Diário de uma Transformação

Dia 5 – 14 de outubro de 2015 – A sabedoria do caracol e perder-se para encontrar-se

O dia amanheceu lindo em Golegã, que os portugueses pronunciam Guligã – acho muito curioso como eles trocam o som das letras, mesmo vivendo aqui por quase um ano e meio. Antes de sair da cidade, parei na GNR (Guarda Nacional Republicana) para pegar mais carimbada em minha credencial do peregrino, pois preciso sempre de dois carimbos por dia. Na verdade, isso é um pouco indiferente para mim, o importante é percorrer o Caminho e me redescobrir nele, o resto é o resto, tanto que nem trouxe câmera fotográfica, telefone celular ou qualquer outro tipo de aparelho que pudesse desviar a minha atenção. Preciso de concentração total, é a minha vida que está em jogo, a minha reestruturação, o meu renascimento, a minha transformação.

Pego a estrada de asfalto, a paisagem agora muda, caminho dentre extensos milharais e campos sem nada. Sinto uma energia muito forte, caminho bem, a passos largos, com muita vontade de seguir adiante. Durante o percurso, uma coisa começa a chamar a minha atenção: vejo vários caracóis tentando atravessar a pista, uma pista não tão larga assim para humanos, mas extremamente para lentos caracóis – e surpreendentemente vi alguns bem perto do objetivo final, chegando ao outro lado da pista. Aquilo foi como uma mensagem pra mim, que dizia que por mais difícil ou impossível que algo possa parecer, se é o teu destino, há de se seguir em frente, há de se atravessar o caminho, por mais perigoso que pareça ser. O Caminho de Santiago começava bem cedo suas lições no 5º dia de caminhada.

Chego tranquilamente a São Caetano e sento no banco de uma praça. Assim que me levanto, um senhor que estava em frente à sua casa vem em minha direção e coloca a mão carinhosamente no meu ombro, dizendo que tinha água logo ali à frente e me indicando que direção seguir, uma atitude que achei extremamente gentil. Aquilo me tocou, como outras vezes em que as pessoas passam e acenam, uns gritando Força! ou Boa Viagem!, o que é muito gratificante de ouvir e ver. Por outro lado, outras vezes percebo olhares de desaprovação, e chego a sentir o pensamento de tais pessoas, que provavelmente imaginam que não tenho o que fazer ou que estou “vagabundeando” por aí; mal sabem elas que esta talvez seja a busca mais importante de toda a minha vida, que esta jornada é fundamental para eu me transformar finalmente na pessoa que quero ser, que é uma preparação para o que está por vir…

Depois de passar por Vila Nova da Barquinha, agora estou em Atalaia, onde atravesso toda a cidade, parando para descansar de quando em quando. Hoje o Caminho está diferente, está mais urbano, com distâncias menores entre as localidades. Mas ao sair de Atalaia, o Caminho de Santiago continua por um bosque em meio a grandes árvores de eucalipto. Diminuo o ritmo, aquilo me faz muito bem, e em uma bifurcação a céu aberto resolvo parar um pouco. Converso com Deus, agradeço por estar ali, por estar vivendo essa experiência, penso em meus amados. Ainda tento compreender os últimos acontecimentos em minha vida, mas sinto que as respostas estão chegando, as coisas começam a clarear um pouco mais. Decido continuar e logo após saio do bosque e estou cruzando uma ponte que passa por cima de uma autoestrada.

Paro para descansar mais um pouco, o sol agora está bem forte, deve ser perto do meio-dia. Avisto a seta amarela logo à frente e resolvo seguir adiante, porém esta foi a última seta em um novo caminho entre árvores – as setas haviam sumido e havia diversas bifurcações. Decido ir reto, seguindo a trilha principal, e acabo chegando em uma rodovia movimentada. Olho para os lados, olho para a frente e nada, nenhuma seta amarela. Atravesso a rodovia e procuro por setas do outro lado, mas nenhum sinal delas também. Ok, penso eu, não adianta desesperar-se. Mantenho a calma, analiso a situação e outra lição surge diante de mim: às vezes temos que refazer o caminho – errar enquanto percorremos nosso caminho não quer dizer que nosso caminho está errado, quer dizer que temos que procurar novas maneiras de percorrê-lo. Pra mim isso foi muito importante, pois “me perder” talvez tenha sido a minha salvação…

Depois de testar todas as alternativas, resolvo perguntar a um caminhoneiro onde ficava Grou, a próxima cidade da minha rota, mas ele diz que não conhece. Pego o meu caderno, onde havia anotado o nome de todas as cidades de cada trecho do Caminho, Asseiceira, e ele me indica a direção e  sigo então pela beira da rodovia rumo ao próximo destino. Havia me perdido no Caminho de Santiago e agora fazia o meu próprio caminho, na certeza que reencontraria El Camino logo à frente. Foi uma longa caminhada, mas enfim chego na entrada de Asseceira, onde resolvo trocar a sandália pelo tênis. Eu percorria o Caminho de sandálias pela primeira vez, pois o tênis estava me formando calos – as bolhas eu suportava, mas os calos entre os dedos são insuportáveis. Foi uma boa troca, conseguiu arrumar um jeito de não apertar muito os pés dentro do tênis e pouco depois parava para almoçar. Porém não havia almoço, tem que ser sande de novo, desta vez acompanhado de uma cerveja bem gelada, pois estava muito calor.

Saio do snack bar às 15h15, caminho um pouco e vejo que faltam 7 km para Tomar, o que me animou bastante, pois depois de dois dias seguidos chegando à noite, desta vez eu chegaria ainda de dia no destino final. Tinha que ao menos mandar um e-mail para minha mãe, eu já estava incomunicável há dois dias e ela devia estar muito preocupada. Também tinha que tentar ligar para os meus filhos em Lisboa, havia ficado de ligar no dia anterior, mas não consegui.

Caminho de Santiago agora me retirava da beira da estrada e me presenteava com uma trilha ao lado dos trilhos do trem, um caminho bonito e agradável, e enfim um pouco mais de silêncio. Penso bastante na vida, penso em mandar um e-mail para minha filha, que está um pouco ressentida comigo, preciso tentar explicar melhor a situação para ela, dizer o quanto a amo. Penso também em mandar um e-mail para a mãe dela, pois o Caminho já me fez entender algumas coisas, e gostaria de compartilhar isso com ela. Penso também em meus garotões, meu grandão que em breve irei reencontrar no Brasil, e o meu pequeno, meu “litlle boy”, o qual sinto muita falta, pois sempre fomos muito ligados um com o outro.  É muito difícil administrar isso tudo, é preciso uma força imensa para não cair em desespero ou depressão diante do furacão que devastou tudo. Mas eu havia conhecido o inferno e para lá não voltaria de jeito nenhum, então resolvo seguir em frente de cabeça erguida, coração tranquilo e consciência limpa, pois estou fazendo a minha parte e confio plenamente na providência divina. Sinto que os planos de Deus são ótimos para todos nós!

Saio da trilha e chego em Santa Cita, que fica ao pé de Tomar. Paro em um Café e o dono diz que ainda faltam 3 km para Tomar, e o Caminho de Santiago aponta para a esquerda, enquanto outra placa com o nome da cidade escrito aponta para a direção contrária. Sigo a indicação do Caminho, pois já aprendi a lição que nem sempre o trajeto mais rápido é o ideal. E o Caminho de Santiago me leva por belas paisagens em uma leve subida até o destino final do dia. Enfim chego em Tomar e passo direto na GNR para pegar um carimbo na credencial do peregrino e consigo chegar ainda a tempo na biblioteca municipal da cidade, faltando 10 minutos para ela fechar. Mando um e-mail, respondo outro, e depois vou em direção aos Bombeiros Voluntários, onde passo a noite, depois de dar um passeio pela bela Tomar, com destaque para as calçadas com o símbolo dos cavaleiros templários e o centro histórico da cidade.

Que venha mais um dia, vamos que vamos!

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