Diário de uma Transformação

Dia 7 – 16 de outubro de 2015 – A vida tem que ser leve, a vida tem que ser doce

Hoje acordei bem antes da hora, tomei o café da manhã, acabei de escrever e nada, tudo escuro ainda, nenhum ruído no corpo de bombeiros. Devia ser umas 5 da manhã, portanto decidi tentar dormir mais um pouco. Deu certo, algum tempo depois o dia começou a raiar, fiz meus alongamentos e parti para mais um dia a ser percorrido no Caminho de Santiago.

Cada dia que passa eu acordo com mais energia, e hoje resolvi fazer algo que sempre quis fazer: distribuí sorrisos e “bons dias” para todos, para absolutamente toda e qualquer pessoa que passava por mim, inclusive para aquelas dentro de seus carros. A vida tem que ser leve, e mais ainda, a vida tem que ser doce, foi a conclusão a que cheguei enquanto terminava de comer um pastel de nata em um Café. Este pensamento me impulsionava  de uma forma magnífica, eu queria ser doce com as pessoas, independentemente se elas iriam retribuir de forma doce ou amarga. Estava agindo desinteressadamente, como escrevi em Um Dia de Verdade, sem segundas intenções. E isso foi maravilhoso, tanto para mim quanto para quem recebia o carinho – teve até uma senhora que acenou de volta fervorosamente de dentro de seu carro. A maioria das pessoas acenaram felizes de volta, às vezes só é preciso um “empurrãozinho” para que as pessoas se sintam felizes, pois ainda há muita doçura no ser humano, especialmente nas mulheres…

Eu caminho bem, num ritmo bacana, e logo passo por Laranjeiras e Vendas, estava indo muito bem mesmo, feliz, disposto, empolgado e deveras agradecido por estar ali percorrendo o Caminho. Logo depois de que passei por Vendas, à esquerda surge uma entrada rumo à mata, com uma sinalização um pouco diferente das habituais setas amarelas e conchas-símbolo do Caminho de Santiago. Na hora me deu a impressão que aquele era o caminho a se seguir, que aquela sinalização tinha a ver com o Caminho, por isso parti por aquele percurso, pois na estrada não encontrei nenhuma sinalização oficial por perto. O percurso era bonito e eu ia cantando por ele, quando uma bela árvore e um espaço bom para sentar me chamaram a atenção. Acabei parando ali, sentei e quando dei por mim estava meditando em meio à natureza, sem me importar com o tempo ou o espaço. Estava ali, tocando o intocável, simplesmente sendo. Minutos depois levanto-me adiante, totalmente relaxado e tranquilo, em paz.

Ando mais um pouco e surge novamente o mesmo tipo de sinalização que me levou a pegar aquele caminho, desta vez indicando que eu fizesse uma trilha pela montanha que estava à minha direita; o trajeto que eu estava percorrendo era bem mais largo, dava para passar dois carros lado a lado, agora eu faria uma trilha clássica bem no meio do mato, subindo a montanha. Comecei a subida tranquilamente, até porque tenho certa experiência no assunto. Porém, de nada adiantou toda a minha experiência e vivência nas montanhas quando de repente as sinalizações sumiram, isto com várias alternativas de caminho a serem tomadas em uma trilha mais fechada que o normal. Bom, me perder eu não me perderia, era só tentar voltar, e depois de muito tempo testando diversas opções de rota, enfim encontro novamente a tal sinalização, mas em um lugar diferente pelo qual iniciei a trilha. Ok, resolvo seguir esta sinalização, estava indo bem, agora estava no caminho certo, mas de repente nada de sinalização de novo. Tento seguir meus instintos, mas os caminhos são tortuosos demais, cheios de armadilhas e plantas espinhosas que começam a rasgar a minha calça fina de tactel, e chega um momento em que decido voltar, depois de meu cajado ter me salvado duas vezes de uma queda feia montanha abaixo.

Volto até um trecho sinalizado e resolvo tentar uma última vez, e percebo que o caminho correto estava camuflado por um mato muito alto que cobria a parte que dava para o outro lado do vale. Como eu desconfiava, a continuação do trajeto só podia ser por ali, para o outro lado. Na direção certa, atravessei todo o vale tranquilamente, agora o Caminho estava bem sinalizado, mas alguma coisa não batia bem, eu tinha a impressão de estar indo para o lado contrário, como se estivesse voltando, impressão que se confirmou quando percebi que estava na parte de trás da montanha que beira Alvaiázere, a cidade de onde havia saído. Passo bem perto daquelas estruturas que captam energia eólica, que parecem gigantes cataventos de metal, dava até para ouvir o barulho das hélices girando. Bom, o Caminho se faz caminhando, como diria um amigo meu, agora era continuar seguindo a sinalização e ver até onde isso ia dar…

Agora vou descendo bastante acompanhado de paisagens de tirar o fôlego à minha direita, havia montanhas e vales até onde a vista alcançava, o que já valia a pena estar ali, independentemente se estava na direção certa ou não. Fiquei filosofando sobre isso, e lembrando do episódio na outra montanha não tive como não fazer uma comparação com os últimos acontecimentos em minha vida, que culminaram na separação. Mas continuo adiante, não me deixo abalar, não desanimo, apenas reflito e penso em soluções, penso e sinto a transformação gradativa e diária, afinal de contas é por isso que estou passando por esta experiência única.

Enfim chego na base da montanha e começo a passar por localidades que não estão na minha rota oficial – se fosse só uma ou duas, tudo bem, mas três, quatro, cinco? Realmente tem alguma coisa errada, fora o fato de eu ter perdido a minha garrafa d’água na montanha anterior, provavelmente em uma das “quase quedas” que tive. Agora acabo de passar por uma placa indicando que o nome da localidade é Mata, e uma mulher que está entrando no portão de sua casa me deseja “bom caminho”, e aproveito sua simpatia para pedir um pouco de água e pergunto se há algum lugar para comer por ali. A moça diz que não, que só na cidade que fica uns 4 km à frente, e quando pergunto o nome do lugar, todas as minhas suspeitas se tornam verdade: o nome da cidade era Alvaiázere, ou seja, o lugar onde iniciei a caminhada hoje, eu estava há quase 5 horas dando voltas, praticamente não havia saído do lugar. Bateu um desânimo, mas quando exlipiquei a situação para a mulher que me ouvia, ela me oferece uma carona (boleia, em Portugal) até Alvaiázere, mas no fim ela acaba me deixando no próximo lugar depois de onde me perdi. Mais um anjo que tenho a felicidade de conhecer no Caminho de Santiago…

Daí pra frente percorro feliz e encantado por entre belos caminhos de pedra e terra no meio de vales majestosos, rotas realmente especiais a céu aberto, às vezes alternando um pouco com estradas asfaltadas. Passo em Ancião, onde resolvo comer já pelas 15h30 e visito a biblioteca municipal para checar meus e-mails. Saio da cidade e o Caminho continua belíssimo e inspirador, a mente viajava diante de tanta beleza, passo por muitas oliveiras e azeitonas pelo chão e paisagens com ovelhas e carneiros pastando, além de muros de pedra que circundam a trilha e me levam a um passado distante. Diversas pequenas localidades surgem pelo caminho e no fim da tarde chego a Alvorge, o destino final do sétimo dia percorrendo o Caminho de Santiago. Ah, e a novidade de hoje foi o retorno das setas azuis do Caminho de Fátima, só que desta vez na direção contrária das setas amarelas.

Que venha o oitavo dia , que continue a transformação!

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