Diário de uma Transformação

Dia 2 – 09 de outubro de 2015 –  Surpresas boas, surpresas más e uma retirada estratégica

Ainda estava escuro quando acordei e mas eu não tinha noção de que horas eram, pois não havia levado celular nem relógio para a viagem. Enquanto arrumava as coisas, bate o sino de uma igreja anunciando que são sete da manhã, o que me deixa mais animado, pois eu pretendia sair por volta das oito. Desço e não encontro ninguém nas dependências dos Bombeiros Voluntários de Alhandra, com exceção de duas senhoras que chegaram cedo e cuidavam da limpeza, no que as cumprimento e vou embora, enquanto o dia amanhecia.

Assim que saio do prédio, dou de cara com uma senhora que vinha passando, e aproveito para perguntar a ela em que direção fica o Caminho de Santiago, mas ao olhar para a direita e ver o rio, imaginei que seria por ali, o que foi também sugerido pela senhora. Ela acabou me acompanhando e puxou assunto comigo, e quando me perguntou por que eu fazia o Caminho, mais uma vez não consegui conter as lágrimas. A simpática senhora foi muito amável comigo, falava de Deus, de como a vida dela era antes e como mudou depois que deixou Deus entrar em sua vida, dizia para eu não desanimar. Fiquei bastante emocionado com o carinho dela, o que fez com que eu desconfiasse seriamente que ela era o 2º anjo que aparecia em meu caminho.

Sigo pelo Parque Ribeirinho de Alhandra, um bonito caminho para pedestres e ciclistas à beira do Rio Tejo, com destaque para os lindos painéis artísticos à esquerda indicando as atrações do local, muito interessante e gostoso de ver. Fazia bastante frio, tive até que colocar as luvas quando me aproximei de Vila Franca de Xira. Chegando lá, as setas indicaram outro parque à beira do rio para eu atravessar, desta vez um parque mesmoParque Urbano de Vila Franca de Xira, com belas árvores, bancos para sentar, brinquedos para crianças, áreas de alimentação etc. Sento um pouco para descansar e admirar a paisagem, que cada vez mais deixa os ares mais urbanos para trás. Sigo o meu caminho e mais na frente acabo escolhendo uma alternativa errada, fazendo com que eu voltasse um pouco para recomeçar de onde desviei. Ainda bem que foram só algumas dezenas de metros, pois havia lido relatos onde as pessoas se perdiam e tinham que voltar quilômetros para retomar a direção certa.

O Caminho de Santiago entre Vila Franca de Xira e Vale do Carregado ficou interessante, saindo da área urbana e indo por estradas de asfalto e depois de terra. Senti uma sensação muito boa assim que percorri os primeiros metros de asfalto, estava uma neblina bonita, um friozinho gostoso, e subitamente me deu vontade de cantar. E lá estava eu, cantando e cantando, cantando como há tempos não fazia, “desenterrando” todas as minhas músicas, umas já um tanto “clássicas”, outras mais esquecidas. Foi uma experiência maravilhosa, sentia uma liberdade incrível, e uma vontade muito forte de retomar minha carreira musical tomou conta de mim de uma forma intensa. Será que o Caminho estava falando comigo? Seria uma mensagem pra mim? Vieram vários pensamentos na cabeça, pensamentos que me apontavam uma direção, uma direção que a princípio eu não queria seguir, era estranho… Estranho porque realmente parecia o correto a se fazer. Entretanto havia mais coisas envolvidas, como a incerteza de meu relacionamento com a Grazi e a grande confusão e tragédia que havia se tornado nosso casamento. Bom, só me restava seguir cantando, era o que me fazia bem ali, e resolvi abraçar aquele momento com toda a minha força…

Caminho de Santiago agora beirava a linha do trem, foi assim em toda a extensão de Vale do Carregado, quando de repente as setas indicam que a direção a se seguir era no meio de campos de terra preparada para agricultura. Sigo por esta paisagem interessante por um bom tempo, até que finalmente Vila Nova da Rainha surge à minha frente, a primeira cidade realmente com “cara de interior”. Devia esta na hora do almoço, meu estômago roncava, fui então procurar um lugar para comer. Encontrei um snack bar que servia almoço, onde comi uma lula recheada deliciosa, e o engraçado é que eu tinha entendido a moça falar rola recheada – felizmente eu estava errado.

Sigo caminho agora pela rodovia, sempre caminhando de frente para os carros, nunca dando as costas a eles, como é o mais recomendado quando não há calçadas, ou passeios, como eles chamam aqui em Portugal. Passo por uma escola e uma menina grita para os coleguinhas Olha lá um peregrino, e eu acho curioso, pois agora isso é o que realmente sou, um peregrino, e isso é perceptível para qualquer pessoa, de qualquer idade. Continuo caminhando, com a ajuda do cajado que encontrei, um cajado que pedi a Deus que me o enviasse, pois o peso da mochila estava massacrando meus ombros. Esse era o percurso mais pesado do dia –  Azambuja, o destino final de hoje, parecia não chegar nunca. Resolvo parar em um posto de gasolina e toma uma cerveja pequena, daquelas que são chamadas de mini por aqui, e descubro que só falta 1 km para Azambuja, o que me enche de ânimo. Levanto, retomo o caminho e em pouco tempo estou adentrando a cidade, e logo encontro o QG dos Bombeiros Voluntários. Era aproximadamente quatro da tarde, ainda bem que havia conseguido chegar cedo, pois foi último a conseguir alojamento para aquela noite, porque um grupo de 94 pessoas hoje me fariam companhia, ao contrário da noite solitária do dia anterior. Mais uma mensagem do Caminho: às vezes as coisas mudam da água para o vinho em pouco tempo.

Tomo o meu banho e pela primeira vez resolvo ir checar os meus e-mails, e vou até a biblioteca municipal, que ainda estava aberta. Estava me sentindo muito bem, o Caminho de Santiago hoje havia me revelado algumas coisas, tinha ajudado a me recuperar um pouco da tristeza e do lamento, mais eis que vejo meus e-mails e tomo um susto: havia pessoas me avisando que alguém tinha invadido o meu perfil no facebook e estava postando coisas muito íntimas do meu relacionamento com a Grazi como se fosse eu. Estavam se passando por mim, eu estava sofrendo um roubo de identidade. Nossa vida havia sido exposta, todos os e-mails que trocamos recentemente durante nossa terrível crise estavam ali, para qualquer um ver, simplesmente inacreditável. E o pior é que eu tinha perdido o acesso à conta, haviam trocado a minha senha e o meu e-mail de recuperação. Eu estava de mãos atadas. Paralelamente a isso, Grazi me manda um e-mail gigante, com um texto que mexeu comigo de uma maneira geral. Não consigo dormir à noite e no fim tenho que tomar uma decisão: resolvo abandonar o Caminho de Santiago, não posso continuar em frente com “o circo pegando fogo”. Além disso, preciso conversar com a Grazi, nem que seja uma conversa final e definitiva, preciso resolver minha vida com ela de uma vez por todas. Sendo assim, na manhã seguinte retorno à Lisboa, na esperança de que estava fazendo a coisa certa.

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