Diário de uma Transformação

Dia 4 – 13 de outubro de 2015 – O Sol volta a brilhar

Choveu a noite inteira em Santarém, mas o dia amanheceu com sol, felizmente. Eu acordei com uma energia incrível, era difícil acreditar que eu estava tão bem disposto depois de ter sofrido com tantas dores físicas e tanto desgaste no dia anterior. Mas parece que o Caminho realmente faz milagres, e por isso eu estava ali, pronto para mais um dia de caminhada e aprendizado.

Santarém é uma cidade interessante, agora de dia eu podia desfrutar de toda a sua beleza e histórias, pois quando cheguei ontem já era noite e eu estava muito cansado. Voltei até onde eu me lembrava de ter visto as setas, e no caminho comprei uma maçã e duas bananas e fui comendo a maçã, para completar o meu café da manhã. A maçã caía deliciosamente bem, e o pão que havia comido antes eu tinha guardado da sopa do dia anterior, um ideia que eu vou continuar fazendo, pois deu muito certo. “Deu certo”, é para isto que eu estava ali, para fazer as coisas darem certo de fato, para aprender, para me conhecer melhor e não cometer os mesmos erros de antes…

Enfim retorno ao Caminho de Santiago ainda dentro da cidade e chego a uma parte em que as setas amarelas e azuis finalmente separaram: Fátima é para a esquerda e Santiago é para a direita. Sigo então para a direita, admirando a arquitetura histórica de Santarém. Às vezes eu tinha a nítida impressão que o Caminho dava voltas ao invés de ir pelo trajeto mais curto, mas quem disse que o caminho mais curto ou mais rápido é sempre o mais ideal? Esta era mais uma lição que o Caminho de Santiago me ensinava, que nem sempre mais rápido e imediato é o melhor, pelo contrário, temos que prestar mais atenção em nosso caminho, porque a rapidez e a instantaneidade faz com que façamos as coisas no “piloto automático”, e isso é a pior coisa que pode acontecer, pois aí deixamos de perceber a beleza e a grandiosidade da vida. O Caminho dava voltas, e assim eu podia perceber calmamente toda a beleza que era colocada diante de mim, toda aquela arquitetura maravilhosa, todos os becos históricos, toda a paisagem natural deslumbrante. Agradeci a Deus por aqueles momentos e iniciei uma descida por uma linda trilha, que era a última parte do Caminho de Santiago em Santarém, um percurso simplesmente fantástico!

Outra cidade que ficava aos pés de Santarém era Ribeira de Santarém, passo por ela e logo estou em uma estrada entre plantações de pimentão à direita e vinhedos à esquerda, que foram as paisagens principais deste quarto dia de caminhada. De repente, o Caminho de Santiago me leva para a esquerda, saindo da rodovia e partindo para um caminho de terra em meio aos vinhedos. A chuva havia passado e o Sol brilhava lindamente no céu, mas a terra ainda estava bastante molhada, com poças em alguns lugares e lama em outros, mas a energia que eu sentia era realmente incrível, contagiante! E mais uma vez eu cantei, cantei várias canções, cantei para o mundo inteiro ouvir. Era o melhor trecho de todo o Caminho até agora, eu me sentia bem, me sentia leve, pronto para recomeçar, pronto para reconstruir minha vida. Ainda não compreendia muita coisa que aconteceu recentemente, mas começava a aceitar e querer seguir em frente, a querer renascer. E assim a criança que há em mim ressurgia, eu sapecamente pegava um pimentão ali, uma cacho de uva acolá, um tomate logo adiante. Era muito gostoso poder me alimentar diretamente na fonte, diretamente da terra, uma sensação mágica. Foi um dos percursos mais longos do Caminho de Santiago até então, mas fi-lo com prazer, com vontade, parando quando tinha que parar, sem culpa, sem pressa. Aos poucos ia domando os pensamentos sobre o que passou e ensinava a minha mente a pensar no que estava por vir, a focar na transformação. Acredito que isso vai evoluir gradativamente dia após dia.

Vale da Figueira surgia agora em minha frente, depois de quilômetros e quilômetros de caminhada por entre vinhedos e afins na bonita região do Ribatejo português. Era hora de almoçar, e mais uma vez acabei comendo um sande e e bebi um copo de vinho. “Tudo bem, amanhã eu almoço um prato de comida”, pensei tranquilamente comigo, pois hoje a intenção era novamente percorrer 30 km e chegar em Golegã; no dia seguinte seriam 23 km, chegaria mais cedo no destino final. De Vale da Figueira até Azinhaga foi praticamente a mesma paisagem de antes, mas o corpo agora dava fortes sinais de cansaço, porém não me abati como no dia anterior. Continuava seguindo adiante, caminhando bem devagar quando necessário, o importante era não desistir e seguir em frente. Pensei na minha vida, era exatamente o que eu tinha que fazer: Não desistir e seguir em frente.

Antes de Azinhaga passei por Pombalinho, agora eu caminhava bem lentamente, por causa das dores nos ombros e nos pés. Quando cheguei em Azinhaga tomei um cafezinho, que foi fundamental para recuperar um pouco da minha energia e enfrentar o trecho final até Golegã. O Sol já estava ficando perto do horizonte, uma senhora me disse que ainda faltava sete km até Golegã, sendo que um mapa do Caminho de Santiago que vi à beira da estrada dizia que eram doze, eu torcia para que a senhora estivesse certa. O importante era chegar lá, independente da quilometragem; na verdade, eu procuro evitar saber disso, especialmente em trechos finais.

Agora anoitecia, o Sol já havia ido embora, só me restava seguir em frente pela rodovia, enquanto escurecia rapidamente. E assim foi, tive que tirar a lanterna do mochilão a fim de sinalizar para os carros que eu estava ali, e depois de muitos passos dados e de mais de 30 km percorridos, enfim eu chegava em Golegã. Logo na entrada da cidade havia um restaurante onde eu pedi um prato com ovos e uma espécie de farinha especial, acompanhada de uma cerveja, que pareceram as coisas mais gostosas que eu já tinha comido e bebido em toda a minha vida. O Caminho de Santiago é assim, nos ensina a dar mais valor às coisas, nos ensina a dar mais valor à vida. Novamente dormi nos Bombeiros Voluntários e escrevo agora vendo o Sol nascer, pronto para mais um dia de caminhada!

Vamos que vamos!

 

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