Diário de uma Transformação

Dia 1 – 08 de outubro de 2015 – Os primeiros passos

Acordo cedo e antes das sete já estava me despedindo da minha mãe e do Fernando, ouvindo as diversas recomendações maternas, especialmente o cuidado e o dê notícias.  Era chegada a hora, o Caminho de Santiago se abria à minha frente, ali mesmo, na descida da ladeira em Cascais. Era como um pré-aquecimento, pois oficialmente começava na Igreja da Sé, em Lisboa; mas na verdade, o Caminho de Santiago já tinha começado há algum tempo pra mim, desde que comecei a me reerguer e sair do fundo do poço onde eu estava.

Entro no trem para Lisboa às 07h16, seriam 33 minutos até o destino final. Não estava encontrando o meu passaporte e a credencial do peregrino, bateu uma ponta de desespero, já estava achando que iria ter que pegar a chave com a minha mãe e voltar para Cascais para procurar os documentos na casa dela, quando uma voz me disse procure de novo, procura direito. Pronto, encontrei os documentos em um mesmo bolso onde eu havia procurado antes. O Caminho já me ensinava uma lição ali mesmo no trem, que de nada adianta o desespero, adianta é estar atento e fazer as coisas direito.

Durante a viagem sobre trilhos, começou a bater uma tristeza, a já conhecida tristeza que é uma mistura de lamento e incompreensão das coisas terem acontecido de um jeito tão estúpido que provocou a separação de um casal que tinha tanta afinidade e se amava tanto. Tento expulsar a tristeza e os pensamentos e lembranças, mas não consigo, e as lágrimas escorrem pelo rosto enquanto caminho à beira do Tejo em direção ao ponto de partida do Caminho Central Português, a via lusitana do Caminho de Santiago que vou percorrer nos próximos dias. Respiro fundo e sigo em frente, na certeza de que tudo vai ficar bem e que nada é por acaso.

Chego à Igreja da Sé um pouco antes das oito, mas descubro que a igreja só abre às nove. Aproveito para me alongar novamente e tomar um cafezinho para passar o tempo, e na hora marcada me dirijo à igreja, onde aguardo pacientemente minha vez de ser atendido, pois precisava do primeiro carimbo na minha credencial do peregrino, são necessárias ao menos duas por dia. O senhor responsável pela função me leva para a sacristia, ele é simpático comigo e diz que ainda hoje acontecem milagres, e me conta um caso que aconteceu com um conhecido dele. Começo a ficar emocionado, também quero falar, mas não consigo, só consigo dizer eu preciso, a voz engasga e não sai mais, e novamente lágrimas tomam conta da cena. O homem olha pra mim, pergunta o que foi, e eu enfim consigo dizer, ainda soluçando um pouco, que eu estava fazendo partindo para o Caminho porque precisava me reerguer totalmente, pois tinha perdido a minha família, meu casamento havia acabado, uma relação de 10 anos. Ele me conta que aconteceu o mesmo com ele, uma relação de 26 anos, que ele ficou que nem eu, que só não fez nenhuma besteira por causa dos filhos, mas que hoje está muito bem, o que acaba me confortando e me acalmando. Fico tocado com aquele momento e agradeço a Deus por estar permitindo que eu viva essa experiência, que nos primeiros minutos já me trazia uma pessoa especial e uma conversa confortadora.

Saio da Igreja da Sé às 9h30 e começo a trilhar oficialmente o Caminho de Santiago, sempre seguindo as setas amarelas, que por um bom tempo neste início de jornada estarão acompanhadas das setas azuis, que sinalizam o Caminho de Fátima. O trajeto caprichosamente me leva para bem perto de onde ela e as crianças estão morando, tenho vontade de ir lá de despedir (tão pertinho!), mas não vou, sei que não é o certo, sei que não posso. Continuo em frente, estou bem disposto, o clima está muito agradável, um legítimo dia de outono europeu, nem quente, nem frio, e um ventinho bem gostoso casando perfeitamente com o Sol. Depois de subidas e descidas e curvas e retas, chego ao Parque das Nações, já percorridos sete dos 27 km que eu havia planejado de percorrer no 1º dia.

Após uma breve pausa para lanche e descanso, sigo em frente pela beira do Rio Tejo, percorrendo diversos tipos de chão, dentre asfalto, pedras portuguesas, terra, e decks de madeira, este último especialmente perto da Ponte Vasco da Gama, uma obra arquitetônica muito bonita. Passo por baixo da ponte e dali em diante o Caminho abandona o litoral e começa a adentrar o continente, e eu me confundo com uma seta diferente, que me leva para uma direção errada. Eu desconfio que há algo estranho, para e olho para trás, quando quase imediatamente um senhor me pergunta Vai para Santiago?, e me explica o caminho certo. Não deixo de pensar que este não será o único anjo colocado em meu caminho, apenas o primeiro.

Caminho de Santiago agora está se afastando da urbanidade e seus barulhos, está adentrando a natureza, margeando a beira de um rio. Eu ainda não havia conseguido a minha concha vieira para carregar comigo até a Espanha – eu havia lido que esta concha era o símbolo da peregrinação a Santiago, que é como se a concha fosse adquirindo conhecimento durante o Caminho para depois ser oferecida (jogada) de volta ao mar, significando desta forma que o conhecimento adquirido pelo peregrino agora seria compartilhado com todos. E por esta razão muitos acreditam que o Caminho de Santiago não termina em Santiago de Compostela, mais sim em Finisterre, no litoral, um lugar que por milhares de anos foi conhecido como o fim do mundo. Enfim eu encontro a minha concha ali, encravada no chão daquele caminho de terra à beira de um pacífico rio, e o meu destino até o fim do mundo agora está selado.

Depois de muito andar no meio do mato, chego ao asfalto e logo dou de cara com uma placa de um snack bar, que tinha a propaganda de algumas refeições. Eu ainda não havia almoçado e já passavam das duas da tarde, pelas batidas que ouvi ao longe de um sino de igreja instantes atrás. Porém o restaurante saía um pouco da rota, e eu então optei por continuar o percurso oficial, ali na frente deve ter um lugar para comer, disse para mim mesmo. Arrependi-me profundamente, e esta foi mais uma lição valorosa do Caminho: se está com algo para resolver e a solução aparece à sua frente, vá ao encontro dela, mesmo que isso signifique desviar um pouco do caminho… depois é só retornar para ele!

Continuo seguindo em frente, seguindo as setas, mas elas não me levam a nenhum lugar para comer, o que começa a me desanimar um pouco. Quando eu percebi que o Caminho iria enveredar por mais um bom pedaço isolado no mato, eu parei, sentei e decidi voltar um pouco, devia ter alguma coisa por ali onde eu pudesse me alimentar. Perguntei a duas senhoras e elas me indicaram um Café meio escondido, onde finalmente almocei e descansei um pouco mais, pois meus ombros estavam me matando. Agora eram três da tarde e eu descobri que já estava em Alpriate, mas ainda faltava uma localidade antes de chegar em Alverca do Ribatejo, o destino final que eu havia planejado para o 1º dia de caminhada.

Agora os pés também davam sinais de cansaço, já havia percorrido algo perto dos 20 km, o que já era bastante coisa para uma primeira vez. Continuo em frente, parando sempre que o corpo sinalizava, e prosseguindo novamente um Caminho de Santiago muito bem sinalizado. Eu não havia levado nenhum guia, só tinha anotado em meu caderno as cidades da rota e o meu itinerário diário com a quilometragem e as localidades por que passaria em cada dia, para eu não me perder. Após uma longa caminhada que parecia não ter fim (já estava muito cansado), estava chegando enfim a Alverca do Ribatejo, mas ainda faltava quase 2 km em um caminho feito de madeira (tipo deck) sobre uma reserva ecológica muito bonita até chegar à cidade.

Chegando a Alverca do Ribatejo, pergunto a uma moça que passeava com o seu cachorro onde havia um albergue ou qualquer outro lugar semelhante onde eu pudesse pernoitar, e ela, com um sotaque brasileiríssimo, me explica que tenho que voltar um bocado, o que me deixa bastante desanimado, pois eu não tinha mais condições físicas de continuar andando muito. Enfim, não tinha jeito, lá fui eu caminhar mais alguns quilômetros, na esperança de solucionar logo esta questão. Não solucionei. Dos diversos lugares que existiam, só um tinha um quarto disponível, mas o senhor me cobrou muito caro. Após eu ter procurado mais um pouco e de já não estar raciocinando direito, eu me convenci de ficar com aquele quarto mesmo, mas para minha surpresa ele tinha acabado de ser alugado para um casal.

Eu fiquei desolado e acho que isso ficou bem visível em meu rosto, pois o próprio senhor da hospedaria ficou tentando me ajudar a encontrar uma solução, e no fim me indicou que eu pegasse um taxi na rodoviária (mais 2 km de caminhada) até os Bombeiros Voluntários de Alhandra, que era a próxima cidade da minha rota. Eu ainda tentei alojamento em um centro desportivo e depois em uma casa de misericórdia para idosos, mas na consegui nada, agora só me restava seguir a indicação daquele senhor, e assim fui parar nos Bombeiros em Alhandra, de onde escrevo estas linhas já de banho tomado e deitado. Fui muito bem recebido aqui, cheguei a me emocionar quando vi o alojamento e os colchões, e espero amanhã estar inteiro para mais um dia percorrendo o Caminho de Santiago.

Vamos que vamos!

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