estadia dormindo; na noite anterior eu nem as vi chegar, de tão cansado que estava, mas deixei um bilhete para elas desejando uma boa jornada. Alonguei-me do lado de fora, o clima estava perfeito, vento gostoso e nuvens no céu, o que me deixou bastante animado, estava pressentindo que o dia hoje seria maravilhoso. Ando um pouco e o Caminho logo se transforma em uma trilha, porém uns 300 metros depois começa a pingar, mas por sorte era só uma nuvem passageira, nada de mais.  Eu caminhava sem pressa, pois hoje sim seriam aproximadamente 24 km a serem percorridos, bem mais tranquilo que os 32 km de ontem. Uma paz de espírito maravilhosa invadia o um ser, enquanto agora eu percorria um caminho a céu aberto dentre belas montanhas. Penso na vida, no que está por vir, ideias vão e vêm, o coração bate mais tranquilo e calmo. Aceitação era a palavra de ordem, que fosse feita a vontade de Deus, o que Ele determinasse em minha vida eu aceitaria de bom grado, continuava fazendo a minha parte, o que cabia a mim. E gratidão, cada vez mais o sentimento de gratidão é mais vivo e intenso em mim…

Chego a Rabaçal duas horas depois de ter saído de Alvorge, foi um longo caminho dentre belíssimas e inspiradoras paisagens. E claro, não tive como não cantar algumas canções durante o percurso, que tem sido a minha maior forma de agradecimento por estar vivenciando esta experiência. É interessante isso, pois até sinto os sinais de que é hora de cantar: por exemplo, quando os insetos, especialmente as moscas, começam a perturbar, eu sei que é hora do show, e é impressionante como automaticamente elas param de incomodar, como se estivessem realmente pedindo para eu cantar. Pra mim nunca foi tão verdadeiro o ditado que diz Quem canta os males espanta.

O vento fica mais forte no caminho entre Rabaçal e Zambujal, e eu simplesmente adoro o vento, é o meu elemento em ação, acho que todo aquariano deve ter certa paixão pelo ar em movimento. Porém, o vento trazia consigo algumas nuvens carregadas, imaginei que em pouco tempo eu teria que tirar do mochilão a capa de chuva que estava até esquecida, após tantos dias seguidos de sol. Não deu outra, assim que cheguei a Fonte Coberta, um pouco depois de Zambujal, começou a chover e eu e meu mochilão já estávamos dentro da enorme e eficiente capa de chuva. Como eu já vinha cantando pelo caminho, agora estava cantando na chuva, como no filme, canto todo um disco inédito que já tinha pronto em minha cabeça, e isso me deixa bastante empolgado, fazendo planos para o terceiro disco e um retorno triunfal da carreira musical no Brasil. Chovia muito, chuva com vento, eu cantava e agradecia aos céus por aquele momento único…

Um pouco antes de chegar em Conímbriga, a penúltima cidade do dia, outro peregrino também todo encapuzado vem na direção contrária e dá uma parada para falar comigo, perguntando se eu era italiano; já era a terceira vez em uma semana de Caminho de Santiago que perguntavam se eu era italiano. Quando viajei pela Europa no verão foi a mesma coisa, em Paris a primeira palavra que ouvi quando pedi uma informação foi “Italiano?” – acho que se eu fosse viver na Itália, seria confundido tranquilamente como um local, um nativo, rs. Eu e o senhor de seus cinquenta e poucos anos conversamos rapidamente, pois ainda chovia bem, ele era português e fez festa quando eu disse que era brasileiro, o que geralmente acontece por aqui. Conversando há pouco com a pessoa responsável pelo albergue onde estou hospedado hoje, ele eme mostrou o livro de registro e disse que brasileiros fazendo o Caminho de Santiago via Portugal são poucos, tanto que eu era apenas o terceiro que passava por aqui desde abril.

A chuva para um pouco momentos antes de eu adentrar Conímbriga, foi a entrada mais interessante de uma localidade até agora, pois o Caminho de Santiago dá direto em um complexo cultural compreendendo um museu, ruínas rústicas e um restaurante, onde paro para comer, desta vez um delicioso sande de queijo de Rabaçal e uma taça de vinho tinto, o melhor “almoço” até agora. O queijo estava maravilhoso, daqueles amanteigados, e o sanduíche ainda vinha acompanhado de umas batatas tipo chips, e o vinho também estava magnífico! Descubro que só faltam 10 ou 12 km até Cernache e ainda são duas da tarde, ou seja, no máximo até quatro e meia eu estaria terminando a minha jornada de hoje. E foi isso mesmo que aconteceu: depois de caminhadas dentre trilhas e estradas, de tirar e colocar a capa de chuva algumas vezes, de estar cada vez mais “uno” com o meu mochilão e ele não estar pesando mais tanto assim, e de eu estar aprendendo a conviver pacificamente com as bolhas (e elas comigo, rs), chego ao destino final, onde descubro que não há bombeiros voluntários para passar a noite, mas há um albergue oficial do Caminho de Santiago, donde escrevo diretamente da sala de estar do local. O lugar é grande e com toda infra-estrutura, mas hoje parece que será inteiramente meu. Ainda na entrada de Cernache, vi um cartaz que dizia que hoje tem um Festival de Sopas na cidade, tipo um rodízio de sopas por apenas 3 euros, o cartaz dizia Coma o quanto quiser. Estou indo lá conferir, depois conto como foi.

Por último, queria compartilhar com todos a mensagem contida em um quadro aqui na parede do albergue que me pareceu perfeita. Beijo no coração e até a próxima!

SER CAMINHEIRO

É procurar o caminho

É sentir o aconchego do bom dia

É partilha

É ser solidário

É ver o dia nascer bem cedinho

É subir ao cimo do monte e contemplar a criação de Deus

É contemplar uma flor, saltar um riacho

Superar a dor e sentir o calor de um abraço

É o encontro de gerações, povos, nacionalidades e línguas

Todos tão diferentes e iguais

Todos sempre focados no caminho

Ser caminheiro

É mergulhar no seu Ser

Descubrir por que existo

Estar dentro do seu Eu

É felicidade suprema, que só se alcança caminhando

Só se sente vivendo o caminho

Só sabe quem foi, quem o viveu, quem o sentiu

O km zero é conforto e desalento

A felicidade do cheguei

O desalento do acabou

Mas haverá sempre um caminho, porque sempre iremos caminhar até Ti!

Bom caminho!

 

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