Diário de uma Transformação

Dia 3 – 12 de outubro de 2015 – O dia do retorno

Depois de dois dias em Lisboa, resolvo retornar ao Caminho de Santiago. Eu e Grazi enfim tivemos uma boa conversa, mas a relação amorosa realmente havia chegado ao seu fim. Sendo assim, tomei uma decisão que o Caminho havia “sussurrado” em meus ouvidos, que seria voltar para o Brasil para refazer minha vida. Mas antes, preciso percorrer o Caminho de Santiago por inteiro, preciso renascer completamente, me libertar, seguir em frente com convicção e tranquilidade.

Meu filho Dimi dormiu comigo a noite anterior, o que foi perfeito para me dar forças e energia para retomar o Caminho. Encontramos com a mãe dele cedo e eles aguardaram até o meu trem partir, permitindo assim que eu ficasse com aquela imagem bonita diante de mim até os últimos segundos. O destino do trem era Azambuja, o local onde parei de percorrer o Caminho, seria o meu novo ponto de partida. O ideal é geralmente começar a caminhada por volta de oito ou oito e meia, mas devido às circunstâncias de hoje eu iniciei a jornada às 10h, o que certamente atrasaria o meu planejamento. Mas eu estava feliz de poder recomeçar, de não ter desistido, de estar ali percorrendo novamente o Caminho de Santiago.

Ainda durante os primeiros passos, começou a chover de novo, apesar de o dia ter amanhecido lindo e o Sol ter dado as caras após uma noite de muita chuva. Era hora de colocar a grande capa de chuva, que exige certo malabarismo para ela cobrir tanto eu quanto o meu mochilão. A mochila agora estava um pouco mais leve, algo entre nove e dez quilos, bem melhor do que os cerca de 13 que estava carregando antes. Como o recomendado é carregar entre oito e 10 kg, agora eu estava dentro dos limites…

A chuva aumentava a cada dezena de metros percorridos e trazia consigo outros problemas, como grandes poças de água e lama no caminho. Agora era preciso ter cautela, escorregar poderia ser perigoso. Eu já tinha abandonado a estrada e caminhava na terra molhada, e assim foi toda a primeira parte do percurso em Reguengo, onde parei para almoçar. No local não havia almoço, então eu comi um sanduíche, ou sande, como eles chamam em Portugal, e bebi um copo de vinho tinto. Agora a paisagem era totalmente de cidadezinha do interior, a região metropolitana de Lisboa definitivamente havia ficado para trás. O Caminho passou por Valada e Porto Muge da mesma forma, beirando a linha do trem e adentrando um pouco as localidades, mas a paisagem parecia sempre a mesma.

Até então estava tudo bem, vinha agora o último trecho da viagem rumo à Santarém, que era onde eu pretendia chegar. Eu realmente não sabia se conseguiria, por causa do horário que iniciei a jornada hoje, pois afinal de contas eram 32 km a serem percorridos para chegar no destino final. A paisagem agora era rural, mas a chuva não para parava de cair – e quando dava uma trégua,  as moscas incomodavam bastante; as moscas começaram a “dar o ar de sua graça” ainda em Reguengo, enquanto eu almoçava. Eu tentava espantar aqueles insetos insistentes cantando pelo caminho, e me dava a impressão que estava funcionando. Porém, alguns pensamentos pareciam trazê-las de volta.

Era 12 de outubro, o dia em que eu e Grazi completaríamos 10 anos juntos. Mas não estávamos mais juntos. Apesar de eu lutar contra e da boa conversa que tivemos, onde parecia que havíamos terminado a relação numa boa, a tristeza era inevitável, e o que eu tinha prometido a mim mesmo que não faria mais, aconteceu. Chorei mais uma vez. Chorava enquanto caminhava, pedia a Deus que tirasse ela de mim. Não havia mais mágoas ou qualquer outro tipo de ressentimento, felizmente isso tais coisas já não existiam mais, mas eu precisava me livrar de todo e qualquer sentimento, que só restasse carinho e respeito. Aos poucos fui me acalmando, com a certeza de que em algum momento o meu pedido seria gentilmente atendido…

O último trecho do dia parecia não ter fim, eu já avistava Santarém ao longe (só podia ser), mas eu andava, andava e parecia que não saía do lugar, a distância parecia sempre a mesma. A paisagem agora alternava entre vinhedos e plantações de pimentão, e foi ali que experimentei pela primeira vez um pimentão tirado diretamente do pé, um pimentão vermelho que estava uma delícia! De sobremesa, um cacho de uvas – espero que ninguém tenha ficado chateado comigo, mas acho que não faria falta, pois as plantações eram de perder de vista, pareciam infinitas.

A chuva caía, as moscas infernizavam mais uma vez. Eu comecei a me questionar o que de fato estava fazendo ali, pois estava muito cansado, completamente esgotado fisicamente e com fortes dores nos ombros e nos pés. Tentei falar com Deus, perguntava o porquê daquilo, especialmente quando as moscas vinham com tudo e tiravam a minha paz. Paz, era o que eu mais precisava naquele momento. Eu só queria chegar a Santarém logo, mas sempre que eu achava que estava perto, havia sempre algo mais a ser percorrido. Voltava a chover forte, quando eu avistei a placa de Omnias, que era a última localidade antes de Santarém. Omnias ficava no pé da subida para Santarém, que, como desconfiei, era aquela cidade no alto de umas colinas. Agora chovia demais, enquanto eu subia rumo ao destino final do dia com toda aquela água que caía do céu que mais pareciam lágrimas devido àquele fatídico 12 de outubro de 2015.    

Os últimos quilômetros foram bem difíceis, uma subida muito ingrime, para acabar de matar este que vos escreve. Enfim, adentrei a cidade e logo vi um snack bar, onde tive uma ideia que tinha tudo para ser tornar uma constante durante do Caminho de Santiago – sopa e uma cervejinha antes de dormir. A sopa estava maravilhosa, e depois desta janta improvisada fui procurar os bombeiros locais, passando antes na polícia para eles carimbarem a minha credencial do peregrino. Acabei dormindo na Escola Prática, que fazia parte da Cruz Vermelha da cidade. Foi a melhor noite até agora, e acredito que cada vez mais noites melhores virão, pois o tempo cura e já sinto uma transformação gradativa ocorrendo em meu interior.

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