Diário de uma Transformação

Dia 6 – 15 de outubro de 2015 – Montanhas, cartas de amor e um novo companheiro

Acordei ainda era de noite, como tem sido de praxe já há algum tempo. Fiz o meu desjejum, arrumei tudo e fui escrever no diário, e quando dei por mim já havia amanhecido. Era hora de fazer meus alongamentos e partir depois de mais uma noite tranquila no alojamento de um quartel de bombeiros voluntários – estou começando a simpatizar com esta entidade, havia até um cartaz lá embaixo com os dizeres “Quer ser um bombeiro voluntário?” e eu até brinquei comigo mesmo me perguntando se eu levava jeito para a coisa, rs.

Desta vez reforcei o café da manhã em uma padaria, aproveitando que Tomar era uma cidade maior em relação às que havia passado antes; além disso, seriam 32 km a se percorrer, o trecho mais longo de todo o Caminho de Santiago até então, juntamente com o percurso entre Azambuja e Santarém. Após o reforço alimentar, saí à procura das setas amarelas, encontrando-as enquanto refazia o caminho que tinha feito entre a GNR e os bombeiros. Dei os primeiros passos mas logo parei para fazer umas comprinhas em um mercado, sabe-se lá quando eu veria um de novo. Agora caminhava comendo uma maçã, prestando atenção nas setas, com certo pressentimento que elas me deixariam na mão de novo. Não deu outra.

Em um determinado momento as setas simplesmente sumiram, evaporaram. Resolvi seguir em frente, pensando comigo que se fosse para mudar a direção, haveria alguma seta indicando. Mas nada, nem sinal das amarelinhas. Pensei em voltar, mas decidi continuar em frente, eu tinha anotado o nome da próxima cidade, e um senhor me explicou que seguindo em frente, depois da segunda rotunda eu teria que virar à esquerda para ir até Casais, o primeiro destino do 6º dia de caminhada. As freguesias iam passando, o que equivalem aos bairros no Brasil, atravessei AlvitoCalçadas e Venda Nova, tudo pela N110, rodovia que havia percorrido no dia anterior em grande parte até chegar a Tomar. A situação me lembrava aquelas grandes avenidas da zona norte e subúrbio do Rio de Janeiro, onde os bairros mudam mas a paisagem continua a mesma, onde não dá para definir direito onde termina uma localidade e onde começa a outra. A sensação ali era a mesma, só mudou quando finalmente eu virei à esquerda em direção a Casais, uma boa descida, diga-se de passagem.

A partir de Casais, o Caminho de Santiago ficou bem interessante, em meio a belas paisagens naturais e montanhosas, com vista para um grande vale, mais ou menos como eu imaginava que seria a maior parte da jornada. Passo por várias cidades-fantasma, não havia uma alma viva pelas ruas, nenhum barulho ou ruído, com exceção de alguns poucos latidos de cachorros. Passam-se Soianda e Calvinos, e de repente o Caminho de Santiago envereda por uma estrada de asfalto em meio a belas árvores. Eu estava com uma energia impressionante, o corpo enfim parecia estar se acostumando com os dias seguidos de longas caminhadas, o ombro esquerdo já não doía mais, o mochilão de quase 10 quilos parecia mais leve, como se fosse apenas uma mochila comum. As ideias vinham à cabeça, diversos planos para o recomeço, as coisas clareavam mais em minha mente, especialmente sobre o que havia acontecido com o meu casamento.

À esquerda agora havia um descampado que revelava um riacho passando entre a estrada e a montanha, eu podia ouvi-lo, e mais à frente tinha uma entradinha que levava até ele, apenas poucos metros. Foi irresistível, era um ótimo lugar para dar uma parada e relaxar um pouco. Vou até a beira do riacho e molho os pulsos, as mãos e o rosto – mergulhar era impossível, pois havia pouquíssima água. Senti-me energizado, muito energizado, e automaticamente viro para trás, na direção de uma linda árvore bem perto do riacho e abro os braços em agradecimento, tentando abraçar aquele momento, e o vento responde tocando carinhosamente todo o meu ser. Realmente um momento ímpar! Sento-me um pouco e como uma barra de cereal, agora já era perto de meio-dia, dava para acompanhar as batidas dos sinos das igrejas ao redor. Era hora de continuar, estava mais que pronto para seguir em frente!

Com toda aquela energia, vou cantando pela estrada, e em certo momento o Caminho de Santiago vira à direita e ruma para o meio da floresta. Perfeito, penso eu, hoje estava realmente perfeito. Sigo por bastante tempo por este caminho de terra e pedras, já não há mais tantas poças e lama, o sol está firme há 3 dias, inclusive hoje foi o dia em que mais suei. Fico cerca de duas horas caminhando no meio do mato, do jeito que eu gosto, e enfim chego a uma saída à esquerda para a localidade de Areias, onde uma senhora havia me dito que eu encontraria almoço. Havia acabado de bater um sino de igreja anunciando que eram duas da tarde, portanto fui procurar um lugar para comer. Tive que andar uns 500 metros para trás, mas tudo bem, era por uma boa causa. Acabei comendo um sande de novo, dessa vez de ovo com queijo, acompanhado de uma boa taça de vinho tinto. A mulher do restaurante falou que faltavam 7 km para Alvaiázere, o destino final do dia, e eu logo calculei que pelo Caminho de Santiago seriam uns 9 ou 10. Mas estava ótimo, não eram nem três da tarde, eu realmente estava caminhando muito bem em relação aos outros dias, porém confesso que achei um pouco estranha esta informação, pois pelo que havia pesquisado seriam 32 km, 10 a menos do que ontem, e entretanto eu poderia chegar até mais cedo que no dia anterior, isso tendo saído no mesmo horário para iniciar a caminhada. Começo a desconfiar um pouco da autenticidade dessas quilometragens que anotei…

Entro pelo mato de novo, não paro de pensar nas cartas que quero mandar para minha filha e para a Grazi, cartas de amor, cartas sinceras, verdadeiras. A verdade fica muito clara quando percorremos o Caminho, e é isso que quero e preciso ser, verdadeiro, apenas verdadeiro, sem segundas intenções, apenas as primeiras, as genuínas. Meu ser está sendo moldado, a metamorfose está ocorrendo gradualmente, há uma transformação evidente em curso, uma transformação que começou antes de iniciar o Caminho de Santiago, no dia em que me libertei verdadeiramente das mágoas e outros ressentimentos, no dia em que roguei a Deus por isso e Ele atendeu prontamente o meu pedido, um dia que jamais esquecerei. Sinto que sou uno com aquilo tudo, que faço parte da natureza, faço parte da mata, faço parte do Todo, que tudo é uma coisa só!

Agora estou novamente em uma estrada de asfalto, uma estrada que me leva a Cortiça e depois a Ourinhos, onde percorro um caminho de pedras tipo paralelepípedos, só que com pedras bastante irregulares; é uma subida sutil, e isso machuca um tanto os meus pés. Nas subidas, que foram muitas hoje, arrumei um macete: seguro firme com as duas mãos na fivela do cinto do mochilão que prende na cintura, e hoje ainda havia conseguido um jeito de ele ficar mais apertado, colocando as mangas do blusão que levo amarrado à cintura por baixo do cinto. O ideal era ter um cajado, eu já tinha tido três até agora, mas não tinha dado muito certo e eu já havia desistido da ideia, mas eis que o Caminho me surpreende mais uma vez e coloca um bem à minha frente, justamente na hora em que dois cachorros saem de um terreno baldio e vêm furiosos em minha direção. Foi tudo muito rápido, eu instintivamente peguei aquele pedaço de madeira no chão e comecei a quebrá-lo, o que assustou e afastou os cães – segundos depois eu estava com um novo cajado nas mãos. E gostei desse, acho que vou carregá-lo comigo até o fim da jornada, até o fim do mundo. Momentos depois eu finalmente em Alvaiázare, bem antes do que eu imaginava.

Em Alvaiázare consigo estadia mais uma vez nos bombeiros voluntários, onde consegui acessar o meu e-mail de lá mesmo e envio as cartas que tanto queria mandar. Depois de um merecido banho, dou uma volta pela cidade, um tanto vazia também, apesar de ser um tanto maior que as cidades-fantasma que mencionei antes. Após jantar uma sopa, finalmente encontro um telefone público funcionando perfeitamente, tento ligar para falar com meus filhos, mas o telefone da mãe está indisponível. Dou mais uma volta e tento de novo, mas realmente não será hoje que vou conseguir falar com eles, fica para outra ocasião.

Até o próximo relato!

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